Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

educação diferente

Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

educação diferente

Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

Sindrome X - Frágil - Estudo de Caso (número 10)

3 – Estratégias de activação do desenvolvimento

É nos primeiros períodos sensíveis da vida que construímos, ou não, o nosso sentido de coerência e os recursos gerais de resistência, os quais Milello e Ojeda (2000) identificam como sense of coherence – SOC, e general resistance resources – GRR’s.

O SOC é um sentimento global, abrangente, de que, o que quer que aconteça na vida, será algo que se pode entender, será algo que se pode administrar e será algo que, como tudo o mais, tem um sentido e um significado. Correlaciona-se com qualidade de vida e com a maioria dos parâmetros psicológicos de bem-estar. É a base na qual assenta a capacidade que a pessoa tem para usar os seus GRR’s.

Os GRR’s são de carácter externo e interno que permite às pessoas terem à sua disposição recursos de carácter interno e recursos de carácter externo o que lhes facilita administrar a vida. Os GRR’s são de todo o tipo; desde mecanismos materiais até mecanismos psicológicos. Mas estes por si só não se bastam, é preciso ter a capacidade para os usar. Estes relacionam-se com a vida interior, existencial, o suporte social e às actividades diárias isto é, o indivíduo tem de ser capaz de formar uma visão do que é a vida, ter pessoas em sua vida, que são o seu suporte social, ter estabilidade mental e estar envolvido em actividades diárias gratificantes.

Torna-se assim fundamental a criação e desenvolvimento de estruturas que visem a co-responsabilização através da colaboração e participação e ainda a aceitação de cada um por si próprio, tal como é, e pela sociedade, porque mesmo os indivíduos aparentemente carentes são portadores de recursos e capacidades que são uma mais valia para se enfrentar as adversidades da vida.

O professor enquanto mediador da relação “sujeito – objecto” tem um papel preponderante na relação entre desenvolvimento cognitivo e aprendizagem.

É, hoje, sobejamente conhecida a premissa que defende que há interdependência entre o desenvolvimento e a aprendizagem, como o é, também, o facto de o sucesso da aprendizagem depender em grande parte “do nível inicial de desenvolvimento das crianças e dos instrumentos de coordenação das acções correspondentes a esse nível” (Piaget, 1959, cit por Sousa 1995: 198).

Neste contexto, cabe ao professor proporcionar e facilitar instrumentos e técnicas que permitam ao aluno construir de forma activa e sistematizada o seu próprio saber. Assim, o professor coloca o aluno numa atitude activa de aprendizagem, levando-o a procurar respostas para as suas próprias questões, incentivando-o a utilizar e aplicar as aquisições cognitivas realizadas, verificando assim a eficácia do seu próprio conhecimento.

Assim sendo, “as actividades desenvolvidas na sala de aula apoiar-se-ão em materiais e objectos e operações lógicas elementares que constituíram para os alunos uma ponte cognitiva entre o real e o conceptual” (Sousa, 1995: 199). Esta forma de actuação, por parte do professor, promove o desenvolvimento conceptual nos alunos e considera as características das componentes de activação do desenvolvimento psicológico. Estas componentes enquadram-se em naturezas diversas.

As componentes de natureza física e biológica, que não se podem desligar da natureza física e biológica do indivíduo, assentam num todo unitário e orgânico que contempla todas as possibilidades de expansão futura e se apresenta como um mundo fenomenal do ser humano, no qual ele é compreendido e são confirmadas as suas possibilidades. Trabalhar esta componente permite desenvolver na criança atitudes de simpatia, confiança e sobretudo uma empatia que permite a comunicação com os outros.

As componentes de natureza psicológica relacionam-se com as dimensões cognitiva, afectiva e volitiva. Neste sentido, trabalhar a parte afectiva e cognitiva permite desenvolver a criança na sua globalidade, na medida em que cada uma destas dimensões se relaciona directamente com um aspecto do seu desenvolvimento. A dimensão afectiva comporta os comportamentos agradáveis ou desagradáveis, as emoções, os sentimentos, as paixões, … garantindo o bom funcionamento das estruturas da personalidade. A dimensão cognitiva prevê o conhecimento ao nível da cognição e da metacognição. Se por um lado deve ser estimulada por forma a ter consciência do conhecimento em geral, por outro, o sujeito deverá ter consciência do conhecimento que possui. Assim sendo, realizar actividades de conhecimento, que permitam à criança adquiri competências, é trabalhar o nível cognitivo. Colocar a criança em situação de reflexão e avaliação dos seus conhecimentos é desenvolver o aspecto metacognitivo. A dimensão volitiva, por sua vez, permite à criança tomar decisões de forma consciente, responsável, livre e autónoma e envolve todas as capacidades e energias de que ela é capaz e de que dispõe. Trabalhar conteúdos no âmbito da cidadania é uma boa estratégia de desenvolvimento desta dimensão.

No que refere às componentes de natureza axiológica estas compreendem os valores físicos, biológicos, artísticos, científicos, pedagógicos entre outros e funcionam como motivos, razões e móveis de carácter anímico, cordial e afectivo. Apresenta-se imprescindível “conhecer o que é que faz correr uma criança (…) para saber como é que elas podem e devem ser activadas no seu desenvolvimento” (Tavares, 1995: 50).

Relativamente às componentes de natureza social e contextual estas permitem-nos conhecer o indivíduo no seu todo, na medida em que ele só o é nas suas circunstâncias e no seu mundo fenomenal, ou seja em situação. Através do conhecimento destas duas realidades podemos compreender, activar e optimizar o desenvolvimento da criança.

O ser humano em todas as suas dimensões é essencialmente um ser falante, por tal, deveremos desenvolver as componentes de natureza linguística, a comunicação, uma vez que o homem existe, habita, vive, exprime-se e desenvolve-se a partir dela. Desta forma o papel do professor é proporcionar à criança situações de comunicação.

            Após esta reflexão podemos concluir que para activar o desenvolvimento psicológico do ser humano e em particular da criança com deficiências se deve em primeiro lugar estabelecer uma relação interpessoal dinâmica baseada na construção pessoal e social do mesmo. Assim sendo, cabe ao professor orientar a sua actividade no sentido da sua optimização envolvendo todas as vertentes da sua personalidade, precisando para tal de conhecer e mobilizar as áreas mais disponíveis da criança. Deverá para tal programar uma intervenção viva, dinâmica, pessoalizada em que todos os seus actores e autores assumam e se envolvam de um modo progressivo e coerente no processo.

            A activação do desenvolvimento psicológico (ADP) deverá ser avaliada e realçada sistematicamente num movimento espiral, tal como se apresenta na Figura 8, não deverá ser estática e necessita recorrer a uma avaliação sistemática para posterior adaptação de estratégias e materiais de trabalho.

Numa primeira fase dever-se-á fazer uma análise da situação considerando aspectos como o sujeito em si mesmo, as tarefas que lhe são propostas os conhecimentos que revela, os processos e os contextos em que se verifica a referida situação. Seguidamente far-se-á uma caracterização dos componentes de ADP face ao sujeito, às tarefas, aos conhecimentos e processos, recursos materiais e humanos bem como aos contextos. Passando à fase seguinte procede-se à análise dos componentes de ADP e dos processos e estratégias de intervenção. Estas análises centram-se ao nível do sujeito, tarefas, conhecimentos, processos, recursos materiais e humanos e nos contextos. A fase que dá seguimento a este modelo debruça-se sobre processos de intervenção em ADP e tem como referência a função de interacção de todos os componentes do processo. Finalmente procede-se à avaliação da ADP tendo como pano de fundo todos os componentes e os resultados do processo. Esta avaliação visa não só a continuidade do processo mas também tem como objectivo a sua optimização uma vez que, chegados a este ponto, se dá de novo início ao desencadear de todo o processo, isto é, este processo de Activação do Desenvolvimento Psicológico tem uma dinâmica em espiral que lhe é própria e lhe confere o dinamismo próprio de todo e qualquer processo de desenvolvimento humano.

 

 

 

4 – Acções destinadas a promover a resiliência

Segundo Costa (1995, cit. por Monteiro et al, 2001), resiliência não é privilégio só de alguns, não é uma qualidade única nem uma característica intransferível de um grupo restrito de pessoas. A resiliência é a conjugação de “qualidades comuns que a maioria das pessoas já possui, mas que precisam estar correctamente articuladas e suficientemente desenvolvidas.

Desenvolver a resiliência é, antes de mais, conhecer a história da pessoa ou grupo, procurar analisar essa história no contexto e através da procura de soluções motivar e fortificar os indivíduos envolvidos, promovendo assim a resiliência. Para que uma criança se torne num adulto resiliente é necessário que, desde o seu nascimento e pela vida fora, viva num clima de carinho, afectividade, estabilidade emocional, amor incondicional, sempre demonstrados na sua forma física e verbal e adequados à idade, respeitando a sua evolução.

            A partir dos dois anos os pais, ou os adultos com quem esta mantém um vínculo afectivo, devem começar a incentivar ao cumprimento de regras, fazendo-o de forma disciplinada para que a criança não se sinta humilhada nem crie sentimentos de rejeição. Os comportamentos dos que a rodeiam devem transmitir confiança, optimismo e boa conduta, podendo desta forma servir de modelos a seguir. Sempre que esta tomar uma atitude positiva deve ser elogiada, tal como o deve ser quando agir de forma autónoma ou com pouca ajuda. À medida que a linguagem se desenvolve o adulto deve ajudá-la a reconhecer e expressar os seus sentimentos, bem como os dos outros, e a identificá-los. Gradualmente, os pais devem falar com as crianças de forma a prepará-las para enfrentar situações adversas, utilizando uma linguagem positiva e que incida nas expressões claras e directamente relacionadas com as fontes de resiliência. Acima de tudo, os adultos que a rodeiam, devem respeitá-la em todas as suas dimensões. Deste respeito depende a sua evolução mais ou menos rápida.

Quando as crianças atingem os quatro anos é necessário iniciar uma outra etapa, dando-lhe um apoio de carácter mais expressivo. É preciso tranquilizá-la através de expressões físicas de carinho e de falas suaves que a estimulem a utilizar técnicas para se acalmar a si mesmo, por exemplo "respirar profundo e contar até dez", antes de se expressar. Levá-la a desenvolver uma auto – estima positiva para que possa adquirir confiança em si mesma e um optimismo que lhe permita enfrentar os desafios negativos que a vida lhe possa vir a proporcionar no futuro. É essencial que se estimule o reconhecimento dos seus sentimentos e do seu temperamento, bem como dos que o rodeiam, levando-a a criar sentimentos de empatia. Sempre que possível, devem-se evocar situações adversas, imaginárias ou não, que permitam que a criança desenvolva características resilientes que a tornem capaz de, perante uma situação concreta, superá-las de forma positiva. É também necessário para o seu bom desenvolvimento que se estimule a comunicação, a procura de ajuda em situações difíceis, bem como o desenvolvimento de habilidades próprias para solucionar os seus próprios problemas. Acima de tudo, é necessário ajudar a criança a aceitar as responsabilidades e consequências dos seus actos, pois esta precisa ter consciência de que tudo o que possa fazer ou dizer tem consequências directas na sua vida, que podem ser positivas ou negativas, dependendo das suas opções.

Quando a criança atinge os oito anos e até aos onze as acções a desenvolver são basicamente as mesmas que as anteriormente referidas só que adequadas a esta idade. Deve-se estimular cada vez mais a expressão de sentimentos e emoções de forma adequada. É também importante estimular o uso da linguagem para esclarecimento de dúvidas, problemas, situações, regras e expectativas, que a tornem capaz de seguir uma conduta consistente que demonstre que segue os valores e as regras que lhe foram anteriormente transmitidos.

Parafraseando Sprinthall e Collins (1999), diremos que o sucesso na vida depende mais da maturidade psicológica que dos conhecimentos académicos que possuímos.

Assim sendo, o papel do educador deve incidir na tarefa de activar os processos do desenvolvimento psicológico, exigindo-se especial atenção frente às crises surgidas e aos acontecimentos de vida, emergentes do processo de transição.