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educação diferente

Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

educação diferente

Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

Comunicação Alternativa para o Aluno Multideficiente (número 3)

 

2 - O papel do professor no desenvolvimento da comunicação

 

A comunicação tem uma forte componente social. Para comunicar a criança terá de perceber primeiro que é um ser diferente e separado dos outros. Para que esta percepção ocorra é imprescindível levá-la a construir um forte vínculo afectivo com as pessoas, de forma a ajudá-la a sentir-se motivada para interagir e comunicar. Só comunicando é que a criança desenvolve as suas capacidades e competências em virtude das trocas que mantém e assume com o meio ambiente.

Tal como refere Nunes (2001: 81), “quanto maior for a sua capacidade para comunicar, maior controlo ela poderá ter sobre o seu meio ambiente”, na medida em que, é fundamental que a criança estabeleça uma relação com o mundo à sua volta. Para que tal aconteça é preciso estimular a capacidade comunicativa da criança, utilizando estratégias facilitadoras do seu desenvolvimento, de forma a ela poder compreender e interagir melhor com o meio ambiente.

2.1- Formas/estratégias de estimular a capacidade comunicativa

           

A equipa que intervém com a criança pode ser diversificada, nomeadamente técnicos, pessoal auxiliar, pais, familiares e amigos. Esta equipa deverá no entanto trabalhar, toda ela, para um fim comum, o desenvolvimento harmonioso da criança multideficiente. Para que este desenvolvimento ocorra todos os intervenientes nesta equipa devem convergir esforços no sentido de estabelecer estratégias comuns entre si, de acordo com as necessidades e capacidades da criança em questão, por ordem de prioridade.

            Todavia, nesta equipa nem todos os intervenientes estão em igualdade de circunstâncias, uma vez que a família, quase sempre, não possui informação suficiente para dar o melhor apoio à criança. Deste modo, cabe aos técnicos que trabalham com ela dar à família todo o apoio necessário, levando-os a integrarem-se no programa de intervenção que se irá efectuar na escola, para que não ocorra uma quebra mas sim uma continuidade.

            Para orientar o apoio que o professor poderá dar à família apresentam-se, de seguida (Quadro 2), algumas estratégias que visam estimular a capacidade comunicativa da criança multideficiente.

Estratégias para estimular a capacidade comunicativa

Comportamento

O quê?

Para quê?

Como?/Estratégias

Respeitar as características das crianças

Analisar a forma como vê a criança;

Demonstrar respeito pelas suas características;

- Chamá-la pelo nome;

- Identificar-se sempre que se lhe dirige;

- Ter pessoas que proporcionem uma estimulação agradável;

- Colocar-se fisicamente de modo a estar acessível em termos visuais, auditivos e/ou tácteis, para facilitar as interacções mútuas;

 

Ser responsivo face aos movimentos da criança

- Aprender a ver a criança nos diferentes modos que esta tem de se auto-expressar;

- Responder-lhe de modo a ela saber que tem uma resposta;

Aumentar a intencionalidade dos seus movimentos;

- Observar o toque com cuidado na criança de modo a ver para onde ela dirige a atenção;

- Ver os padrões de respiração, tensão muscular, movimentos corporais e das mãos;

- Responder imitando gentilmente, mas não controlando a mão;

- Ler os repetidos gestos como comunicativos e responder de acordo com eles.

Usar pistas tácteis

Tocar suavemente no corpo ou na mão da criança indicando o que está a fazer;

Tornar o mundo mais previsível e não tão inesperado para ela;

- Tocar-lhe no braço antes de lhe pegar ao colo;

- Permitir-lhe tocar na fralda antes de a mudar;

- Tocar-lhe no ombro para dizer que está ali ou que se vai embora.

Facilitar o acesso táctil

Permitir que ela use as mãos e encorajá-la a usá-

-las para explorar os objectos e as pessoas

Dar acesso a pessoa e a coisas, dando informação;

- Andar com a criança ao colo;

- Permitir o toque na sua face e a leitura nas suas expressões;

- Adaptar materiais que lhe dêem distintos atributos tácteis;

- Construir ambientes seguros, encorajadores da exploração.

Facilitar o pegar a vez

Criar oportunidades para ela interagir consigo e com os seus pares

- Dar a oportunidade de aprender acerca das interacções naturais;

- Implicar a igualdade entre os parceiros;

- Resultar em equilibradas intermudanças, que são mutuamente interessantes e agradáveis;

- Imitar as acções da criança;

- Jogar  jogos infantis;

- Dar-lhe oportunidades de escolha;

- Juntar-se à criança para brincar com ela;

 

Tornar a linguagem acessível

Convidá-la a conversar, através de gestos, fala, desenhos ou objectos simbólicos

Tornar possível a aquisição de linguagem;

- Usar palavras e ordem simples e significativas;

- Providenciar objectos simples ou desenhos quando apropriados;

Criar oportunidades de escolha

Dar-lhe oportunidades para poder escolher o que quer fazer, comer, vestir, ver ou sentir.

Dar mais possibilidades de controlar o seu mundo.

Apresentar situações onde a criança possa ter iniciativa e escolher o que quer, através de objectos, imagens, palavras,…

Quadro 2- Estratégias para estimular a capacidade comunicativa da criança multideficiente, adaptado de Miles e Riggio (1999: 153, cit por Nunes, 2001: 113).

 

            O Quadro 2 demonstra apenas um pequeno leque de estratégias, na medida em que o leque é muito variado e diversificado, tudo depende da capacidade de actuação do professor, da capacidade de aprendizagem da criança, do contexto em que ambos estão inseridos, bem como de toda a comunidade em que estão envolvidos.

3 - Recomendações para ajudar a estabelecer a comunicação entre o professor e o multideficiente

            Para concluirmos então o nosso trabalho e depois de efectuada uma análise reflexiva do mesmo, achamos importante sugerir algumas estratégias práticas para a aplicação diária em contexto de sala de aula. Estas estratégias revelam-se importantes, no entanto nem sempre se adequam à criança com que trabalhamos, é necessário ter sempre em consideração as suas características, capacidades, bem como o meio em que tal trabalho se desenvolve.

 

            Assim sendo, passamos a enumerar algumas possíveis estratégias que envolvem a comunicação com os multideficientes, a saber:

 

- criar actividades diversificadas que propiciem a informação e originem a necessidade de comunicar – variando os espaços, as actividades, falar de temas de acordo com os seus interesses, …;

 

- identificar os parceiros com quem comunica através do nome, dum gesto ou de um objecto de referência – apresentar as crianças umas às outras, colocar questões ao grupo acerca das presenças e ausências, estabelecer uma rotina clara e com consequências das acções, dizer o nome da criança para obter a sua atenção….;

 

- estruturar as acções no tempo de forma sistemática – lavar as mãos antes de comer, vestir o casaco antes de ir para casa, …);

 

- organizar um calendário do tempo onde se indiquem as acções diárias e a sua sequência – utilizando desenhos, objectos e escrita, de acordo com as capacidades do aluno;

 

- ter formas de comunicação variadas de acordo com as capacidades do aluno e de forma a que todos os presentes entendam – representar a mesma actividade de diversas formas, colocar a mão da criança sobre a sua para que esta sinta o que está a realizar e se sinta motivada para  imitar,…;

 

- dar tempo para que a criança responda às iniciativa propostas;

 

- responder ao aluno de acordo com a situação, uma vez que determinados gestos são repetidos, mas dependendo da hora, da situação, do contexto, nem sempre querem dizer o mesmo – apontar para a rua de manhã pode significar ir passear, se for ao final do dia, pode significar que está a chegar alguém para o levar para casa,…;

 

- diversificar os contextos e parceiros de comunicação – levá-lo à sala de aula, ao recreio,…;

 

- levar o aluno a pedir materiais em função das actividades propostas, estimulando assim a comunicação – ao almoço não lhe dar o copo de água, não colocar o talher,…;

 

- responder de forma positiva a todas as formas e tentativas de comunicação – incentivar, dar pistas,…;

 

- dar informação verbal acerca da actividade que a criança realiza, utilizando sempre a fala em conjugação com outras formas de comunicação;

 

- mediar a quantidade de informação e a forma como é transmitida à criança, uma vez que muita informação e mal estruturada pode ser motivo de confusão e mesmo de desmotivação para a criança.

 

            Com estas recomendações visamos facultar ao professor uma série de estratégias possíveis de utilização, em situação de sala de aula, para ajudar a criança a funcionar e a comunicar a níveis cada vez mais elevados.

4 – Considerações finais

Após a realização deste trabalho ficamos ainda mais convictos de que trabalhar com crianças multideficientes exige muita preparação e empenho por parte do professor. Este deverá tomar muita atenção ao tipo de trabalho que realiza com a criança, uma vez que é fundamental adaptar as estratégias de actuação as capacidades e necessidades da criança, principalmente no que refere às estratégias relativas às formas de comunicação usadas pela criança, na medida em que, de nada vale usar comunicações muito elaboradas se as crianças se encontrarem em níveis de comunicação inferiores.

 

É necessário que o professor recorra às pistas dadas pela criança, aos sinais que a criança usa para interagir, aos comportamentos por ela utilizados, para perceber o seu nível de desenvolvimento cognitivo e a sua capacidade comunicativa e deste modo dar início à comunicação entre ambos.

 

Se for estabelecida uma boa comunicação será mais fácil o desenrolar de todo o processo de ensino-aprendizagem da criança e o professor não se sentirá frustrado com o seu trabalho.

Referências bibliográficas

 

 

- Contreras, M. D. C. & Valência, R. P. (1997). A criança com deficiências associadas. In Necessidades Educativas Especiais. Coordenação de Bautista, R. Dinalivro: Lisboa. 1.ª Edição.

- Downing, J.D. (1999). Teaching communication skills to students with severe disabilities. London: Paul Brookes Publishing Co., Inc. Baltimore.

- Ladeira, F., Amaral, I. (1999). A educação de alunos com multideficiência, nas escolas do ensino regular. Lisboa: Ministério da Educação.

- Kirk e Gallagher (1991) – Educação da criança excepcional. Cit. por Jesus (s/d), Deficiência múltipla e o modelo ecológico funcional. página web http://www.pedagobrasil.com.br/educacaoespecial/deficiencimultipla.htm - acedida em 11-01-2006.

- Monte, F. R., Santos, I. B. (2004). Saberes e práticas da inclusão: dificuldades acentuadas de aprendizagem: deficiência múltipla. Brasília: Mec, SEESP.

- Nunes, C. (2001). Aprendizagem activa na criança com multideficiência. Guia para educadores. Lisboa: Ministério da Educação. DEB.

- Orelove, F. P. & Sobsey, D. R. N. (1991). Educating Children with Multiple Disabilities: a Transdisciplinary Approach. Paul Brooks Publishing Co. Inc: Baltimore.

           

Autoria:

Prof. Fernanda Ferreira;

Prof. Marília Dias;

Prof. Pedro Santos

Data:

Março de 2006