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educação diferente

Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

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Projecto da responsabilidade da apie - Associação Portuguesa de Investigação Educacional - Educação Especial e Deficiência.

Breve História da Terapia Ocupacional

A Terapia Ocupacional desenvolveu-se e consolidou-se formalmente como profissão no início do século XX. O termo Occupational Therapy surgiu no início desse século e deve-se a um arquiteto americano, George Burton, que foi o impulsionador de uma instituição situada em Clifton Springs (New York) onde as pessoas eram reeducadas e ajudadas através da ocupação, de modo a readquirirem um sentido para a vida. Foi o início do conceito ocupação como agente promotor da saúde.

Porém, apesar de não existirem relatos formais históricos da Terapia Ocupacional anteriores a este período, há referências ao longo da história do Homem que apontam para a importância da ocupação como processo terapêutico. Por exemplo, já em 2600 a.C. os chineses consideravam que a doença resultava da inatividade física e utilizavam o treino físico como terapia. Por outro lado, os egípcios deixaram, cerca de 2000 a.C., vestígios que revelam a utilização de templos onde pessoas “melancólicas” eram tratadas recorrendo a jogos e onde se defendia a aplicação do tempo em ocupações agradáveis. Na Grécia clássica, por volta de 600 a.C., dizia-se que Asclepius, o deus da cura, utilizava cantigas, músicas e dramatizações para acalmar os delírios. Também o escritor e orador romano Séneca (30 a.C.) defendia a utilização de cantigas e música para tratar qualquer tipo de agitação mental. Por sua vez, Hipócrates (220 d.C.) enfatizava a ligação entre o físico e a mente e recomendava a luta greco-romana, a equitação, o trabalho e os exercícios vigorosos.

Muitos outros exemplos ficaram registados ao longo do tempo sobre a importância da ocupação, a maioria das vezes ligados ao tratamento da doença mental. No entanto, o médico francês Philippe Pinel, só em 1786, daria início a uma reforma com implicações profundas no tratamento dos doentes mentais colocados em asilos. Essa reforma valorizou a importância da ocupação e ficou associada ao conceito de tratamento moral. Preconizando que “o trabalho executado com rigor é o melhor método para a boa moral e disciplina”, Pinel prescreveria exercícios físicos e ocupações manuais como forma de terapia. Esta nova postura começou a ser difundida e a ter uma maior aceitação no decorrer do século XIX, levando ao crescente envolvimento dos doentes mentais nos trabalhos dos asilos onde estavam inseridos. Paradoxalmente, nos hospitais particulares surgiriam resistências a esta reforma, porque se defendia que quem pagava para ser tratado não deveria ser posto a trabalhar. Muito mais tarde, em 1950, Dunton, por exemplo, haveria de questionar a credibilidade deste pressuposto (que o trabalho ou a ocupação beneficiavam os doentes), alegando que poderia haver interesses económicos por detrás desse trabalho. E assim, muitas vezes com base em observações empíricas ou apenas intuições, foi-se caminhando para o desabrochar daquilo que seria a futura profissão: Terapia Ocupacional.

Atualmente parece ser unanimemente aceite que a primeira pessoa a estabelecer um curso que poderia ser identificado como precursor da profissão de Terapia Ocupacional foi Susan Tracey, enfermeira-chefe do Adams Nervine Hospital de Boston (EUA). Em 1906, Susan Tracey iniciou uma formação destinada a estudantes de enfermagem intitulada “Ocupação para Doentes” e, posteriormente em 1910, decidiu publicar o conteúdo das suas aulas em formato de livro. Paralelamente, em 1908, na Chicago School of Civics and Philanthropy, iniciou-se um curso de treino ocupacional para preparar enfermeiras destinadas a trabalharem em instituições de saúde mental. E foi também nesta altura que se começou a estruturar os fundamentos do que seria definido pelo arquiteto Jorge Barton como conceito de Terapia Ocupacional.

Assim, no início do século XX, a ideia de utilizar a ocupação no tratamento de pessoas com doença mental foi-se implementando, ganhando credibilidade e difundindo. Em simultâneo, o papel social da mulher trabalhadora ligada a profissões destinadas a prestações de cuidados na área da saúde, principalmente na área da enfermagem, foise modificando e fortalecendo. É na altura da Primeira Grande Guerra (1914-1918) que a fisioterapia começa a existir como profissão. Em 1915 foi criada a primeira escola para lecionar Terapia Ocupacional em Chicago, nos estados Unidos da américa. É como consequência do pós-guerra que se verifica o desenvolvimento da Terapia Ocupacional em Inglaterra, na área das disfunções físicas, com a criação de departamentos de Terapia Ocupacional nos hospitais militares, pois era necessário reabilitar os jovens militares incapacitados durante a guerra. Os primeiros departamentos de Terapia Ocupacional na área das incapacidades físicas valorizavam o exercício articular e muscular e possuíam várias ferramentas e maquinaria diversa adaptada (por exemplo, máquinas de serrar com pedais). Predominavam atividades como a carpintaria e a pintura.

Em 1930, a Dra. Elisabeth Casson, após ter tido contacto com as escolas americanas de New York e Boston, implementou na Dorset House Psyquiatric Nursing Home, em Bristol, a primeira escola de treino em Terapia Ocupacional na Europa. Seria também em Inglaterra, em 1936, que se formaria a associação de terapeutas ocupacionais (AOT). No entanto, só nos países mais afetados pela Segunda Guerra Mundial (1939- 1945) se viria a implantar fortemente a Terapia Ocupacional, com a criação de novos e mais departamentos onde se sentia uma forte influência militar. Isto porque o trabalho deveria ter um papel relevante na reabilitação e integração dos soldados feridos, nomeadamente através da reaprendizagem das atividades da vida diária e artesanais.

Existia por isso a convicção de que a ocupação ajudava a retornar ao mundo da atividade normal e contribuía para que o paciente melhorasse simultaneamente das suas incapacidades. Surgia assim a ligação da ocupação ao modelo médico, embora com a preocupação de adequar cada atividade às necessidades individuais de cada pessoa em tratamento, valorizando a motivação e a autodeterminação. Nos anos oitenta, vários autores questionaram esta ligação ao modelo médico, embora reconhecendo ter sido importante para a credibilidade da Terapia Ocupacional. Sentindo o risco da perda de identidade profissional (muitas vezes havia similitude entre a Terapia Ocupacional e a Fisioterapia), retomaram o conceito primordial que liga a ocupação à saúde.

Defendem que a ocupação é fundamental para a saúde, bemestar e confere sentido à vida. De 1786 até 2000, a Terapia Ocupacional evoluiu passando por vários paradigmas, desde o Tratamento Moral, Paradigma da Ocupação, Paradigma Mecanicista e Paradigma Emergente ou Contemporâneo.

Neste ultimo paradigma, os terapeutas ocupacionais propõem-se intervir em qualquer situação em que ocorram alterações do desempenho ocupacional. Na sua intervenção, centrada no utente, os terapeutas ocupacionais utilizam as atividades significativas como meio ou como objetivo final, para restaurar o desempenho ocupacional alterado ou perdido.

No novo paradigma, os terapeutas ocupacionais propõem-se intervir em qualquer situação onde ocorra alteração do desempenho ocupacional. Na sua intervenção, centrada no cliente, os terapeutas ocupacionais utilizam as atividades significativas como meio ou como objetivo final, para restaurar o desempenho ocupacional alterado. Em 1952 foi criada a Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais (www.wfot.org).

Desta organização fazem parte associações de terapeutas ocupacionais de todo o mundo bem como grupos de países de regiões especificas (Arabic Occupational Therapists Regional Group -AOTRG; Association of Caribbean Occupational Therapists -ACOT- http://www.caribbeanot.com/index2.html; Asia Pacific Occupational Therapists Regional Group -APOTRG- https://www.facebook.com/pages/Asia-PacificOccupational-Therapy-Regional-Group/207138752678095; Council of Occupational Therapists for the European Countries –COTEC- http://www.cotec-europe.org/; Confederacion LatinoAmericana De Terapeutas Ocupacionales –CLATOhttp://www.terapia-ocupacional.org.ar/clato/; Occupational Therapy Africa Regional Group -OTARG- http://www.otarg.org.za/ e Kuwait Group).

Em 1986 foi criado o conselho europeu de Terapeutas Ocupacionais – COTEC, do qual a APTO é membro desde então. Em Portugal, o curso de Terapia Ocupacional surgiu a 7 de janeiro de 1957, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). Teve a designação de “1º Curso de Preparação de agentes técnicos de fisioterapia e Terapêutica Ocupacional” e realizou-se na Casa de S. vicente Paulo, sendo dirigido pelo Dr. Santana Carlos em colaboração com as monitoras estrangeiras Miss Frances Robertson, terapeuta ocupacional, e Miss Inês Stilwell e Miss Dorothea Cepik, ambas fisioterapeutas. No final de 1959 são diplomadas as primeiras alunas em Fisioterapia e Terapêutica Ocupacional.

As primeiras terapeutas ocupacionais receberam a sua formação prática nos Estados unidos da América e em Inglaterra. O primeiro departamento de Terapia Ocupacional foi implementado no hospital de Sant’Ana em 1959, sendo um dos seus impulsionadores o Dr. Ângelo Vieira Araújo. A 12 de novembro de 1960 é criada a associação profissional com a designação oficial de Associação Portuguesa de Terapeutas Ocupacionais (APTO).

Após a sua criação a APTO redigiu os seus estatutos sendo estes aprovados, em Assembleia Geral, em 1961. Um ano depois a APTO é admitida como membro associado da WFOT sendo em 1964 reconhecida como membro efetivo. Este reconhecimento só pode acontecer porque o país já tinha uma associação fundada e um programa curricular aprovado pela WFOT. A 4 de junho de 1966, a portaria nº 22034 do então Ministério da Saúde e Assistência, autoriza a SCML a criar, no Centro de Medicina de Reabilitação em Alcoitão, uma escola de reabilitação. Esta podia ministrar cursos de formação de Fisioterapeutas, Terapeutas da Fala e Terapeutas Ocupacionais, cujas designações profissionais são oficialmente criadas e legalmente enquadradas pela referida portaria.

Somente em 1974 se dá o processo de legalização da APTO pois, por questões legais e politicas, até à data não era aceite a livre associação de pessoas em organizações de caracter privado. A APTO é então oficialmente registada no 19º Cartório Notarial de Lisboa e, a sua constituição, é publicada em diário da República, em fevereiro de 1995, por despacho da Secretaria de Estado dos Assuntos Culturais e de Investigação.

A APTO é composta por Corpos Sociais sendo estes a Mesa da Assembleia Geral, o Conselho Fiscal, o Conselho Deontológico e de Disciplina e a Direção. De entre estes, é a Direção que assume a condução da associação sob o ponto de vista orgânico, de funcionamento e institucional. Desde 1960 que os membros da APTO se reúnem regularmente. Inicialmente estas reuniões eram trimensais e presenciais.

Com o evoluir das tecnologias de comunicação e, o consequente crescimento da APTO, as reuniões da Direção são feitas mais amiúde, recorrendo a tecnologias de comunicação que nos permitem contar com a colaboração de colegas fora da área da grande Lisboa, onde se encontra neste momento a sede oficial. “The most important tool of the world community of occupational therapists will be the mind of the occupational therapist, who, through knowledge of occupation, will foster human capability and influence health.” (Yerxa, 2000, p. 87). No ano de 2000 surge a Ciência Ocupacional que é atualmente um dos pilares fundamentais da Terapia Ocupacional. Surge na altura em que a prevalência de pessoas, com comorbilidade e/ou doenças crónicas causadoras de limitações na participação, começa a ser extremamente elevada e se discutem os direitos dessas mesmas pessoas (Yerxa, 2000).

A Ciência Ocupacional, uma disciplina académica que estuda a forma, a função e o significado da ocupação, bem como o contexto no qual a mesma ocorre, fornece as bases para que as abordagens em Terapia Ocupacional assumam os princípios de um paradigma contemporâneo permitindo a cada pessoa usufruir do seu direito de vivenciar ocupações significativas, desenvolvendo-se através da sua participação e promovendo dessa forma a sua saúde, participação, envolvimento e inclusão social.

in http://www.ap-to.pt/