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educação diferente

Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

educação diferente

Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

A deficiência mental/Intelectual

Introdução

Para que a sociedade seja verdadeiramente inclusiva, é imperioso que as pessoas, de uma forma geral, estejam preparadas para lidar com a diferença.

As crianças, jovens e adultos com deficiência mental apresentam determinadas características, necessidades e limitações que podem constituir barreiras à sua inclusão social.

Deficiência mental/Intelectual

Para definirmos o conceito - deficiência mental - temos, obrigatoriamente, de pensar em quociente de inteligência (mede o desempenho cognitivo com base nos resultados de testes específicos), isto porque, interfere directamente com o funcionamento intelectual de qualquer ser humano.

O primeiro teste para medir a capacidade intelectual foi desenvolvido por Alfred Binet (início do século XX). Numa primeira fase, o teste foi aplicado apenas nas escolas para identificar estudantes com dificuldades de aprendizagem.

Anos mais tarde, William Stern introduziu a expressão Quociente de Inteligência, assim como os termos idade mental e idade cronológica - para relacionar a capacidade intelectual de uma pessoa e a sua idade.

Posteriormente, David Wechsler criou um teste desenvolvido para adultos - Escala de Inteligência Wechsler para Adultos (que já passou por várias revisões).

Podemos definir a criança deficiente, como aquela que se desvia da média ou da criança normal em: características mentais; aptidões sensoriais; características neuromusculares e corporais; comportamento emocional e social; aptidões de comunicação e múltiplas deficiências, até de justificar e requerer a modificação das práticas educacionais ou a criação de serviços de educação especial no sentido de desenvolver ao máximo as suas capacidades (Fonseca, 1989).

Porém, nem todos possuem um desenvolvimento intelectual igual entre si, alguns sofrem de distúrbios intelectuais que advém de causas diversas. Tendo em conta, as causas/reflexos dos mesmos assim se identifica o tipo de deficiência.

A deficiência mental define-se como funcionamento intelectual geral significativamente inferior à média, que interfere nas actividades adaptativas e cognitivas (A.A.M.R., 1992).

O funcionamento intelectual significativamente inferior à média, associa-se a aspetos do funcionamento adaptativo, como: comunicação, cuidado pessoal, competência doméstica, habilidades sociais, utilização de recursos comunitários, autonomia, saúde e segurança, aptidões escolares, lazer e trabalho.

Níveis de deficiência mental

Para a Associação Americana para a Deficiência Mental e com Organização Mundial de Saúde o resultado do teste de Q.I. traduz-se em cinco graus de deficiência mental e distribuem-se em grupos. Assim sendo, temos:

Limite ou bordeline: estes têm muitas possibilidades, revelando apenas um ligeiro atraso nas aprendizagens ou algumas dificuldades concretas; usualmente, são provenientes de ambientes sócio-culturais desfavorecidos, podem apresentar carências afectivas, inseridas em famílias mono-parentais, etc... Contudo, têm em comum desfasamentos nos aspectos de ordem psicológica ligeira.

Ligeiro: abarca a grande maioria dos deficientes que, tal como no grupo anterior, não são claramente deficientes mentais, mas pessoas com problemas de origem cultural, familiar ou ambiental; podem desenvolver aprendizagens sociais ou de comunicação e têm alguma capacidade de adaptação/integração no mundo laboral; apresentam um atraso mínimo nas áreas perceptivo-motoras. De acordo com a literatura, na escola detetam-se com mais facilidade as suas limitações intelectuais.

Moderado ou médio: consideram-se os deficientes que podem adquirir hábitos de autonomia pessoal e social, tendo maiores dificuldades que os anteriores; podem, ainda assim, aprender a comunicar pela linguagem verbal, mas apresentam, por vezes, dificuldades na expressão oral e/ou compreensão dos convencionalismos sociais; o desenvolvimento motor é razoável e existe a possibilidade de adquirirem alguns conhecimentos pré-tecnológicos básicos que lhe permitam realizar algum trabalho; dificilmente chegam a dominar técnicas instrumentais de leitura, escrita e cálculo.

Severo ou grave: os indivíduos que se enquadram neste nível necessitam geralmente de proteção/ajuda, pois o seu nível de autonomia pessoal e social é muito pobre; por vezes têm problemas psicomotores significativos; poderão aprender algum sistema de comunicação mas a sua linguagem verbal será sempre muito débil; para além disto, podem ser treinados em algumas actividades de vida diária básicas e aprendizagens pré-tecnológicas muito simples.

Profundo: este nível aplica-se só em caso de deficiência muito grave em que o desempenho das funções básicas se encontra seriamente comprometido; estes indivíduos apresentam grandes problemas sensório-motores e de comunicação com o meio; geralmente, são dependentes de outros em quase todas as funções e actividades, pois as suas limitações físicas/intelectuais são gravíssimas.

Classificação educativa

Depois de efectuados os testes de valor do Q.I. (considerando a capacidade intelectual média igual a um Q.I. que se situa entre 90 e 110), temos a seguinte classificação educativa:

Nível Educável: capaz de aprender matérias académicas (leitura, escrita e matemática).

Nível Treinável: capaz de aprender as tarefas necessárias na vida diária (comer sozinho, vestir-se, cuidar da sua higiene pessoal).

Nível Grave e profundo: não é capaz de valer-se por si mesmo, inclusive nas atividades da vida diária e comunicação de nível funcional.

Características evolutivas

De uma forma geral, nos deficientes mentais, o comportamento pessoal e social é muito variável e não podemos falar de características iguais em todos os indivíduos com deficiência mental. Isto é, que possuam as mesmas experiências ambientais e/ou a mesma constituição biológica o que faz com que comportamentos idênticos correspondam a diagnósticos distintos.

Algumas características dos respectivos domínios:

Características do domínio físico: falta de equilíbrio; dificuldades de locomoção; dificuldades de coordenação; dificuldades de manipulação;...

Características do domínio pessoal: ansiedade; falta de autocontrolo; tendência para evitar situações de fracasso; possível existência de perturbações da personalidade; fraco controlo interior;...

Características do domínio social: atraso evolutivo em situações de jogo; atraso evolutivo em situações de lazer; atraso evolutivo em situações de actividade sexual;...

Assim sendo, uma observação cuidada/especifica de cada indivíduo, com base nas características associadas a cada domínio, apresentar-se-á como uma mais valia para rentabilizar as aprendizagens privilegiando as áreas mais fracas (da criança, jovem, ou adulto).

Considerações finais

Os cidadãos com deficiência mental apresentam dificuldades ao nível da integração. Contudo, a sociedade deve estar preparada para os receber, aceitar e integrar - dando-lhes a possibilidade de se tornarem pessoas ativas e participativas.

Apesar da legislação, que estabelece um conjunto de direitos, as pessoas com deficiência mental continuam a ser vítimas de discriminação numa série de aspetos/situações.

A complexidade que caracteriza a deficiência mental aliada às diferentes áreas, dimensões e problemáticas - remetem para a necessidade de apoio por parte de diversos campos de intervenção, como: profissionais da área da educação, medicina, psicologia, serviço social, fisioterapia, entre outros...

Participar da construção de uma sociedade inclusiva é como fazer longos passeios por novas ideias e sentimentos. Refletir sobre a inclusão acorda os nossos monstros mais íntimos. Com alguns deles nunca nos havíamos deparado antes. Não adianta querer reduzir as dimensões do que será caminhar por um trilho de uma sociedade inclusiva. Temos que arriscar (Werneck, 1997).

António Pedro Santos