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educação diferente

Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

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Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

“Ensinar é marcar um encontro com o aluno” - relato de uma experiência

Muitas vezes, os professores também têm culpa pelo desinteresse dos alunos. Porquê? Porque como em todas as áreas profissionais há professores incompetentes, desmotivados, e que não fazem um esforço para motivar os alunos.

 

Vou contar-vos o que se passou com um aluno meu no ano passado.

...

 

Tive um caso de um aluno no ano passado que me provou que às vezes acreditar vale a pena e que é possível mudar a realidade que nos rodeia.

 

Esse meu aluno, o D., era um aluno com vincadas características de Défice de Atenção por Hiperactividade, e era uma criança, no mínimo especial... para não dizer difícil! A minha postura com este aluno teve que fugir ao caminho "pré estabelecido".

 

Dando uma imagem geográfica, para melhor me fazer entender:
Um rio, no seu desempenho, desde a nascente até à foz, pode ser rectilíneo ou apresentar curvas ou ainda meandros.
O ambiente escolar pode ser visto muitas vezes como um rio meandrizado que, face a um obstáculo, o contorna aproveitando as áreas menos acidentadas para prosseguir o seu percurso. Como a velocidade e o seu caudal não são suficientemente poderosos para desbravar caminhos, vê-se obrigado a enveredar pelo facilitismo.

Sentia-me revoltada quando via os meus colegas a falar do D.: “porque ele é insuportável”, “porque ele é desatento”, “porque tem bichos-carpinteiros”, “porque destabiliza a aula”... Porque, porque, porque! Tirando dois ou três professores, ninguém fazia um esforço para entender aquele rapaz. Só lhe apontavam o dedo... ninguém lhe dava a mão.

 

Dei por mim a ser empurrada pela corrente em direcção ao facilitismo, o que me forçou a nadar “contra a maré” e a estabelecer medidas para que o processo de ensino-aprendizagem desse aluno fosse levado a bom porto!


Este facilitismo tem mesmo de ser combatido, contudo, implica uma disponibilidade interna para enfrentar as inovações e essa condição não é comum ao caudal dos sistemas educacionais e aos professores em geral.


De facto, pensamos que sabemos tudo e geralmente fugimos do que desafia a nossa competência de ensinar. Queremos que os alunos se acomodem também e que se contentem ao terem aprendido o “velho” – aquilo que nós sabemos e lhes ensinamos.


Perante este “afluente vigoroso” que era o D. deixei-me levar pelo prazer de descobrir... passou a ser para mim tarefa relevante e indispensável. Tive de me debruçar sobre o assunto para melhor poder empreender esta tarefa, e revi muitos dos meus esforços para “marcar um encontro” com este aluno. Iria ele beneficiar e toda a turma (sempre distraída com as suas pantominas)... E no fim quem mais ganhou fui eu.

 

Afinal, ensinar é marcar um encontro com o aluno, o que implica uma mudança de atitude diante do mesmo.


O D. tinha uma dificuldade enorme de se manter atento, com imensa dificuldade em se concentrar, sempre a perturbar as aulas, a responder antes de ser completada a pergunta, a interromper os colegas, a não aguardar a sua vez, sendo dificílimo mantê-lo sentado 90 minutos seguidos. Não obstante, era uma criança meiga, educada e muito inteligente. Ficava sempre muito espantado quando era repreendido... na cabeça dele nada de errado se estaria a passar.

 

Devido às suas boas notas, embora irregulares de uns testes para os outros, o D. não era acompanhado por professores de apoio educativo. Na minha disciplina esse apoio seria completamente desajustado, contudo não sei se não teria sido proveitoso para o aluno ter acompanhamento por outras disciplinas, como o Português e a Matemática.


O que alterei então no processo de ensino-aprendizagem do D. e, consequentemente da turma? Optei por utilizar algumas técnicas de gestão do comportamento. Logo na primeira aula, e após as apresentações, desafiei a turma a estabelecer um contrato pedagógico, estabelecendo, todos juntos, as regras de conduta dentro da sala de aula, que visavam o bom funcionamento das aulas. Estabelecemos deveres e direitos, tanto dos alunos como da professora, incentivando-os assim ao cumprimento das regras estabelecidas. Para reforçar o incentivo, se tudo corresse conforme o estabelecido em contrato, ao fim de cada aula, os alunos recebiam um globo, que era guardado pelo D. Ao fim de 5 globos os alunos tinham direito a uma determinada recompensa (definida também em conjunto), ao fim de 10 globos outra... sendo possível acumular todos os globos, atingindo assim uma recompensa mais “apetecível”. Não é preciso adivinhar que, de todos os alunos, o D. foi quem mais vibrou com a ideia.


Esta minha opção educativa mostrou-se extremamente positiva para o D., tendo resultado durante (quase) todo o ano. O reforço positivo que lhe era dado, incentivava-o a “controlar” os seus impulsos, embora muitas vezes não fosse possível.


Apesar de ter sido uma actividade de sucesso e que deu frutos com toda a turma (não só com o D.) fui duramente criticada por alguns colegas que consideravam perda de tempo estes momentos didácticos.


Outra coisa pela qual fui criticada (e mais valia não ter comentado) foi ter deixado o D. fazer desenhos durante as aulas. Um dia “apanhei-o” a desenhar... passei no seu lugar, recolhi o desenho e continuei a aula sem emitir um comentário. No fim, qual não é o meu espanto quando olho para o dito e era uma banda desenhada, onde todos os conteúdos temáticos que iam sendo abordados estavam presentes. Estava mesmo muito engraçado... E afinal ele até estava atento.

 

A partir desse momento o D. foi livre de desenhar aquilo que quisesse durante a aula, com a condição de o desenho ser alusivo aos conteúdos temáticos e de mo entregar no fim os desenhos. Ainda guardo alguns de recordação.


Estará errado ter tomado esta atitude? Eu penso que não... apesar das críticas. No fim do ano lectivo o D. só teve nota 4... não teve 5 porque nos conteúdos procedimentais era demasiado trapalhão. Sabia o que devia fazer, mas muitas vezes fazia-o mal no meio de tanta agitação.


Outra opção que tomei foi adoptar uma situação educativa agregadora central. Fi-lo tendo em conta a necessidade de motivar o D. e os outros alunos e dar um “fio-condutor” às aulas, durante todo o ano lectivo.

 

Por uma questão de gosto pessoal, mas também sabendo que a situação educativa agregadora iria agradar aos alunos do 7ºano (pela faixa etária em que estes se encontram) a temática escolhida foi os seus personagens preferidos do Mundo Disney. Feito um portfólio com as imagens dos mesmos, foi-me permitido escolher alguns, para leccionar os conteúdos temáticos.


Ao longo do ano mostrou ser uma opção de sucesso, principalmente com o D.: ele ficava “preso” às histórias que as suas personagens Disney preferidas viviam... Quanto perguntava “alguém se lembra da matéria tal?”... O Daniel saltava logo da cadeira (literalmente!) e dizia “Sim! É a matéria da história tal e tal!”... Vivemos dentro das nossas aulas momentos muito engraçados por causa disso... Notava que o D. gostava de lá estar.


Tenho que admitir que por vezes a paciência faltou-me em momentos mais críticos... olhava para eles com olhar de má e ficava em silêncio... Aí só se ouvia o D. ... Que acabava por sossegar ao se sentir incomodado pelo o seu próprio barulho!



Esta experiência com o D., veio mostrar-me que não nos podemos esquecer que um aluno é mais que um indivíduo qualquer, com o qual nos deparamos simplesmente na nossa existência e com o qual convivemos um certo tempo das nossas vidas. É alguém que é essencial para a nossa constituição como pessoa e como profissional e que nos mostra os nossos limites e nos faz ir além.

 

Quais afluentes vigorosos de todo o processo de ensino aprendizagem, os nossos “D's” ajudam-nos a progredir neste terreno tão acidentado que é a profissão de professor.


Cumprir o nosso dever como professores supõe, portanto, considerações que ultrapassam a simples inovação educacional e que implicam o reconhecimento de que o aluno é sempre diferente, pois a diferença é o que existe, a igualdade é inventada e a valorização das diferenças impulsiona o progresso educacional.

 

E se me acusam de utopia... respondo:

 

“Temos o direito de acreditar que ainda não é demasiado tarde para empreender a criação da nova utopia da vida, onde ninguém possa decidir, excluir nem decidir por outro, até a forma de morrer ou viver. Onde as estirpes condenadas a Cem Anos de Solidão tenham, por fim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a Terra.” Gabriel Garcia Márquez

Autoria: Claudia Carvalho (Professora)

Data: Junho de 2006


 


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