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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

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EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XLV

A maioria dos alunos existentes… Experimentavam uma imensa variedade de medicamentos… Drogas e outras substâncias...

As terapêuticas prescritas pelos médicos… Raramente tinham um carácter curativo… A maioria… Serviam para controlar crises epilépticas… O stress ou ansiedade… A hiperactividade e o funcionamento dos órgãos… Enfim… Todos no sentido de melhorar a concentração e a atenção… Outros para dar apetite ou combater as diabetes… A obesidade e outras complicações...

Alunos como Carrapito… Samuel ou Virgílio… E outros… Tomavam medicamentos para aumentar a capacidade de atenção e a hiperactividade...

Consequentemente… E porque os tomavam… Apresentavam sinais e sintomas que também os prejudicavam... Como a falta de apetite e as dores de cabeça... Os tremores e as mãos húmidas... Taquicardia...  Ou melhor... Frequência cardíaca alta ou irregular... Boca seca... Ansiedade... Entre outros...

Os alunos que tinham crises epilépticas… Tomavam medicação para diminuir as descargas eléctricas cerebrais... As tais... Geradoras das crises... Como Raquel… Angela e Ilda… Ou os mais limitados e com maiores necessidades… Miguel e Rafael… Salvador… Bento e Ruben... Todos da sala de estimulação global I...

Para além de todas as drogas que introduziam nos seus corpos… Tinham consultas regulares para ajustar a medicação... Ou para vigiar os efeitos colaterais...

Os alunos com trissomia… Como Cristina… Bebé… Filipe ou Bruninho… Também tomavam grandes doses de medicação… Todos muito próprios e destinados a colmatar alguma situação específica… Porém de influência semelhante…

Naquela escola havia de tudo um pouco... Várias situações terapêuticas... Fármacos como a atropina... Um alcalóide que funciona como antagonista e que minimiza a acção da acetilcolina... Um neurotransmissor que desempenha um papel importante no sistema nervoso central...

Outros... Tinham como função interromper o quadro convulsivo... Assim como... Auxiliar no tratamento ou atenuação e alguns problemas permanentes... Para... Pelo menos... Melhorar a qualidade de vida... Ainda que... Causassem alucinações e confusão mental... Sonolência... Convulsões… Mal estar geral ou influenciarem o sistema imunológico... 

Para alguns alunos como Zé… O objectivo da terapêutica... Prendia-se com o tratamento de distúrbios comportamentais e de personalidade... De problemas de negativismo e de desinteresse... Indiferença... Impulsividade... Irritabilidade... Agressividade e até problemas psicomotores...

De uma forma geral... No autismo e asperger... Os medicamentos servem para abreviar o impacto causado pelos sintomas como a ansiedade... Hiperactividade... Depressão e todos os que são inerentes aos transtornos obsessivo compulsivos...

Os fármacos eram todos diferentes... De tamanho... De cor e formato... Em comprimido ou xarope... Todavia... Todos faziam bem e mal ao mesmo tempo...

Por exemplo… Para síndromes e problemáticas... Como o x frágil...  Poderão funcionar como estimulantes e inibidores selectivos da recaptação da serotina... Para tratar a depressão... Ou transtornos de ansiedade e de personalidade...

Carrapito conhecia-os pela cor e Samuel pelo tamanho... Associavam-nos facilmente às horas ou ao momento do dia...

Este também era um trabalho quase constante dos técnicos... Orientar e vigiar a ingestão dos medicamentos... Para isso... Faziam-se mapas... Onde se registavam os nomes... Os fármacos... As horas e a toma destes... Fossem para insuficiências vitamínicas… Neuroprotectores ou estabilizantes de humor... Problemas intestinais ou respiratórios...

Pedro foi descobrindo que existiam imensos... Completamente distintos... Às vezes era o mesmo que servia para intervir em situações diferentes... Como os antipsicóticos para tratar a esquizofrenia ou diminuir a agressividade... Os antidepressivos para controlar a ansiedade... Mas também a depressão e os transtornos obsessivo compulsivos...

Enfim... Uma imensidade que não tinha fim... Estimulantes para diminuir os sintomas da hiperatividade e da impulsividade... Neurolépticos para reduzir alguns sintomas do autismo... Ou... Os anti opióides para tranquilizar ou minimizar todos os mencionados anteriormente...

As reacções adversas da medicação... Isto é... Os efeitos após a sua administração... São enormes e prejudiciais à saúde...

A grande maioria dos alunos traziam recomendações que vinham de casa... Centro de saúde ou hospital… Para recordar as dosagens e horários da medicação… Ou até com indicações de novos acertos ou rectificações...

Sempre que se reuniam condições... Promovia-se a autonomia dos discentes... Alguns como Ramos… Samuel… Sara e até mesmo Virgílio ou Teófilo… Conheciam e cumpriam sem problemas essa rotina...

A restante maioria… Contava com o zelo e a atenção da maioria dos funcionários… Como Júlia… Martinha e outros mais...

Por isso... Em cada sala... Existia um mapa com todas os esclarecimentos necessários ao bom funcionamento da administração dos fármacos...

Na sala de estimulação global I e II… Criou-se um caderno de anotações… Um meio de comunicação entre a casa dos alunos e a escola… Com apontamentos e relatórios do dia… Factos importantes... Acontecimentos de relevo e informações acerca da terapêutica realizada...

Nas sessões de Pedro e Júlia... Dirigidas aos pais... Abordava-se quase sempre este assunto... Alguns pais confidenciaram que nem sempre davam a medicação necessária... Uns por apresentarem dificuldades financeiras e outros pela razão de conhecerem os efeitos secundários...

Nessa altura... O professor descobriu que muitos deles procuravam alternativas na medicina natural... Muitas vezes... Por sugestão médica... Argumentando que... Os seus filhos já tomavam demasiadas substâncias nocivas para a saúde... Enfim... Uma forma de corrigir a destruição e o enfraquecimento causados pelo excesso de medicamentos...

António Pedro Santos

(Continua)...

 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XLIV

Certa manhã… Dona Filó cruza-se com Pedro à entrada da escola... Ela chegava e ele preparava-se para beber café…

- Professor… Precisamos de falar!

- Já tomou café?... – Replicou… Convidando-a… - Se quiser vir falamos já!

E lá seguiram os dois …

- Como estamos com o projecto educativo?... – Inquiriu curiosa…

- Já tenho o projecto educativo… O plano de actividades e o regimento interno!... – Exclamou… - Tudo pronto e impresso!...

Dona Filó sorriu… Entremostrando alguma satisfação...

- Olá!... – Cumprimentou alegremente Rosa... A aluna que agora desempenhava funções na cozinha do café…

- Olá Rosinha!.. – Correspondeu Dona Filó com carinho…

A rapariga seguiu para as suas tarefas… Vaidosamente fardada…

- Como se estão a dar os alunos? – Perguntou…

O professor respondeu-lhe que estava tudo a funcionar quase em pleno… Com as inovações realizadas ao nível da estimulação global… Falou da sala de escolaridade… Da educação física e da psicomotricidade… Informou-a acerca do funcionamento das áreas vocacionais internas e externas… Assim como... Acerca das terapias…

Pronunciou-se um pouco acerca da sala de formação pessoal e social… Do sucesso da intervenção e consequente reflexo nos alunos… Ressalvou o trabalho do centro de recursos e a importância do centro de estudos para o cumprimento dos desígnios da escola…

- Acho que nunca vi este colégio funcionar tão bem!... – Afirmou… - Sabe… Era necessária uma liderança assim!

Pedro acenou a cabeça e argumentou humildemente… Arrematando que não se tratava de liderança… Mas sim de empenho e de motivação… Partilha e de fazer as coisas com gosto e prazer… Ter brio e paixão pelas tarefas… Agarrar os alunos e provar-lhes que as suas capacidades e vontade poderão ser fundamentais para a sua integração social e desenvolvimento… Aniquilando as suas dificuldades… Necessidades e limitações…

- Na minha opinião… O professor tem uma forma de chegar a estes alunos que eu nunca vi em nenhum profissional que por aqui passou…

Pedro expressou algum embaraço…

- Mas olhe… Não fique vermelho! - Continuou… - Eu queria falar consigo porque temos de ir à direcção regional mostrar toda essa documentação!…

Dona Filó explicou que era um procedimento habitual… Uma vez que se tratava de uma escola tutelada pelo Ministério da Educação… Tinham de prestar contas… Mostrar documentos… Expor projectos e debater estratégias de intervenção… Em suma… Justificar os subsídios que recebiam do estado…

As direcções regionais de educação desempenham funções de administração descentralizada... Directamente ligadas ao ministério da educação... Orientando... Coordenando e acompanhando as escolas da sua zona pedagógica...

Dona Filó alertou ainda… Para a existência de uma coordenadora de educação especial...

Na sua opinião... Era demasiado baixa e retrógrada… Antiquada e mal formada… Há muito afastada da prática lectiva… Contudo… De uma exigência tacanha e ridícula…

O professor garantiu-lhe que não haviam motivos para preocupações… Informando-a que levariam os documentos necessários e alguns dossiês individuais… Para que pudessem ter a percepção de todo o trabalho logístico realizado… Tal como… Alguns boletins… A fundamentação das áreas vocacionais… Protocolos estabelecidos… Algumas fotos e publicações realizadas… Entre outras coisas…

Dona Filó pareceu mais descansada e confidenciou-lhe que já se aborrecia da presunção daquela gente… Sobretudo daquela mulher… Que segundo ela… Tinha muita teoria e pouquíssimo terreno…

Para a directora do colégio... Eles escorraçavam os alunos do ensino regular… Queriam ver-se livres deles... Com a desculpa de lhes dar uma resposta mais individualizada... Todavia… Opinavam e metiam-se em tudo… Sem tão pouco querer saber acerca das suas aquisições e evoluções...

Nada justos e pouquíssimo inclusivos... Enfim... Politiquices... Como gostava de repetir...

- Eles de vez em quando têm de fazer alguma coisa!... – Assegurou… – Naturalmente… Depois pegam em tudo… Até no que não interessa!...

- Sobretudo no que menos interessa! – Gracejou Pedro…

- Afinal… Há que justificar o seu lugar e a sua posição!... – Confirmou… Encerrando os olhos conformada…

Não fossem estas pessoas... Essencialmente teóricas... Influenciando a sociedade... Por estarem em cargos de decisão ou governamentais... Enfim... Uns há que almejam esses cargos tanto por eleição... Outros por indicação... Hereditariedade... Cunha ou fraude... Tudo vale e tudo é permitido...

Por isso... Os políticos e a maioria das funções que resultam de nomeação... São pouco credibilizadas e respeitadas... Afinal... São imensos e visíveis em demasia... A corrupção e o compadrio... Os desvios de dinheiro e sobretudo de carácter...

O profissionalismo que se toma e encarna... Longe da ideia democrática da rotatividade... Assim como... A necessidade de andar e evoluir... Jamais esquecendo o verdadeiro terreno...

Nas portas que se abrem e no respeito que se tem... Das palmadinhas nas costas aos presentes chorudos... A bem do povo... Do país e da economia nacional... Passando o poder de pais para filhos e de padrinhos para afilhados... Sem qualquer vergonha ou pudor...

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XLIII

Zé era um aluno difícil... Autista e completamente isolado dos restantes... Alheava-se e colocava-se sempre à parte... Aparentemente por opção...

Revelava problemas graves de comportamento e limitações acentuadas ao nível da comunicação... Que o impossibilitavam de ser... Pelo menos como os colegas... Que facilmente... Interagiam entre si de um modo natural...

Nas sessões de psicomotricidade o aluno ficava distante... Estacionado nos colchões... A maioria das vezes deitado... Interagindo somente consigo próprio... Divagando no seu mundo privado e peculiar... Só seu e provavelmente fantástico...

Com o tempo... Foi erguendo a cabeça e levantando o queixo... Centrado no grupo que estava em actividade... Observando os colegas em acção...

Pedro convidava-o sempre a participar e chegou a ir buscá-lo... E este... Acompanhava-o... Contudo... Rapidamente largava a mão do professor e regressava ao seu lugar... Sem qualquer razão aparente... Afagando com carinho o docente... Sempre na testa...

Também experimentou mandar alguns dos seus colegas... Como Filipe ou Carrapito... No sentido de o desafiar para a aula... Mas nada resultou...

Com o passar do tempo... E sem pressões... Foi aparecendo junto do grupo... Gradualmente e aos poucos... Aproximando-se cada vez mais... Pesquisando e examinando os exercícios...

Talvez sentisse mais vontade... Ou segurança...

Pedro percebeu... Mas não lhe ligou... Continuando a dirigir-se ao grupo... Ignorando inteiramente a sua presença...

Começou por analisar o momento... Posteriormente... Começou a realizar alguns exercícios... Duas vezes mais tarde que os outros... Isto é... Se os seus colegas estavam a rastejar... Ele ainda saltava a pés juntos... Actividade que já tinha sido realizada mais atrás... Se os colegas pontapeavam bolas... O Zé ainda trepava o espaldar... E que bem trepava... Seguro... Parecendo contudo... Descuidado...

Fisicamente... Era um aluno bem desenvolvido para a sua idade... Um pouco anafado... Todavia arrojado nos exercícios de carácter motor...

Possuía uma expressividade facial e gestual... Impares e fora do comum... Sobretudo quando se concentrava no seu pequeno mundo... Anónimo e extraordinário...

Em muitas ocasiões... O professor olhava-o e pensava... Que talvez o seu mundo não fosse tão limitado assim... Nem tão pequeno... Era provavelmente muito rico e tentador... Até porque... O aluno adorava música e vivia-a com particularidade e com alma... Ainda que... À sua maneira...

Ficava siderado sempre que o professor tocava guitarra... Ou quando ligava o rádio...

A verdade... É que... Nem sempre dançava ou cantava... Porém... Quando o fazia era como se sentisse uma verdadeira liberdade... Um desprender de correntes... Pesadas e fortes... Num arrombar de grades... Que de grossas e ferrugentas... Possibilitavam um ganho imenso de contacto... Com a realidade exterior...

Era soberbo apreciar e desfrutar do seu olhar... Tranquilo... Diferente e satisfeito...

Mais tarde... O professor aprendeu que o seu entendimento do mundo... Não era tão desigual dos restantes humanos... Ainda assim... A sua expressividade e comunicação... Comprometiam a relação com os outros... Impedindo também a sua progressão cognitiva... Motora e sócio afectiva...

Nas sessões de música... Ou musicoterapia... Começou a misturar-se... Levantando-se do chão e gesticulando na confusão dos colegas... Só para si... Com prazer... Encadeado no ritmo com alegria... Realizando vocalizações quase todas imperceptíveis...

Aos poucos a sua relação com o professor melhorou... Zé aproximava-se... Procurando simplesmente estar perto do que estava a acontecer...

Quando fugia da sua sala de referência... Iam chamar o professor para o ir buscar... Inicialmente não queria e ignorava-o por completo... Com o tempo... O docente começou a cantar... Em outras vezes... Simulava um saxofone... Um trompete... Ou uma guitarra...

Nessas ocasiões... O aluno transfigurava o seu rosto e seguia-o com prazer...

Zé desfrutava da música quando subia ao ponto mais alto da escola... Uma base elevada com uma vedação alta... Lá em cima... Dava o seu espectáculo... Encenando movimentos... Tons e canções... Coreografias... Com uma banda sonora que ele conhecia e sabia de cor... Sempre com o microfone na mão...

Fugia constantemente da educadora Elisa... Afinal... Ela nunca teve mão nele... Nem jeito... Nem tão pouco vontade de o agarrar... Ou melhor... De lhe chegar... Aliás... Até fugia... Quando ela o convidava docemente... Tipo:

- Anda Zé! Vamos pintar! – Chamava... Sempre com um jeito demasiado ameninado... Contemplando sempre quem a rodeava... Enfim... Talvez para mostrar a sua preocupação e empenho... No fundo... Ninguém lhe passava cartão...

Acabavam por chamar sempre pelo professor... Ou então.. Era este que se aproximava... Simulando tocar uma corneta... Cantar ou bater palmas... Ou simplesmente... Fazer de conta que tinha uma guitarra...

Do outro lado... Zé cantava... Quase sem som... Com uma expressividade única e simplesmente assombrosa... Pedro aplaudia o seu desempenho... Como se este fosse um animal de palco.. E era...

Zé agradecia... Como era costume dos artistas...

Em conversa com a mãe do aluno... Pedro descobriu que esta motivação pela música já vinha de casa... E foi uma das coisas que os pais descobriram desde cedo... O poder da música em grande quantidade... De forma a amenizar os seus medos... Crises e mal estar... Concertos de vídeo... Dos mais variados e distintos artistas... Que serviam para o acalmar e educar...

Espontaneamente ou não... Este aluno foi adquirindo... Uma enorme cultura musical... Trabalhando a representação... A dramatização e a capacidade de se explicar...

Zé desenvolveu uma certa empatia pelo professor... Ou seja... Uma resposta afectiva adequada à condição de outra pessoa... Em detrimento da própria situação... Acompanhando-o e desfrutando da sua presença...

Passava mais tempo na sala de escolaridade do que na sala de estimulação global II... Afinal... Lá escutava conversas... Ouvia sons... Beneficiava da comunicação dos outros... Ainda que fosse... Essencialmente receptiva...

Fazia exercícios individuais e de grupo.. De leitura funcional... Escrita... Brincava e aprendia... Simulando e fazendo de conta...

Rapidamente... O docente constatou que o aluno em questão possuía uma aptidão natural para a memorização... Isto é... Na realização e estabelecimento de relações... Identificação... Ligação e associação de números... Letras e palavras...

Sempre que realizava uma tarefa era compensado... Pedro contava o tempo... Dava indicações e tirava anotações... Posteriormente... Deixava que este pegasse na guitarra... Coisa que nunca tocou... Apenas simulava... Não gostava dos sons produzidos por ele...

Outras vezes dava-a ao professor... Para que este a tocasse... Ora brincava com o velho microfone... O tal que o professor arranjara...

Curiosamente... Este objecto... Andava com ele a maior parte do tempo... Por vezes Samuel advertia-o:

- O microfone é da sala! – Exclamava... Em tom de aviso... Mas... Zé nem ligava... Era completamente em vão...

Com ele... Deu imensos concertos...

Não fosse ele um cantor... Personagem de um encadeamento de sons... Produzidos por instrumentos... Agitando assistências e plateias... Com o seu temperamento... Personalidade e motivação... Emocionando e divinamente encantando...

No final das sessões de música... Na rua e recreio... Psicomotricidade e até quando ia à escolaridade... Gostava de beijar o professor na testa... Ou seja... Encostar somente os lábios...

Por vezes olhava o professor nos olhos... Mas quando Pedro o encarava de mais profundamente... Olhos nos olhos... No seu interior... Desolhava e afastava-se... Como se não fosse com ele...

De olhar subjectivo e amplo... Com uma comunicação parca... Dimensão do imprevisível... Sentido da comunicação pouco evidente... Onde o falar não consiste apenas em passar informações e apresenta um carácter muito mais complexo e ilusório...

Com a angustia e necessidade de afastamento... Por não compreender o constrangimento de invadir alguém de palavras...

Em vez disso... Não fala e fecha-se em si... Num mutismo doloroso... Que ecoa e repete... Restos de palavras e frases...

Obstinação de bisar palavras... Na ligeireza de quem as diz e pronuncia... A vontade ou não de falar... Consigo e com os outros... De si ou do mundo... Mundo esse de palavras vastas e várias... Que se dizem... Repetem e multiplicam... Em vários timbres e tons... Que ainda assim... Não servem para que o autista comunique... Encarnando confusão e atrapalhação... Enfatizando o ridículo e o estigma...

Um escape sem saída... De quem adoraria sair deste mundo ou de partilhar e ensinar o seu aos outros... Para que o compreendessem...

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XLII

Fábio e Raquel eram dois alunos especiais... Ele com trissomia vinte e um e ela com atraso intelectual grave... Assim como outras problemáticas e transtornos associados...

Fábio apresentava aspectos fenotípicos característicos da sua síndrome... Ou seja... Aparência exterior muito característica e de fácil identificação... Ainda que... Nem todos os indivíduos apresentem os mesmos traços...

Por outro lado... Raquel parecia uma louca... De conveniência endiabrada e discurso carregado de palavras incompreensíveis... Espumando pela boca... À sua vontade de falar... Desorientada e enfurecida... Sem qualquer calma... Sempre acelerada... Num desarranjo de personalidade absolutamente hiperactiva...

As crianças... Jovens e adultos com perturbações de hiperactividade e défice de atenção... São normalmente definidas como tendo dificuldades permanentes de impulsividade e agitação... Irrequietude... Problemas de aprendizagem... Desorganização e imaturidade... Fraco relacionamento com pares e inconveniência comportamental...... Entre outros...

Enfim... Estes dois alunos... Sem ninguém esperar ou prever... Acabaram por se apaixonar loucamente... Tão loucamente... Que eram simplesmente inseparáveis...

Ele calmo... De semblante pasmacento e de poucas palavras... Aliás... Pouquíssimas... Ela era o oposto... Mas mesmo assim... Inerentes um ao outro... Indivisíveis e companheiros...

Começaram a andar de mão dada e passavam os intervalos agarrados... Abraçavam-se e até beijavam...

Para a maioria de quem os via... A situação era chocante... Já Pedro... Achava o máximo o facto de estes tentarem ter uma sexualidade quase normal... Pelo menos... Havia desejo...

Partilhavam os lanches e eram cúmplices... Pertencentes... Amigos e íntimos...

Raquel chegou a fazer autenticas cenas de ciúmes... Com Ilda e Angela principalmente... A maioria extemporâneas e sem fundamento... Porém sentidas... Contudo... Ameaçava-as de porrada... E até de morte...

Ao longo do ano lectivo... O professor assistiu a muitas situações de cariz sexual junto dos alunos... Como paixões entre colegas... Relacionamentos de sonho... Ou virtuais... Com estrelas da televisão... Fraquinhos pelo professor ou outras técnicas... Inclusivamente outras experiências... Como beijos na boca... Toques... Apalpões e até situações em que se escondiam na casa de banho ou em outro local mais recôndito... Para juntos se explorarem a si e aos outros...

Muitas vezes também eram experiências entre alunos do mesmo sexo...

Numa ocasião... Pedro surpreendeu um comboio de três alunos dentro do wc... Em que não havia penetração... Bruninho... Filipe e Carrapito... Dois deles riram... Um houve que ficou muito embaraçado... Talvez por ser o da frente...

Possivelmente estavam a tentar fazer algo que tinham visto... Pensou na altura... Ou então... Provavelmente também desejam e querem prazer...

Uma vez na praia... Mergulhou e visualizou dois alunos encostadinhos um ao outro... Um deles com os calções em baixo...

Afinal... Estes alunos também tinham sexualidade... Ainda que fosse reprimida em casa e socialmente... Não fossem estes... Eternamente meninos...

Aconteceram vários exemplos... Como as festas em que se dançava encostado...

Ao som da música e com pouca luz... Algumas alunas deliravam ao dançar com um colega ou até com o próprio professor...

Maura... Angela e Patrícia... Espelhavam nos rostos uma alegria peculiar... Como se o desejo e a paixão imperassem por ali...

Nessas ocasiões... Os mais tímidos trocavam olhares e avermelhavam a cara...

Sempre que tinha oportunidade... Sónia dava uma palmada no rabo do professor...

Quando este se voltava para trás dizia surpresa:

- Não fui eu!...

E mais... muito mais...

Estamos a falar de diversas síndromes e problemáticas... Em que as crianças e jovens eram e continuam a ser oprimidos por tudo e todos... Sobretudo em casa... Onde são tratados como eternas crianças...

Houve contudo... O caso particular de Fábio e Raquel... Que marcou o professor... Assim como... Todos os que não conseguiram ser indiferentes...

Estes apaixonaram-se perdidamente...

Sempre de mão dada pela escola... Almoçavam juntos... Mimavam-se e beijavam na boca... Era uma cumplicidade que dava gosto... Quase vivida sem palavras... Até porque ambos apresentavam problemas de comunicação oral... Mas muito intensa e verdadeira...

Certo dia... Fábio mudou de casa... A despedida foi terrível e angustiante... Mas... A verdade é que a Raquel só caiu em si na semana seguinte...

Entrou numa depressão... Regrediu... Muito mesmo...

Mais tarde... Pedro descobriu que o mesmo se passara com Fábio...

Enfim... Tal como nas pessoas vulgarmente denominadas de normais... O amor também dói quando se acaba...

Na sala de Martinha com o auxílio de Júlia...... Eram trabalhados e desenvolvidos vários conteúdos... As actividades da vida diária...  A segurança... A higiene e a sexualidade...

Esta última... Abordada junto de pequenos grupos de alunos... Sempre interessados e atentos... Colocando de lado a timidez... Discutindo e partilhando...

Foi um projecto bastante positivo para a maioria dos intervenientes...

Houve a possibilidade de através das sessões de dinâmica de grupo... Realizar experiências... Aprender coisas novas... Diferenciar os comportamentos adequados e não adequados... Aumentar o senso de responsabilidade no que se refere aos cuidados de nível pessoal e de relacionamento com os outros... Entre outras coisas...

Os maiores obstáculos foram sempre criados pelos pais... Curiosamente aqueles mais evoluídos académica e financeiramente... Isto porque... Os mais miseráveis... Nem dos filhos queriam saber... Afinal... A discussão do tema sexualidade na nossa sociedade estará sempre acompanhada de preconceitos e discriminações...

A verdade é que os alunos demonstravam interesse e motivação para abordar este tipo de assuntos... Talvez se sentissem mais aceites... Normais e incluídos...

Mais uma vez... Talvez sentissem a consideração e a vaidade próprios destes temas... De gente comum...

A sexualidade devidamente orientada melhora o desenvolvimento afectivo e favorece a capacidade destes alunos se relacionarem... Melhorando a sua auto estima e consequente adequação à sociedade...

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XLI

A investigação... Como forma de alargar horizontes e conhecimentos... Fascinara desde sempre Pedro... 

Com ela... Aprendera imensas coisas que não sabia... Desde sempre... Desde a sua infância... Quando escarafunchava horas a fio... Na biblioteca da freguesia ou da colectividade...

A magia de uma palavra... Frase ou texto... Pela simples transmissão das ideias mais actuais ou mais antigas... Pensamentos... Emoções e valores... A partilha de métodos e de experiências... Ideologia... Querer e viver... De um ser para o mundo... Na frescura das cabeças que em brasa... De tão concentradas e atentas... Absorvem todo o conhecimento disponibilizado...

Um dos espaços intervencionados pelo docente... Foi na sala onde estava a fotocopiadora...

Mais uma vez... Movimentou discentes e colegas... No intuito de a pintar e restaurar...

Como esta sala se situava à entrada da escola… O professor pensou que seria ideal para criar uma espécie de portaria... Mais estruturada e digna...

Nesse local ficaria João… Sentado a uma secretária... Desenvolvendo actividades no âmbito da sua área vocacional... Isto é... Ao nível da portaria e moço de recados...

Na mesma sala… E por detrás de um balcão… Ficaria Teófilo... Tirando fotocópias e realizando diversas actividades no computador…

Ideias que Pedro foi amadurecendo com o restauro do local e com o contributo dos restantes colegas de trabalho... Não fosse esta... A base do trabalho de equipa... Onde todos participam e opinam... Onde todos podem e têm o dever de interferir...

Neste espaço... Para além da portaria... Organizou-se um centro de recursos para a educação especial... Destinado aos técnicos e pais dos alunos... Concentrando livros acerca das temáticas ligadas à deficiência...

Também se reuniram outros livros usados... Entre todos... Funcionários... Alunos e comunidade... No sentido de montar uma biblioteca ao serviço de todos...

A biblioteca municipal cedeu algumas obras... Assim como uma papelaria local... Até nisso houve participação da comunidade envolvente...

As bibliotecas cumprem um papel de extrema importância no desenvolvimento da cultura de todos.... Para além disto... Também contribuem para o aperfeiçoamento das capacidades cognitivas... Motoras e sócio afectivas dos alunos...

A criação do centro de recursos surgiu no sentido de auxiliar o processo ensino aprendizagem... Tendo como principais objectivos proporcionar uma melhor qualidade de ensino... Responder às necessidades dos alunos... Técnicos e encarregados de educação... Incutir hábitos de leitura... De consulta e de pesquisa...

No que concerne ao funcionamento... Possibilitava a aquisição de competências de bibliotecário e auxiliar de assistente administrativo...

Com a ajuda de Luz... Teófilo aprenderia a tirar cópias e a gerir o espaço... Trataria da requisição dos livros ou outros materiais... Por outro lado... João teria um posto de trabalho mais cómodo... Mesmo à entrada da escola...

Com a ajuda das oficinas… Nas áreas vocacionais de carpintaria... Reparação e manutenção… Fizeram-se prateleiras em madeira… Que foram medidas… Cortadas e lixadas… Por fim montadas... O resultado foi muito além do esperado…

Teófilo organizou os livros com o auxilio do professor… Um enorme catálogo… Que se resumia a uma capa com separadores… Organizados em temas... Banda desenhada… Juvenis… Ciências.. Escolares… E mais…

Num nível à parte… Ou melhor… Num móvel próprio… Pedro criou uma biblioteca cientifica… Composta de materiais e livros acerca da deficiência e problemáticas associadas...

A maioria destes materiais foram arranjados através de cartas e ofícios batidos no computador por Teófilo… Dirigidos a instituições… Organismos… Como o ministério da educação… Direcção regional… Institutos e organizações de deficiência... Editoras e entidades da área… Que posteriormente João foi entregar no correio...

A verdade é que a maioria respondeu… Chegaram embrulhos com livros… Estudos e relatórios… Cassetes de vídeo e DVD… Entre outras coisas…

O professor foi dos que mais desfrutou com as novas aquisições… Explorando-as à minúcia...

Isto… Deu-lhe mais uma ideia… Que acabou por partilhar numa reunião… A de criar… Naquele centro de recursos… Um centro de estudos… Onde se realizassem pequenas investigações… Observações e registos… Estudos de caso… Assim como algumas publicações de sensibilização… Informação e esclarecimento… Dirigidas aos pais e à comunidade envolvente…

Com o tempo… Começou a organizar-se mensalmente… Um boletim informativo dirigido aos encarregados de educação e a todos os que o quisessem ler… Uma folha grande dobrada ao meio… Sob a coordenação de Pedro e com a redacção de Teófilo…

Cada mês abordava-se uma síndrome ou uma problemática… Ou simplesmente… Uma experiência ou forma de intervenção… Com uma linguagem acessível a todos… Ou pelo menos à grande maioria...

A distribuição era gratuita... A cargo de João que entregava o boletim a cada pessoa que entrasse na instituição… Por vezes repetidamente…

De vez em quando… Criavam-se grupos para realizar uma arruada e distribuir o periódico… De modo a possibilitar uma melhor integração e participação social...

Ao longo do ano lectivo… Fez-se também um blog… Organizaram-se palestras e até acções de sensibilização… Na verdade… Eram autênticas acções de formação ou cursos… Mas Pedro… Nunca teve coragem de assim as denominar… Realizaram-se grupos de apoio e partilha entre pais… E muitas actividades mais…

Luz fazia a supervisão destes dois alunos… Assim como o próprio professor… Formatados para uma nova função… Mais importante e útil...

As tarefas passavam por bater documentos… Organizar papeis… Fazer recados e tudo o que fosse realizável por estes...

Com o trabalho no centro de recursos… Teófilo foi aprendendo a ser mais rápido no computador… Por vezes bloqueava e desmotivava-se… Exclamando repetidamente:

- Não consigo! Não consigo!... Isto é difícil! Isto é difícil!...

Nessas alturas… Lá estavam Luz e Pedro para o encorajar… Animar e reforçar…

Alguns pais passaram a ser mais próximos do colégio… Contudo… Eram sempre os mesmos a participar nas sessões de esclarecimento e acções… Organizadas por Pedro e Júlia...

Até chegaram a dar formação a professores e funcionários de outras escolas de alunos com deficiência… Com a ajuda de PowerPoints e outros suportes… Filmes realizados no colégio… Entre outros...

O centro de recursos passou a ser mais um ponto de encontro onde os alunos passaram a estar nos intervalos… Para conversar… Ler livros ou ver as suas imagens… Visualizar filmes… Em suma… Passou a ser mais um local de entremetimento… Espontâneo e enriquecedor…

Por sugestão de Ramos... Começaram a desviar-se jornais e revistas do café local… Com um ou dois dias de atraso… Claro que... Com autorização da gerência...

Era tocante observar... A pose que alguns começaram a adoptar naquele espaço... Silenciosos e concentrados... Intelectuais leitores... Virando páginas com classe... De perna cruzada e pescoço hirto... A imitação de um comportamento social comum e trivial... De simplesmente… Ler ou fazer que se lê… Um jornal…

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XL

No final do dia no terraço...

O vento soprava forte e o frio começava a aparecer... Aos poucos... Aquela cidade transfigurava-se e transformava-se num local diferente... Em tons de cinzento escuro... Como uma fotografia antiga... Comida e desfeita pelo tempo... A braços com a mudança natural do ambiente... Próprio da estação... Ao longe o rio... Desembocando no mar...

Os seus dedos deslizavam na guitarra... Com naturalidade e subtileza...

Distante dali... Mas perto... O ar pesado de Carlos... Demasiado anafado e aprisionado no seu corpo... Rosto fustigado de alguém que quer um lugar numa família que não é a sua... Mas antes.. Um serpentear de emoções que se escondem para lá da sua própria identidade...

Acolhido por uma família pouco funcional... Aliás... Como a maioria... Que o usava em casa... A bem de um subsídio... Ou melhor... Da integração e inclusão... Cuidando dos sobrinhos... Que não eram verdadeiramente seus... Limpando e até reparando o que pudesse estar estragado... Até porque... Jeito ele tinha...

Num atraso que era só seu e para si... Pelo menos ali... Para isso ele servia... Para pensar e decidir é que não... Havia quem o fizesse por ele...

Os acordes saíam... Tal como o fumo do cigarro... Brando e monocórdico... Que se perdia no ar com facilidade... Misturando-se... Como os demais...

Como Cristina... Por entre os afastamentos naturais da sua síndrome... Cambaleava entre a escola e a sua casa... Parqueada e encorajada para viver um mundo infantil... Desalinhado e desvirtuado da sua real idade...

Roupa colorida... Mala cheia de bonecos... De brincadeiras muito escassas... Sonorizada por “Runs Runs”... Rodopiando estagnada os olhos pelo nariz...

Uma brincadeira intima e só sua... Com a sua melhor amiga... Imaginária e inexistente... Encorajando-se e censurando os seus próprios comportamentos e atitudes... Talvez a medo... Amedrontada pela sua condição e pela confusão do sitio... Imponente e impreciso... À sua dimensão... Quase insignificante para o mundo... Num espaço onde colegas corriam... Gritavam e choravam... Em saltos e movimentos bruscos...

Olhos amendoados... Prega palmar transversal... Ou simiesca... Dedos muito curtos e fissuras palpebrais oblíquas... Língua protrusa ou saliente demais... Cavidade oral pequena e ponte nasal achatada... Manchas de brushfield... Ou pontos esbranquiçados na íris...

Flexibilidade excessiva... Pescoço quase inexistente e problemas cardíacos... Era este o apanágio da trissomia vinte um...

Ainda assim e embora parecidos... Todos diferentes uns dos outros pela genética que carregam dos seus pais e que influencia o seu aspecto e aparência...

Carrapito zeloso... Sempre auxiliando Filipe... Num instinto protector e de amizade... Que abundava de ternura... Cuidado e dedicação em excesso... Que o seu amigo sabia aproveitar como ninguém...

Gostava de se colocar à parte... Distante e silencioso e evidenciava timidez...

Quando sozinho... O seu olhar magoado e ausente... Encontrava a imensidão do planeta... Contemplando-o conformado e resignado...

Costumava observar o professor... Como se o estivesse a examinar...

Pedro percebia-o pelo canto do olho... E quando o encarava... Carrapito desviava o olhar... Fugindo como sempre...

Face alongada e orelhas enormes... Fraco tónus muscular... Ou estado de tensão do músculo... Testículos grandes... Por vezes com estereotipias... Para além da timidez e contacto limitado frequentes...

Nos seus traços característicos do x frágil... Não passava de um filho de um pescador humilde... Preocupado com o seu descendente... Carente de informação e conhecimento... Afinal... Quem é que está devidamente elucidado e preparado para ter um filho assim?...

Por vezes... Nos intervalos... Pedro via-o sentado ao lado de Cristina... Olhavam-se e pareciam conversar... Aconteciam risos e pequenas palavras... A verdade é que comunicavam... Ainda que... À maneira deles... Muito própria e peculiar...

Era deslumbrante olhá-los...

Sarita... Com a sua problemática... Prader willi... Cujas características são atraso mental e hipotonia... Ou flacidez... Aspecto infantil... Obesidade e problemas ao nível do sistema reprodutor...

Curiosamente... Costumam apresentar uma dificuldade gravíssima em controlar a fome... Tecnicamente chamada polifagia... Comendo tudo e a toda  hora... A verdade é que Sarita andava sempre carregada de gomas e rebuçados...

Protectora de Maura e Raquel... Amigas e companheiras que a seguiam e escutavam sempre...

A primeira demasiado ameninada para o seu corpo extremamente desenvolvido... Aparência de senhora de idade... Gorducha e amarrecada... Postura envelhecida e gasta... Semblante expressivo de um rosto imensamente delicado...

Raquel era magríssima e escanzelada... Falava depressa demais e comia a maioria das palavras... Atravancando-se de saliva que saia ao crescer da conversa... E do nervosismo... Numa transmutação digna de um exorcismo... Ou acto de fazer jurar...

Reza... Oração... Cantilena... Ritual para limpar os corpos de encostos e espíritos... Extravasando os seus medos e amiudando os seus receios e inseguranças... Recuos e frustrações... Por vezes... Chegava a revirar os olhos...

Quando se enervava e Pedro a acudia... Cravava-lhe as unhas na carne... Depois... Ficava num pranto agitado... Pois não queria magoar o professor... E ele sabia-o...

Sarita fazia de tudo para que estas se sentissem apoiadas... Acalmava-as... Mediando e intermediando conflitos... Ou até... Outro tipo de situações...

Era no fundo uma líder... Transmitia ordem... Calma e apoio...

O cigarro acabara... Afinal... O vento fumara-o todo... Enquanto isso... Pedro espreitava para dentro do colégio...

Mário era um aluno exemplar... Um bastião da responsabilidade e da ascendência... Pelo menos... Para os seus colegas... Como João ou Bruninho... E até Ronaldo...

Um laço de amizade que superava atrasos... Necessidades ou limitações... Síndromes e até problemáticas...

Como um todo... Único e global... Onde a ternura... Afecto e a proximidade se uniam e valiam... Sem pressões e de uma forma natural...

Conversavam acerca de coisas que não eram normais... Enfim... Mário falava razoavelmente bem... Os outros nem por isso... Por vezes eram cumprimentos... Sins e nãos... Assim como outras verbalizações... Misturadas com sorrisos e expressões...

Eram estas as suas conversas... Parcas... Repetitivas e enfadonhas... Porém imperiosas...

Os acordes saíam naturalmente... Preenchendo como banda sonora... A divagação do professor... Por entre a paisagem que parecia revoltar-se... Tal como os seus pensamentos... Vivos e remexidos...

Ana não falava... Carregava um mutismo selectivo... Que tem como características principais eleger e seleccionar...

Um transtorno psicológico em que há recusa total de falar... Seja com pessoas ou apenas em determinadas situações...

Uma das maiores causas desta alteração... Pode estar na família... Nos chamados factores ambientais... Isto é... Tudo o que rodeia a aluna... Sejam... Experiências negativas... Violência ou decepções...

Mário... O seu irmão... Assegurava que em casa ela falava correctamente...

O núcleo familiar era intragável... Segundo a má língua... A mãe... Andava na prostituição e o pai era um pobre coitado que não tinha onde cair morto...

Vezes sem conta... Pedro perguntou-se a si mesmo... O que será que foi que ela viu?... O que será que viveu?... Que sofrimento era aquele... Tão angustiante e profundo... Ao ponto de calar uma voz?...

Patrícia... Rosa e Cláudia... Apoiavam-na... Permitindo que esta as acompanhasse... Aliás... De uma forma inata... Forçavam-na a agir e a andar junto delas...

As quatro alunas eram mulheres... Ou melhor dizendo... Já eram mulheres...

Atrasadas... Contudo fêmeas... E já olhavam os rapazes com mais atenção do que eles as olhavam... Assim como os adultos...

Provinham de ambientes muito pobres e desfavorecidos... Bairros da lata... Onde eram escravas das famílias... Empregadas domésticas que cuidavam de irmãos... Primos e velhos...

Pedro duvidava da virgindade de qualquer uma delas... Aliás... Estava certo que algum familiar... Vizinho ou suposto amigo... Já tinha feito o serviço... Afinal... Esta é uma situação agradável para muita boa gente... E para além disso... Faz parte de um universo de taras há muito globalizadas... Ou seja... Abusar de alguém que não domina as suas capacidades mentais...

Infelizmente... Os actos sexuais praticados contra crianças e jovens com deficiência são muito comuns...

Como tal... Era fundamental que se implementassem políticas que permitissem que estas crianças e jovens vivessem em segurança e com a dignidade merecida... Através de vigilância... Assistência e acompanhamento social...  Ou até... Algumas mudanças ao nível da legislação... Para que não ficassem impunes este tipo de crimes...

Para além disto... A educação sexual deveria ser um desígnio das escolas e da sociedade em geral... Pois ainda existem muitos atrasos de informação e conceitos excessivamente retrógrados...

Um trabalho conjunto entre encarregados de educação... Professores e técnicos... Meios de comunicação e instituições do estado... No sentido de possibilitar um maior esclarecimento nesta área... Favorecendo assim um desenvolvimento mais harmonioso e saudável...

Uma discussão sempre difícil porque falamos do corpo e da nossa intimidade... De sentimentos e emoções de cada um...

Os deficientes intelectuais ou mentais... São na sua maioria sexuados e sexualmente activos... Quero dizer... Todos querem namorar e casar... Ter filhos e fazer todas as coisas supostamente comuns... Necessitando por isso... De expressar a sua sensibilidade de uma forma muito própria e livre...

Porém... É comum que pais e restante sociedade... Abafem desejos e determinados comportamentos... Abrindo lugar ao preconceito e à discriminação... Concepção em desuso e completamente ultrapassada... Isto porque... Uma sexualidade devidamente esclarecida poderá proporcionar um melhor e mais eficaz crescimento afectivo e social...

É de extrema importância o simples facto de os aconselhar... Ou ajudar a saber separar os comportamentos que não são convenientes... Por exemplo... Falar da masturbação como acto intimo que não deve ser realizado em público...

A educação sexual neste tipo de alunos melhora a sua auto estima de um modo quase milagreiro... Isto porque... Promove atitudes positivas face a sentimentos que possam eventualmente sentir... Eleva a responsabilidade e a compreensão acerca de uma temática ainda tabu para muita gente... Também melhora a comunicação e a autonomia...

É indispensável compreender o corpo e o seu crescimento inerente... Apreender um pouco acerca das relações entre as pessoas... Assim como... Perceber o que é a reprodução e o que representam os sinais da sexualidade de cada um...

A integração destas pessoas na sociedade... Também as expõe a situações que poderão ser de risco... Desta forma... É essencial um trabalho conjunto entre pais... Escola e comunidade... No sentido de esclarecer... Informar e auxiliar...

Virgílio... Luís e Roberto... Já possuíam vivências de vadiagem... Para além dos seus atrasos... Eram oriundos de ambientes marginais... Onde o homem mais forte batia e abusava dos mais fracos... Mulheres... Crianças e velhos... Os filhos cresciam ao abandono e não se estreitavam laços familiares normais...

Martinha teve sempre uma grande influência nestes casos... Fazendo a ponte entre as atitudes a ter em grupo e na vida em sociedade... Ainda que não as vissem ou vivessem em casa...

Por outro lado.. Pedro transmitia-lhes afoiteza e vontade de intervir... Valores de mudança e de participação social... No fundo... A acreditarem em si próprios... Convidando-os a ser elementos interventivos na escola... Casa e sociedade... Responsáveis e mais tolerantes... Com o poder de transformar consciências e lugares...

Nunca esquecendo que... Existindo no mundo... Podemos sempre mudá-lo...

A participação social e a cidadania caminham lado a lado... Isto é... Os indivíduos só conseguem ser cidadãos se participarem... Com disponibilidade e empenho... Motivação... Competência e democracia...

O saber agir e aprender a ser... Com atitudes e valores... Conhecer direitos e deveres... Crescer e desenvolver-se integralmente... Interferir na comunidade... Com responsabilidade... Vontade e criatividade... E sobretudo... Sem resignação...

Teófilo perdia-se na sua insegurança... Incerteza e inquietação... No seu mundo completamente autista...

Imaginação... Comunicação e interacção social... Uma tríade que o perseguia diariamente e influenciava os seus comportamentos na vida... Ainda que... Fosse espicaçado...

Nos seus momentos mortos... Ocupava-se de si próprio... Sentando-se num canto... Olhando para o chão... Porque... Muito pouco parecia ser do seu interesse...

O autismo apresenta toda uma série de comportamentos que prejudicam o desenvolvimento e a integração... Como as dificuldades de relacionamento com semelhantes... O escasso ou nenhum contacto visual... Ou o facto de adorarem estar sós e procurarem o isolamento...

Por vezes riem em situações descabidas ou fixam-se estupidamente em objectos...  Alguns são completamente inertes... Outros há que são activos demais...

As pessoas com esta problemática... De um modo geral... Reagem de forma estranha à dor... Repetem palavras... Frases e assuntos... Desvalorizam o perigo e detestam o contacto físico... Apresentam pouca comunicação ou nenhuma e quase nunca respondem pelo seu nome...

Bebé cantava e dançava encantada... Tomando conta do seu espaço como ninguém... Uma ternura com todos... Extrovertida... Mas limitada... Muito circunscrita às suas dificuldades...

Vivia num mundo só seu... Mas era o nosso mundo... Fantástico... Brilhante e surreal... Onde a magia dos filmes... Das canções e da televisão... A preenchiam provisoriamente de vida...

Sempre agarrada a Pedro... O boneco... Ou então... Sem o perder de vista... Tal como o lápis amarelo de Filipe... Só seu...

A família era das melhores... Muito unida e estimuladora... Contudo... Conservavam-na menina... Doce e colorida...

Pedro começou a desenhar uma sequência de acordes... Com alguma lógica e sentido... Um blues lento e pouco ornamentado...

Canção melancólica... Carregada de angústia e tristeza... Desenhada por notas simples de frequência baixa... Numa toada expressiva e repetitiva... Vigorosa... Simples... Mas... Sensual...

Nesse momento... Recordou-se de Angela e de Ilda... As duas irmãs... Que nem se podiam ver...

Era Ilda a mais velha... Desbocada... Estridente e ruidosa... Mas mais diminuída intelectualmente... Demasiado localizada nas suas acções infantis e inocentes...

Ao contrário de toda esta energia variada e louca... Estava Angela... Tranquila e sossegada...

Olhar vesgo... Braços cruzados quase constantemente... Quem sabe observando... Quem sabe se sofrendo com a sua submissão...

Procurava inutilmente juntar-se a todos os grupos existentes na escola... Nomeadamente ao de Patrícia... Mas também aos adultos e até à irmã... Que simplesmente a desprezava...

Pedro nunca entendeu esta negação e raiva... Ninguém a queria...Todos lhe recusavam espaço ou uma simples oportunidade...

Sozinha... Solitária... Com uma angustiante sensação de vazio... desintegrada e à parte...

No fundo... Era carente... E para muitos... Uma atrasada com as hormonas aos saltos... Despindo qualquer homem com o seu olhar... Somente pelo sentido da coisa...

Já a irmã... Candidamente colegial... Estava noutra onda... Porém... Amotinava-se por tudo e por nada... Gritando e tornando-se agressiva sempre que as suas emoções mandavam...

Nessas ocasiões... Não havia muito a fazer... Era acalmar e deixar passar... Enquanto isso... Falava da sua vida e lamentava-se... Como se o mundo inteiro a perseguisse...

Uma vítima dos transtornos... Distúrbios e doenças que convivem na forma psíquica... Mental e até psiquiátrica...

Estas alterações... São demasiado amplas e abarcam campos de várias áreas disciplinares... Como a neurologia e a psicologia... A psiquiatria e até a filosofia...

Ramos vivia feliz... Contente... Sociável e bem disposto... Conversador com os mais velhos e até com estranhos...

Nasalado e fanhoso...  Como se a voz lhe saísse pelo nariz...

Porque... Sempre que o palato não toca na parede da garganta... O ar acaba por passar para o nariz... Convertendo a sua sonoridade...

Sempre a afiar lápis... Que curiosamente... Desapareciam num ápice... De tanto afiar... Para nada fazer...

Constantemente carregado de totolotos... Simulando jogos e distribuindo-os por todos como se fosse um funcionário da santa casa da misericórdia... Garantindo ser portador da sorte grande...

- Olha a sorte grande! – Apregoava em alta voz...

Samuel apresentava espinha bífida... Uma malformação congénita que compromete o sistema nervoso e que se deve a um encerramento imperfeito do tubo neural...

Este aluno revelava imensas dificuldades intelectuais... Fraqueza muscular e dificuldade em controlar os esfíncteres...

Para além disto... Em alguns casos... Esta enfermidade pode causar paralisia... Perda de sensibilidade e acumulação de líquido cefalorraquidiano no cérebro... Originando lesões gravíssimas...

Existem alguns tipos de espinha bífida... Consoante a gravidade... Como a oculta... A meningocele e a mielomeningocele...

A etiologia desta patologia está directamente relacionada com factores ambientais e específicos... Como causas genéticas... Idade avançada dos progenitores... Insuficiência de ácido fólico e ingestão de álcool por parte da mãe...

Competitivo e muitas vezes alheado... Sempre procurando superar-se e ser o melhor... Por vezes... Perdia a paciência com as dificuldades dos outros... E com as suas...

Revelava ainda problemas em lidar com a critica e com o reparo... Mesmo que fosse para o seu bem... Enfim... Não fosse ele também... Um aluno especial...

O ritmo dado pela guitarra ganhava força e consistência... Pedro insistia e desaparecia do terraço...

Fábio... Da sala de estimulação global II... Tinha trissomia vinte e um ou síndrome de down...

Caminhava com dificuldade num mundo que aparentemente não era feito para si...  Como a maioria dos seus colegas... Esquecidos e depositados num local afastado de todos...

Esta síndrome abarca diversas adulterações do foro genético... Como a trissomia simples... Com quarenta e sete cromossomas em todas as células... A translocação... Em que o cromossoma extra... Do par vinte e um... Fica preso a outro... Ou o mosaico...  Isto é... Algumas células têm quarenta e sete cromossomas e outras quarenta e seis...

Este aluno já passava muito tempo com Pedro... Beneficiando das mesmas coisas que os da sala de escolaridade...

A verdade é que Elisa agradecia... Até porque... Por ela... Mandava-os todos para a sala de Pedro...

Na sua intimidade... Fábio só queria atenção e apoio...

Pouco falava... Mas apresentava sempre um sorriso... De aspecto demasiado frágil e simples... Andava sempre muito hirto e os seus movimentos eram arcaicos e duros...

A espasticidade ocorre quando existe um aumento do tónus muscular... Causado por uma circunstância neurológica deficiente... Neste caso... Os músculos apresentam uma desobediência à extensão e tendem a contrair... Podendo causar distrofia muscular e outros problemas mais graves...

Aos poucos... O professor trauteava uma melodia... Onde as palavras... Apareciam às vezes... Encaixando quase perfeitas... Ou por outra... Perdendo-se no ar... Como o fumo do tabaco... Sem encasamento perfeito... Pérfido e fugidio... 

Sónia apresentava uma alteração gravíssima da personalidade... Para além do seu enorme atraso mental... Possuía um temperamento inconstante... Para muitos... Próximo da loucura...

Desesperava quando via o professor... Para o bem e para o mal... Chorava sempre que este se afastava... Ou quando sentia que alguém estava por perto... Conversando ou roubando a sua atenção...

Em determinadas situações... Abalroava-o sem que este desse conta... Ou simplesmente beijava-o na face... Com muita força e humidade... Afastando-se de seguida... Dizendo com dificuldade e de um modo pouco perceptível:

- Não fui eu!... – Ou... – Éh pá!..

Estranhamente... Quando se via parada... O que era mesmo muito raro... Anunciava uma tranquilidade fora do comum... Observando a conjuntura... Com postura e vigília... Contudo... Durava muito pouco... Segundos talvez... A sua capacidade de atenção e concentração eram quase inexistentes...

Às vezes berrava num pranto:

- Popê!... – Alteando o choro e o riso... Surpreendentemente... Como se fosse bipolar...

Não fosse esta condição... Uma espécie de transtorno... Com alterações de humor... Que podem ir dos sinais depressivos à euforia sem controle...

Ligava muito pouco aos conteúdos académicos e escolares... A sua atitude de mãos nos bolsos dizia tudo...

Os seus lábios batiam e a língua dava estalidos... Na constância do estado do momento... Ignorava a ordem e a responsabilidade... Mas parecia apresentar uma felicidade... E ao mesmo tempo... Uma calmaria fora do comum...

Andreia padecia de limitações muito acentuadas...

Um comprometimento geral de vários domínios essenciais... Como a cognição... A comunicação... O motor e o sensorial...

Completamente espástica... Tal como Fábio... Com hipertonia... Ou seja... Um incremento desigual do tónus muscular e consequente redução da sua capacidade de distensão... Onde o corpo se comporta de um modo bastante discrepante do que é habitual... Como se não fizesse parte do mesmo ser... Pois... Quanto mais Andreia tentava realizar determinados movimentos... Mais aumentava a espasticidade... Tornando-os desagradáveis... Compassados e completamente desgovernados...

Babava-se... Apertava as pessoas que pudesse e puxava os seus cabelos... Especialmente os compridos... Fosse de quem fosse...

Pedro achava que esta também era uma forma de comunicação... Ainda que... Pouco ortodoxa...

Na orelha tinha um sinal... Uma espécie de lóbulo na orelha... Algumas funcionárias falavam em dom... Divindade e espiritualidade...

Uma vez... Irene contou uma história acerca do budismo... Referindo que a maioria das estátuas do seu supremo... Apresentavam lóbulos nas orelhas... Muita gente acreditava que talvez estivessem associados à sabedoria ou a outras virtudes...

Arrastava-se pela escola... Quase sempre com um sorriso no rosto... Lerdo... Infantil... Desconsolado e relaxado... Eternamente ajudada por Tatiana... Uma das mais velhas do colégio... Apenas três anos mais nova do que Pedro...

Esta.. Emitia sons graves... Muito assinalados e hediondos... O seu timbre era baixo e demasiado assustador... Por vexes elevava-se... Oscilando fonemas quando menos se esperava...

A sua vocalização era muito rudimentar e tinha um olhar fixo... Todavia.. O seu semblante era disperso e vago...

Assustava muita gente... Ainda que apenas se quisesse aproximar... Dizendo simplesmente um “olá” prolongado e profundo... Com variações e oscilações...

Afagando capacidades à distância de um toque demasiado superficial... Ou demais intenso... Desequilíbrios e movimentos demasiado incipientes... Às vezes... Reacções a uma canção... A um estado de espírito... Uma emoção ou dor... Era triste e doloroso vê-la sofrer...

Tatiana passava muito mal com as dores menstruais...

Este tipo de dores... Parecem estar associadas aos espasmos uterinos causados pela libertação de determinadas substâncias... Podendo ser acompanhadas de dores de cabeça... Dificuldades de atenção e de concentração... Irritabilidade...

Nessas alturas... Tornava-se violenta e insuportável...

Por outro lado... Gostava imenso de apoiar Hélio e Andreia... Sobretudo o primeiro... Autista puro...

Uma total... Ou quase total falta de contacto com o mundo exterior... Um grau de severidade que o impedia de realizar a maioria das tarefas e actividades diárias... Como comer ou vestir-se...

Falta de interesse pelo que o rodeia... Alheamento imenso e maior... Impossibilidade de comunicação... Seja verbal ou outra... Ainda que nos entenda ou compreenda... Não consegue porém... Exprimir-se como nós...

Com ele... Eram trabalhadas algumas formas de comunicação diferentes... Os chamados sistemas alternativos e aumentativos de comunicação... Todavia... O aluno era demasiado novo e para a maioria dos técnicos e professor... Muito difícil de chegar...

Perdia-se nos estereótipos... No isolamento... Sempre demasiado assustado... Sem os olhar... Repetindo movimentos... Como o bater das palmas com os pulsos... Ou encenando expressões duras... Anacrónicas e rígidas...

Os irmãos clones... Eram quase iguais...

Tal como na clonagem... Que não é mais do que a produção de indivíduos geneticamente iguais... Ou... Várias cópias de um mesmo produto...

Estacionavam onde quer que os deixassem... Vocalizavam e até cantavam... Enfim... Estranhamente... Sons arcaicos e muito básicos... Ecos de adulto perdidos em corpos escanzelados e inocentes... Parcos em juízo...

Enxergavam os outros com posturas e movimentos primários... Como e fossem macaquinhos...

O seu andar era anormal... Locomoção obsoleta e enfezada... Mãos e braços encolhidos... Virados para a frente... Estagnados e mecanizados...

Com atrofia dos músculos... Ou distrofia muscular... Enfermidade que envolve a degeneração da membrana que envolve a célula muscular... Afectando músculos e originando fraqueza...

Definhamentos... Debilidades e distrofias... Que variam consoante os sinais e sintomas... A intensidade e o grupo muscular comprometido...

Toda uma série de diferenças que se excluem e complementam... Variando as denominações com a etiologia... A zona afectada e o nome de quem a estudou...

Numa das suas investigações... Pedro aprendeu uma das características mais interessantes apresentada por este tipo de alunos... Que sofrem de distrofia... O sinal de gowers... Ou melhor... O conjunto de movimentos e apoios particulares... Apresentados por estes quando se levantam do chão...

Zé corria pela escola de um lado para o outro... Sem se importar com quem ou o que quer que fosse...

Subia e descia obstáculos... Ficava no ponto mais alto do colégio... Como se fosse um presidiário no seu claustro... Cadeia ou clausura... Olhando o infinito... A liberdade... O além...

Como um marginal da sociedade... Encarcerado... Castigado e exilado... Tal como o cárcere normal... Para orientar... Reencaminhar e reeducar...

Depois arrancava para mais uma corrida... Sem parar... Ou melhor... Quando se quedava... Simulava um palco... Com o microfone... Objecto inseparável...

Quase não se escutava... Falava e refraseava muito baixo... Timbre grosso... Uma voz agradavelmente grave e máscula... Gemia num sussurro... Variando os tons e a intensidade... Porém imperceptível...

Aproximava-se pouco das pessoas... Fossem adultos ou colegas... Por vezes era só uma festa... Um toque ou uma caricia...

Gostava de beijar Pedro na testa... Sem oscular... Apenas encostando os lábios...

O professor apanha um papel... Começa a registar a canção... A letra fluía naturalmente... Na inspiração dos sons... Vivências e imagens...

Na alegria de Salvador... Que se deslocava por onde pudesse... Rindo... Sempre rindo... Aparência feliz ainda com todas as suas limitações...

Miguel... Atónito viajante... Talvez atento... Ou quem sabe não... Disperso e concentrado nas suas coisas... Sorrindo sempre que perdia o equilíbrio e caía desamparado e só...

Bento e Rafael... Impávidos e serenos... Chorando... Rindo... Defecando e comendo... Sem mais nada que isto... Nem uma palavra... Um beijo ou um abraço...

Era esta a comunicação de que dispunham... Olhares que não pareciam... Mas que... Eram de facto alguém... Que esperava e estava...

Não fosse a multideficiência um conceito que compreende várias limitações... Em vários âmbitos e domínios... Físico... Psíquico ou sensorial... Duas ou mais... Sendo que a cognição está sempre presente e naturalmente comprometida...

Para além disto... Associa deficiências e cada caso apresenta características muito próprias e particulares... Influenciando o crescimento global comum...

Desta forma... Necessitam de uma atenção e cuidados muito particulares... Para melhorar a sua qualidade de vida... Funcionalidade e desenvolvimento das suas capacidades...

Ruben... Que se soltava rumo à sua liberdade... Com grunhidos fortes... Para lá do imaginário humano...

Corpos de criança... Carcaças... Velhas e decompostas... Sofridas e castigadas... Causadas por alguém... Fosse terreno... Negligente ou ignorante... Nos abusos dos pais... No descuido da gravidez e do parto... Nos acidentes...

Fosse na vontade de um ser maior... Atento e amigo... Que olha por todos nós de um modo diferente... Enfim... Crença... Ou... Depravação de consciências depravadas...

A deficiência intelectual pode surgir de diversas causas... Sejam genéticas... Durante a gravidez ou parto... Ou depois do parto...

Cromossomas e genes... Factores hereditários... Drogas e medicamentos... Tabaco... Álcool e doenças... Bactérias e vírus... Malformações e traumatismos... Desnutrição e maus tratos... Meningites... Causas externas e internas...

Uma panóplia de acontecimentos banais ou de especificidade conhecida... Que castigam e entregam à imperfeição e à moléstia... Seres vivos que deixam de gozar de direitos... Vontades... Desejos e alegrais... Por razões que lhes são ou foram completamente alheias...

Pedro lê a canção... Canta-a de novo e chama-lhe... “Ar do mar”...

 

Pergunto... Se a minha vida vai mudar... Estou certo... Só podem estar a brincar...

Não tenho tempo pra escola... Quero sentir o cheiro do mar...

Escuto... Toda a gente a falar... Não sou surdo... Não precisas de gritar...

Só tempo pra bola e nadar nas ondas do mar...

Encontro... Gente na rua a chorar... Insegurança... Onde é que isto vai parar...

Não vou dar tempo à má sorte... Vou pra praia ver o mar...

 

No final daquele dia no terraço... O dia já era noite... O vento soprava forte e frio...

O tal local diferente... Em tons de cinzento escuro... Como uma fotografia antiga... Comida e desfeita pelo tempo... Tornava-se agora costumeiro... Na rotina dos corpos que habitavam a velha cidade... Desprezando o próximo... Na ignorância de quem são...

Ao longe o rio... Desembocando no mar...

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXIX

Na sala de escolaridade... Em conversa com os alunos mais velhos... Sempre motivados para a prática desportiva...

Teófilo sentou-se ao fundo... Antagonista dos restantes... Isolado e afastado como sempre... Por outro lado... Roberto teimava em não se sentar... Enquanto Carlos... Ladeava o professor... Tentando pôr ordem na sala...

- Caluda! – Ordenou Luís... – O professor quer falar!

Calaram-se de imediato... Havia respeito por este aluno...

- Obrigado! – Agradeceu o professor... – Gostava de falar com vocês sobre um projecto que penso estar ao nosso alcance!

- É para arranjar o quê? – Perguntou Virgílio... Franzindo o sobrolho e arreganhando os dentes... Cerrando-os compulsivamente e com força... Sedento de escuma...

Pedro sorriu e disse:

- Tem a ver com desporto!

- É um jogo de bola? – Gritou Roberto... Erguendo-se da cadeira... Ao seu lado... Patrícia e Rosa agitaram a cabeça... Mirando o professor com um ar de desapreço...

Luís olhou-o e este sentou-se...

- Gostaria de propor-vos a criação de um clube desportivo!

- Podia chamar-se Sporting! – Gritou Roberto... Levantando-se de novo e batendo com as mãos na mesa...

- Cala-te parvalhão! – Mandou Carlos... Expondo algum destempero...

- Deixa o professor falar! – Ordenou Luís... Apontando-lhe o dedo.. Num sinal de aviso intimidatório...

Roberto sentou-se...

- Está muito barulho! Está muito barulho! – Repetiu Teófilo... Levantando-se da cadeira e abrindo os braços... Num sinal único de fraqueza e de desconforto... – Assim não consigo! Assim não consigo professor!...

Pedro fez um gesto para que este se sentasse e acalmasse... Sem dizer uma palavra... Gesticulou e levou o dedo ao nariz... Arregalando os olhos... Contemplando-os a todos com atenção... Como se fosse falar a qualquer momento...

- Gostava de propor-vos a criação de um clube desportivo!... – Ateimou... – A ideia era fazer uma coisa a sério!... Teríamos uma direcção composta por um presidente... Um vice presidente... Tesoureiro e vogais!

Na cara dos alunos... Uma enorme interrogação e desconhecimento... Como se nada percebessem... E não percebiam... Porém... Escutavam o professor com atenção... Ao mesmo tempo... O docente deslocava-se pela sala... Esbracejando... Alteando a voz e cativando a atenção dos alunos...

Explicou-lhes que teriam de escolher um nome... Fazer um símbolo ou um logotipo... Eleger a direcção e realizar um plano de actividades que abrangesse todos os alunos da escola... Directa ou indirectamente...

Rapidamente... A reunião transformou-se numa assembleia... Os alunos também deram sugestões... Propuseram fazer cartões de sócio... Diplomas... Vender rifas... Organizar corridas e jogos diversos...

A reunião demorou até ao intervalo... Os alunos chamaram alguns funcionários e fizeram-se eleições...

Pedro foi eleito presidente... Mas abdicou... Justificando que deveria ser um dos alunos... Na sua opinião... Seria melhor e mais credível...

Carlos ficou com essa função... Pedro vice presidente e Teófilo tesoureiro... Que ficou imediatamente confuso e cheio de problemas... Dizendo:

- Mas eu não sei!... Eu não sei o que é isso! – Suando e tremendo... – Não sei se sou capaz! – Enfim... O habitual... Contudo... O professor dispôs-se a ajudá-lo...

Para além destes... Patrícia... Rosa e Luís... Ficaram vogais... Todos os outros... Ficaram colaboradores... Roberto ficou muito triste e indignado por ninguém ter votado nele... Alegando ter sido uma cabala...

Martinha... Júlia e João... Ficaram colocados no conselho fiscal... Cláudia... Dora e Irene... Na assembleia geral...

A utilização do associativismo como ferramenta educativa... Era fundamental para Pedro... Não fosse sua a ambição... Ou desígnio... De conquistar com aqueles jovens toda uma sociedade acinzentada e fechada... Tornado-os para isso... Mais participativos e sociáveis...

A troca de experiências... A partilha e a convivência com os demais... Propiciaria um maior e mais fácil desenvolvimento... Fazendo jus à base normal e natural do associativismo... Como movimento de massas... Que acrescenta qualidade à vida das pessoas... Sempre com ideia no crescimento... Desenvolvimento e progresso...

Assente na velha premissa de que o movimento associativo procura respostas para as pessoas... Estruturando e organizando populações... Permitindo o livre acesso a actividades culturais... Desportivas e sociais...

Se pensarmos na acção das comissões de moradores ou associações locais... Tudo começou sempre com o objectivo de juntar as pessoas... Trabalhar num projecto comum... Resolver um ou vários problemas existentes... Enfim... Na visão deste professor... Na escola não haveria de ser muito diferente...

Pedro explicou-lhes o funcionamento normal de um clube ou associação... Para isso... Discutiu-se o assunto das colectividades no contexto residencial nos alunos... Deram-se exemplos de clubes grandes... Agrupamentos e sociedades próximas das suas casas... O que faziam e que tipo de ofertas desportivas e de outros âmbitos tinham para oferecer... Falou-se do papel dos sócios... De futebol.. Cartas e Dominó... Bailes e quermesses...

O professor informou que na maioria dos casos... Independentemente da denominação do clube... Associação... Grémio ou colectividade... Ou sociedade... As pessoas juntavam-se para conversar... Dançar... Discutir problemas e situações... Fazer desporto e jogar jogos de mesa... Como ponto de reunião... Destinado a promover o bem estar dos sócios e das suas famílias... Através de actividades de lazer... Mais ou menos organizadas... Em função do contexto... Dos intervenientes e das suas ambições...

Se nos debruçarmos numa perspectiva histórica e sociológica... Desde os primeiros clubes... Associações profissionais ou outro tipo de sociedades... O papel destes foi-se modificando ao longo dos tempos... Primeiramente fechados a um grupo restrito e elitista de sócios... Vedado a ricos e intelectuais... Posteriormente dinamizados pelas classes operárias e povo... Sempre intervenientes... Com o carácter instrutivo e intervertivo...

Um importante papel social... Educador e modificador de mentalidades... Hoje porém... Menos e bem mais simples... Sobreviventes com dificuldades muitas... Alimentados e dinamizados por carolas... Gente insistente que se aplica e dinamiza... E que nada ganha... Bem diferente dos grandes clubes... Sociedades desportivas com cotação na bolsa... Bem longe e diferente da vontade e propósito do movimento associativo...

A primeira tarefa foi organizar um plano de actividades por período lectivo... Onde se realizassem actividades de carácter desportivo... Uma vez por semana... Com o objectivo de agregar todos os alunos...

Assim sendo... Programaram-se e organizaram-se jogos de futebol... Passeios pedestres... Torneios de desportos de combate... Encontros de jogos tradicionais e gincanas... Idas à praia... Corta-mato... Corridas de velocidade e muito mais...

Luís fez o logotipo... Aliás... Começou logo a fazê-lo assim que se escolheu o nome... CCD... Chupetas Clube Desportivo... Por sugestão de Patrícia...

António Pedro Santos

(Continua)...

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXVIII

Ao longo dos tempos... As pessoas com qualquer tipo de deficiência ou imperfeição... Fosse física ou mental... Passaram por diversos constrangimentos... Humilhações e abusos... Várias fases e episódios vergonhosos que foram sendo ultrapassados com o decorrer da história... Ou não... Se pensarmos que ainda hoje... Esta franja da população mundial... Minoritária e ostracizada... Ainda sofre todo um conjunto de situações pouco ou nada inclusivas...

Dos primeiros povos que habitaram o planeta... Não existem escriturações acerca da deficiência... Porém... Acredita-se que não deveriam sobreviver num ambiente tão agressivo...

Hoje os problemas são outros... Se comparados aos do antigo Egipto... Dois mil e tal anos antes de cristo...

Através do estudo e observação dos documentos e monumentos que ainda hoje existem... Como por exemplo as múmias ou painéis de pedra... Podem encontrar-se  problemas corporais e distrofias em todos os grupos sociais da época...

Coincidentemente... Por esta altura também se efectivaram algumas experiências ao nível da medicina... Para combater enfermidades e anomalias... Ou melhor... Tentar...

Geralmente... No antigo Egipto... As pessoas com qualquer tipo de deficiência eram canalizadas para trabalhos pesados... Como os da terra ou outros de carácter mais árduo... Os cegos eram aproveitados para realizar trabalhos artesanais...

Na Grécia... Alguns filósofos da época... Bem conhecidos das aulas de filosofia de hoje... Referiam que as crianças que nasciam disformes deveriam ser eliminadas...

Em Esparta... Sempre que uma criança nascia... O seu progenitor tinha a incumbência de a apresentar a um conselho... Este... Decidiria se a mesma era saudável...

Se apresentasse sinais de normalidade era criada até aos sete anos pelos pais... Para posteriormente... Ser educada para a guerra... Antagonicamente... Os menos desenvolvidos... Ou que apresentassem qualquer tipo de limitação... Eram atirados para um abismo... Abandonados ou expostos...

Consideravam os entendidos da época... Que não apresentavam condições para viver..

Os romanos utilizavam as crianças... Jovens e adultos com deficiência para o entretenimento... Isto é... Circos... Tabernas e até prostituição... É que nesta altura já haviam taras para todos os gostos...

De certa forma... Não muito diferente dos exemplos anteriores... Em que estas pessoas eram marginalizadas e acabrunhadas...

Características de prematuridade... Altercações visíveis a olho nu... Sinais ou limitações óbvias... Em muitos casos e povos... Consentia-se aos pais o direito de as eliminar... Sem qualquer tipo de sanção...

Por esta altura... Usava-se muito o afogamento...

Durante anos e anos... Foram cometidos abusos criminosos e violentos... Humilharam-se seres por serem diferentes... Seres estes... Que não haviam pedido para vir ao mundo...

Com o aparecimento do cristianismo... Aconteceram algumas mudanças... Ideológicas... Todavia... Na parte prática não foi bem assim...

Apareceu um conceito novo... Ou lengalenga... A história da caridade... O amor pelo próximo... O perdão... Enfim... Uma mensagem naturalmente mais fácil de chegar aos mais desfavorecidos e fracos... Onde abundavam os tais problemas de saúde ou qualquer tipo de deficiência...

Apareceram mosteiros... Congregações... Instituições de caridade... Descentralizadas... Em que trabalhavam monges... Padres e freiras... Para apoiar...

A verdade é a velha história do costume... Ou seja... A troco de abrigo ou comida... Até se diz ou escuta um pai nosso... Certamente haveria quem mais fizesse...

Por outro lado... Bispos e altos padres... Vestiam e comiam bem... Ainda hoje é assim... As igrejas também estavam... E ainda estão... Bem recheadas de adornos dourados...

Curiosamente... A igreja auxiliava as pessoas com deficiência... Contudo... Não permitia que estes seguissem a vida do sacerdócio... Fossem simplesmente deficiências mentais... Mutilados ou deformidades... Não podendo ter nenhuma parte imperfeita ou incompleta...

Era uma ajuda distante e sem muito contacto... Segregando-as e separando-as em locais próprios e afastados...

Na idade média... As epidemias assolaram o mundo... A falta de asseio... A fome e as más condições de vida... Contribuíram para o desenvolvimento e propagação de uma série de doenças...

No que se refere à deficiência... Nesta altura acreditava-se que estavam relacionados com crenças e punições divinas... Assim sendo... Todos os que eram desiguais passaram a ser declinados... Inclusive pela própria igreja...

Para que se saiba e não esqueça... A inquisição julgou e condenou todos os que eram diferentes... Fosse de aspecto ou de ideais...

Como sempre... Encontravam-se excluídos... Pedindo e mendigando... Rejeitados pelas famílias e pais... No fundo... Focos de desprezo... Atracção e de divertimento...

O renascimento foi um movimento novo que trouxe uma cultura mais humanista...

Para além disto... Realizaram-se avanços notórios na ciência... Contribuindo para o aumento do conhecimento... Desmistificação de conceitos e uma melhor intervenção...

Se analisarmos a evolução das concepções... Notamos avanços e regressões...

Na sociedade... Termos como... Idiotas... Parvos e aleijados... Débeis ou anormais... Posteriormente deficientes... São hoje substituídos por excepcionais... Diferentes ou com necessidades especiais...

Alguns dos mais antigos... Ainda são utilizados para gozar ou desvalorizar alguém... De um modo jocoso e depreciativo...

Na idade moderna surgiram algumas inovações... Como os métodos de comunicação para surdos... O braille... Próteses e cadeiras de rodas... Criaram-se associações para o estudo e atendimento deste tipo de pessoas... Os asilos e os lares...

No século dezoito e dezanove... Pinel... Um médico francês... Aparece com o conceito de doente para definir as pessoas com perturbações mentais...

No século vinte... A sociedade passou a atender melhor as pessoas com deficiência ou limitações... Aperfeiçoaram-se as bengalas e as cadeiras... Apareceram organizações internacionais... No sentido de homogeneizar procedimentos... Direitos e formas de intervenção...

Com a declaração universal dos direitos do homem... Em mil novecentos e quarenta e oito... Passou a entender-se o ser humano como nascido livre e igual em dignidade e direitos...

Durante muito tempo foram criadas imensas associações para apoiar e atender crianças... Jovens e adultos com deficiência... O ensino era segregado... Isto é... separado dos alunos ditos normais...

Depois do vinte cinco de abril... O associativismo proliferou por todo o país e criaram-se associações de pais... Federações e cooperativas com vista a atender estas pessoas...

O trabalho foi imenso... Fizeram-se centros de actividades ocupacionais... Escolas especiais... Mas sempre separadas das escolas do ensino regular...

Com o tempo... Foram-se inovando conceitos e pensamentos... Com as declarações de Madrid e Salamanca... A CID... A classificação internacional de doenças e problemas relacionados à saúde... A OMS... Organização mundial de saúde... O DSM... Da associação americana de psiquiatria... Uma espécie de manual de diagnóstico e estatístico de perturbações e desordens mentais... A CIF... Ou... A classificação internacional para a funcionalidade...

Enfim... A publicação de legislação variada... De novas versões sempre mais actualizadas... Estudos e informação remasterizada... E muito mais...

Actualmente... Ainda existem estabelecimentos de ensino segregado... Onde alunos com problemáticas diversas se amontoam e convivem... Porém... Hoje tenta-se a integração...

Espantosamente... Portugal está na linha da frente... No que respeita a profissionais e legislação de referência... Surpreendentemente... Ou não... Os chamados países mais desenvolvidos... Ainda preferem estigmatizar e separar este tipo de alunos... Atendendo-os em escolas especiais para o efeito...

Pedro acreditava num país democrático... Mais integrador e onde todos pudessem beneficiar das mesmas oportunidades...

Ainda com dificuldades... Há que juntar normais e diferentes... Para... Só assim se construir uma sociedade mais justa... Verdadeira e social...

Ao longo da sua intervenção... Este professor constatou que os alunos com maiores dificuldades evoluíam sempre na presença de colegas mais inteligentes... Pelo contrário... Alunos com deficiências mais ligeiras... Regrediam... Quando em contacto permanente com colegas com maior grau de severidade...

A sociedade deve estar preparada para lidar com a diferença... Nunca esquecendo... Que o mundo a todos pertence...

Altos e baixos... Gordos e com óculos... Com distrofias e autistas... Homossexuais... Surdos e mudos... Com e sem crenças religiosas... Pretos e brancos... Devem conviver...  Aprender e trabalhar juntos... Só assim... Seremos mais fortes... Fraternos... Humanos e iguais... 

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXVII

Ao longo da sua actividade lectiva... Pedro constatou que existiam imensos problemas relacionados com a integração dos jovens com deficiência na sociedade... O fraco  nível de leitura... Ou ausência total... Era um deles...

Era importante o desenvolvimento das competências de leitura... Assim como da sua  compreensão... Só assim se conseguiria uma maior autonomia pessoal e social e consequente sucesso escolar...

A leitura está dependente de um relacionamento saudável entre as actividades do pensamento... Só dinamizando mentalmente as composições cognitivas... Acrescendo competências e invertendo comportamentos... O indivíduo conseguirá de facto aprender... Delineando a sua própria experiência de vida...

A leitura e a escrita funcional... Era algo que Pedro ouvia falar... Contudo... A sua formação era muito parca nesse sentido... Porém... E na verdade... A sua investigação frequente era deliciosa... Cada dia o cativava mais e mais...

A angustia da prática e a impotência que dela surgiu... Abriam à necessidade de saber um caminho... Absorvente e encantador...

O professor percebeu que era mais fácil para a maioria dos alunos... A utilização... Na escrita... Das letras de máquina maiúsculas... Sobretudo aqueles que tinham maiores dificuldades ao nível da motricidade fina... Como tal... Elaborou uma tira de papel para cada aluno... Que os acompanhava sempre... Com o nome completo... Idade... Data de nascimento e residência...

Esta ferramenta de trabalho foi realizada no computador... Com a ajuda de Teófilo...

Utilizou-se na sala de escolaridade e na sala de estimulação global II... Onde os alunos eram convidados a realizar como actividade inicial... No caderno de trabalho...

Naturalmente... A maior parte dos alunos foi aprendendo e realizando esta aquisição aparentemente simples...

Lentamente... Foi também percebendo... Que o chamado  ensino normal da leitura e da escrita... Não funcionava para todos...

Inicialmente foi muito trabalhoso e experimentou vários métodos... Mas primeiro teve de os aprender...

O método sintético... É o método que se começa com o esboço independente de cada letra... Devendo ser realizada dentro de um espaço limitado e criado para o efeito...

No fundo... Depois de se conhecer a sonoridade de cada uma... De saber reproduzi-las no papel... Espera-se que o aluno já saiba ler... Pois basta juntar as letras e decifrá-las.

No método analítico ou global... O aluno começa por assimilar um texto escrito... Decorando-o... Posteriormente... Tendo em conta as suas capacidades e engenho... Vai tirando conclusões...

Escreve letras e palavras sem as diferenciar... Não existem linhas e o caderno é um espaço de ampla criação... Realça-se a importância da significação do que se escreveu...

O método natural aborda a globalidade... O aluno aprende livremente... Ou melhor... Naturalmente... De acordo com os seus interesses... São compostas pequenas frases... Lidas e reproduzidas... Realiza-se uma compilação de cada situação... Exercitando desta forma... A leitura e a escrita...

Com o tempo... Correram diversas opiniões de que o método perfeito não seria puro... Mas sim composto de algumas fusões com outros... Misturando correntes e formas de trabalho...

Apareceram os métodos mistos... Ou seja... Vários métodos de iniciação da leitura e da escrita... Consoante as situações e as circunstâncias...

No método das vinte e oito palavras... São contextualizadas... De acordo com uma progressão pedagógica... Vinte e oito palavras... Que vão sendo estudadas e globalizadas... Lidas e escritas pelos alunos... Analisando cada palavra até à sílaba.

O método João de Deus apresenta as dificuldades da língua de uma forma gradativa... Visão das letras... Sons correspondentes... Leitura de palavras...

Os casos de leitura e as suas especificidades são abordados de acordo com um processo estruturado... O aluno tem um papel de extrema importância na descoberta de que a disposição da letra na palavra determina o seu valor em termos sonoros... Vai assimilando códigos e vai evoluindo de uma forma consertada...

Com o tempo... Começou  a chegar à conclusão... Que a sua intervenção espontânea... Não estava assim tão fora da realidade... Pois... Pedro utilizou vários métodos... Alguns deles em simultâneo... Fundindo utilidades comuns entre eles... De acordo com as capacidades... Dificuldades e necessidades dos alunos...

Paralelamente... Foi criado um arquivo de ficheiros de leitura funcional... Isto é... Actividades de leitura e escrita prática... Como os meses do ano e os dias da semana... A localidade... As vilas... Cidades e aldeias... Os serviços... Os correios... Bancos e câmaras municipais... Centros de saúde... E mais...

Nesta área... Em articulação com a educadora social... Trabalhou-se também o preenchimento... Utilização e conhecimento de boletins... Impressos e outros documentos... A consulta de horários de transportes... Postais e cartas... Facturas e talões... Cheques... Assim como outras coisas de utilização na vida quotidiana... Simulações reais da própria realidade da vida...

Facilmente... Este ficheiro auxiliava os alunos a globalizar palavras... Ou a conhecer logotipos...

De uma forma espontânea... Começaram a ler... Marcas publicitárias... Lojas e serviços... Curiosamente... Alguns deles... Ou melhor... A grande maioria... Sempre afastados da vida académica... Assim como... De tudo o que se referia à leitura e à escrita... Começaram a ter maior prazer em ler e mostrar que já sabiam... Nem que fosse de um modo ainda arcaico e inicial... Ainda que fosse de uma forma muito funcional...

A verdade é que muitos já liam... Havia sido quebrada uma enorme barreira entre o conhecimento e o desconhecimento... Um grande salto... Da sua impotência para um sentimento de quem agora sabe ser capaz... O sair da resignação... Para uma forma de estar... Aberta... Atenta e viva... A simples postura e a pose de segurar uma folha... Ainda que se fingisse conseguir ler...

Outra das coisas que contribuiu para isto... Foi a identificação dos espaços... Que o professor já tinha feito... E posteriormente das coisas e objectos... Isto é... De tudo o que se via dentro da escola... Por exemplo... Todas as cadeiras tinham a palavra escrita... “CADEIRA”... Fixada com papel autocolante... As mesas... A palavra... “MESA”... E mais... Nas paredes... Nas janelas e portas... Nos cadernos... Móveis e todos os objectos possíveis... Que eram muitos... Até o chão e o tecto estavam identificados...

Em pouco tempo... O professor e Teófilo... Realizaram imensas etiquetas de papel com autocolante... Que distribuíram por toda a escola... Um trabalho que nunca teve fim... Uma vez que iam sempre surgindo novas coisas...

Foram criados dossiês temáticos... Onde compilou com Teófilo... Imagens reais e outras desenhadas... Com a palavra por debaixo... Enfim... Uma forma prática de associarem a palavra à imagem...

Para isso... Usaram jornais... Revistas e fotografias...

Os temas eram diversos... Como... Profissões... Material escolar... Cores... Figuras e sólidos geométricos... Objectos de utilização pessoal... A casa... Os instrumentos musicais e mais...

Mais tarde surgiu a ideia de cada aluno ter o seu próprio dossiê... Ou a sua pasta... Nela concentrava-se todo o seu trabalho... Andava sempre com eles... De casa para a escola e da escola para casa...

Alguns pais passaram a ser mais atentos e empenhados... Não muitos... Pois há muito que haviam esquecido que os seus próprios filhos também tinham capacidade de se desenvolver... Enfim... Quem queria... Conseguia ver o que eles trabalhavam na escola e se quisessem poderiam trabalha-los também em casa... Estimulando-os e reforçando o seu processo ensino aprendizagem...

Iam construindo o seu próprio dicionário ilustrado... Com as suas vivências e imagens... Experiências e origens... E muitas mais coisas... Cada um decorou-o como gostou.. Ou como pôde ou conseguiu... Mais tarde... Houve quem lhe chamasse Portefólio... Ou melhor... Uma colecção de todo o trabalho que se ia realizando...

Os conteúdos trabalhados na sala de escolaridade... Assentavam muito numa metodologia funcional... Isto é... Uma escrita e uma leitura que lhes desse dignidade... Que servisse... Para a melhoria da sua imagem pessoal e consequente conquista de um lugar no campo social... Na vida e na comunidade... Como seres úteis e capazes... Merecedores de um lugar ao sol...

António Pedro Santos

(Continua)...

 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXVI

Em conversa com Luz... No café...

Os seus olhos confessavam uma beleza infinitamente azulada... Que se completava num sorriso radiante e convidativo... Por vezes ria... Mas era diferente...

Se um sorriso fosse o mesmo que um riso... Também um berro não seria dissemelhante de um simples sussurrar... Não fosse a sua distância atroz e longínqua... 

O riso é uma detonação... Explosão... Disparo... O sorriso é suave e silencioso... A diferença de um vendaval para uma brisa suave de verão... Uma tempestade e um dia de sol... O riso como desabafo e um sorriso como um estado da nossa própria alma... A diferença da integração com polimento... Para uma infindável invenção dos outros e de nós mesmos... Uma resistência inclusiva e um simples transparecer da nossa intimidade... Agitar de consciências... Atenção esmerada... Elegância... A braços com a loucura e com a harmonia...

Os seus lábios húmidos... Tocavam no cigarro... Com sensualidade...

Pedro olhava-a com vontade... Sentindo o seu cheiro... Bem próximo de si...

A educadora social aparece e senta-se... Rapidamente... Começam a falar de trabalho... De alunos e de dificuldades... Barreiras e facilitadores... De peripécias e de outras situações... Causadas por estes...

Martinha começou a queixar-se da sua sala... Muito ampla e vazia... Apenas com uns cartazes na parede... De aspecto escuro e frio... Com pouco estímulo para trabalhar os alunos... Face ao espaço... Que até não era mau...

- Gostaria de alterar a tua sala! – Interrompeu Pedro... – Isto é... Se me deres autorização! – Aperfeiçoou...

- Alterar?... – Questionou estupefacta... Abrindo os seus olhos na direcção do professor...

Pedro sorriu e disse:

- Pensa comigo... A tua sala é comprida e está pouco aproveitada... – Nesse instante... O professor apanhou um guardanapo do centro da mesa e começa a desenhar...

- Se dividíssemos a sala em três partes...

- Três partes? – Interrompeu Luz... – Fazer paredes?

O professor desenhou no rosto uma expressão de gozo e prosseguiu:

- Com biombos... Ou móveis... Por exemplo!..

Luz sorriu... E Pedro continuou:

- Três partes para três áreas fundamentais! – Exclamou... Olhando-as... – Para trabalhar melhor a autonomia dos alunos e o treino de actividades da vida diária! – E continuou com o esboço... Enquanto as duas colegas o olhavam surpresas... Mas... atentas...

- Tens um lavatório ao fundo da sala?... Não tens?

- Sim! – Respondeu... – E uma pequena bancada!

- Óptimo! – Exclamou... Continuando a rabiscar no papel... Enquanto as suas colegas... Iam tecendo comentários jocosos acerca do seu fraco jeito para o desenho...

Depois de o concluir... Pedro começou a expor o seu esboço...

A ideia do docente era simples... E resumia-se à criação de três espaços dentro da mesma sala...

À entrada desta... Uma primeira zona... Composta por uma mesa... Uma televisão... Cadeiras e algum material básico... Onde a educadora social poderia reunir os alunos antes das actividades... Assim como... Trabalhar sessões individuais e de grupo... Executar tarefas mais teóricas de aplicação simples... Como o visionamento de filmes... A análise de documentos... Simulações... Entre outros...

Um segundo espaço... A seguir ao primeiro... Separado por um biombo ou móvel... Com uma cama...

- Uma cama! – Gritou Luz... Com o seu sorriso maroto... Martinha também sorriu e Pedro respondeu:

- Sim Luz!... Uma cama!

Nesse local... Colocariam uma cama com lençol... Cobertor e almofadas... Para que os alunos aprendessem esta actividade básica... Assim como... Uma cómoda com espelho... Com objectos e produtos de uso pessoal e diário... Para trabalharem aspectos relacionados com o quarto... Nomes... Utilizações... Enfim... Uma estrutura composta por cabides com várias peças de vestuário... Desde a cueca... Ao fato e ao vestido... Para os nomear... Vestir e conhecer a sua utilidade e adequação...

No terceiro espaço... Ao fundo da sala... Fariam uma pequena cozinha... Com alimentos de plástico... Embalagens reais... Torradeira... Pequenos electrodomésticos... Um lavatório e uma pequena bancada... Para que os alunos beneficiassem de uma área vocacional de culinária... A fim de se confeccionarem pequenas refeições...

A ideia caiu bem e Luz falou com dona Filó... Que deu um parecer positivo... E assim foi... Trataram de tudo...

Pedro arregimentou os seus alunos... E com a ajuda das oficinas... Nomeadamente... Irene e Dora... Sempre prontas a intervir e transformar... E claro... A educadora social... Deitaram mãos à obra e fizeram a remodelação...

Arranjaram-se móveis usados para fazer divisões... Um biombo foi construído nas oficinas... Restaurou-se uma cama que Roberto e Carlos encontraram no lixo... Um colchão velho... Que Virgílio arranjou e lavou sozinho... Lençóis e cobertores... Que Bela dispensou da sua casa... E até almofadas... Enfim... Até um microondas e um fogão velhos...

Lentamente... Pedro... Começou a recolher junto dos alunos e funcionários... Peças de vestuário... Que posteriormente... Algumas alunas lavaram na lavandaria da escola... Como... Angela e Ilda... Cláudia... Rosa e Patrícia... Com a ajuda de Bela e de Leontina...

Aos poucos... E de uma forma espontânea... Experimentou-se e implementou-se mais uma área vocacional interna... Lavandaria e engomadoria... Com o tempo... Alguns alunos passaram por lá... Revelando empenho e sucesso... Uns mais que outros... Como em tudo e todos nesta vida...

Em suma... A sala ficou surpreendente e muito mais funcional... Passou a haver espaço para trabalhar as actividades da vida diária... De uma forma mais real e prática...

Pedro auxiliou na realização de cartazes de trabalho em conjunto com Martinha... Relacionados com a segurança e higiene... Prevenção rodoviária... E mais temas... Resumidos em pósteres mais apelativos e direccionados às dificuldades... Capacidades e necessidades dos alunos...

Diante das dificuldades dos portadores de deficiência... A sociedade... Os pais e professores... Técnicos e outros... Tendem a protegê-los... Impedindo-os de vivenciar experiências que poderão promover o seu desenvolvimento pessoal e social...

Como tal... É de extrema importância trabalhar as actividades da vida diária... No sentido de elevar a autonomia dos intervenientes... Isto porque... Quando nascemos... Apresentamos uma dependência total... Que se vai perdendo de um modo gradual e natural...

Neste tipo de crianças e jovens com deficiência... É imperioso treinar comportamentos adaptativos... Como a postura... O vestir e a realização da higiene... Os hábitos à mesa e o saber estar...

Por todo o lado se reuniram latas de conserva... Pacotes de leite... Garrafas de sumo e outros objectos... Sem utilidade e que foram reutilizados na nova cozinha... Um espaço de trabalho e de treino de competências...

A sala foi utilizada por todos os que já beneficiavam deste gabinete... E por mais alguns... Houve necessidade de reestruturar horários de forma a albergar mais alunos e rentabilizar a sala...

Fizeram-se simulações de vendas de produtos confeccionados... Para trabalhar as trocas monetárias... Porque também houve quem arranjasse uma caixa registadora velha... Venderam-se bolos à fatia... Doces e gelatinas... Pipocas... Lavou-se louça... Aprenderam a pôr a mesa... Fizeram camas e identificaram peças de vestuário...

Para além disso... Trabalharam e treinaram situações de segurança com produtos alimentares... Como... Identificação de rótulos... Análise do prazo de validade...

Abordou-se a saúde... A vacinação e os produtos nocivos e perigosos... O conhecimento dos símbolos... Falou-se da higiene e da sua importância... Da rotina dos banhos e como tomar banho... Da lavagem dos dentes e da roupa...

Abordaram-se sinais de trânsito... Semáforos e passadeiras... Regras e alguns cuidados para circular na rua... Enfim... Situações que com o tempo... Foram experimentadas em tamanho real... Afinal... Era a vantagem do treino destas capacidades... Habilidades e competências... Que aos poucos... Naturalmente e facilmente eram adquiridas pelos alunos na sua vida diária...

Durante a remodelação da sala... Pedro anexou um pequeno anexo de arrumos nas imediações... Com cerca de seis metros quadrados... Que vagarosamente também começou a remodelar...

- Para que vai ser esta sala? – Perguntou Elisa... Incrédula...

- Esta vai ser a sala de música! – Respondeu...

A educadora ficou como sempre... Atónita e descrente... Sempre encostada à impraticabilidade e à dificuldade das coisas...

Tradicionalmente... Este sentimento de pequenez... Mistura-se por vezes... Ou quase sempre... Com uma boa dose de arrogância... Falta de humildade e soberba... Inveja e egoísmo...

Na mente de Pedro... Não havia espaço para indecisões... As barreiras trepavam-se ou contornavam-se... Sempre de cabeça erguida e com uma visão de progresso... Para lá das conversas derrotistas... A necessidade de ser optimista... Contra o pessimismo...

Elisa era assim... Encarava tudo de um modo negativo... Conjecturando sempre o pior... Estigma bem relacionado com o sentimento português mais elementar e derrotista... Onde existe total supremacia do mais forte sobre o mais fraco... Do maior para o mais pequeno... Do rico e do pobre... Enfim... Do bem e do mal... Num atónito conformismo... Privação e isolamento obediente... Distante do crescimento e da expansão...

A sala não era mais do que um local com um rádio gravador... Em cima de uma mesa... A guitarra... E os restantes instrumentos que encontraram durante a limpeza da sala de estimulação global...

Posteriormente e em articulação com as oficinas... Fizeram-se outros instrumentos musicais... Latas de tinta vazias... Grandes e pequenas... Que serviam de tambores e timbalões... Paus de chuva... Flautas de cana e pífaros... Chocalhos de caricas... Adufes com telas velhas... E mais...

Juntou-se a criatividade com o desembaraço... Ampliou-se o conhecimento através da expressão...

Uma vez por semana... Pedro passou a orientar actividades com os alunos... Treinando canções... Acompanhando melodias do rádio... Cantando à capela... Usando a percussão como acompanhamento...

Curiosamente... Os alunos tinham uma cultura musical muito básica... Pimbalhada... Novelas e canções infantis... Não fosse este um desígnio das televisões... Rádios e governos portugueses... Estreitar a mente das pessoas... Para que sejam mais resignadas e amorfas... Numa promoção da apatia e da submissão...

Com o passar do tempo... Pedro também tentou inverter isso... Ouviram-se outros sons... Outras canções... Nessa altura... Entendeu que as novas canções também educavam... Isto é... Os ouvidos permitiam facilmente a entrada de novos sons... Pela repetição e pelo treino... Variando a intensidade... Os contextos e os momentos...

Decoraram a sala com imagens de grupos musicais e artistas... O professor aproveitou a sala para colocar imagens de instrumentos musicais com os nomes... Para facilitar a sua identificação...

Mais tarde... Pedro descobriu que a musicoterapia poderia revelar-se eficaz para este tipo de alunos... Isto por... Apresentar características inclusivas... Trabalhar a expressão e a desinibição...

A música como componente facilitador e integrador... Onde não existe deficiência na forma como se interioriza e exprime a mesma... Uma vez que... Cada pessoa entende-a de uma forma muito particular...

A música como terapia... Pode minorar algumas dificuldades... Pode auxiliar no desenvolvimento da comunicação... Da motricidade e socialização...

Com a musicoterapia... Pode trabalhar-se também a autonomia... A auto estima e a cognição... Memorizando canções... Encadeando rimas e tons... Por meio de batidas... Que ao acaso ou cadenciadas... Poderão marcar um compasso sério ou divertido... Integrando tudo e todos... Sem pudor e estigma... Intensamente... Intimamente e socialmente...

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXV

Depois da pintura do espaço... E até por causa da área vocacional interna de jardinagem e hortofruticultura... O professor lembrou-se de dinamizar alguns canteiros existentes na escola... Limpando-os com os seus alunos e criando rotinas de preparo e de manutenção... Rotinas essas que seriam importantes ferramentas para o desenvolvimento geral dos alunos...

Na problemática da deficiência... Os seus intervenientes... Não estão isentos do cumprimento de horários e de rotinas sociais... Como tal... As actividades da vida diária... Devidamente enquadradas na prática das crianças e jovens... Poderão revelar-se como importantes instrumentos de trabalho e de intervenção... Estas... Passam a exercer um papel quer como... Elemento terapêutico... Quer inclusivo... Para além disto... Desenvolve-se a autonomia para pensar... Estruturar e de agir... Através da planificação do trabalho e da participação em todo o processo de gestão...

A horta... Tornou-se um espaço de invenção comunitária... De expressão de conhecimento e produção de produtos... Humanização paisagística que diariamente se modificava... Experimentação de capacidades e vontades... Superação das limitações e consequente transformação em facilidades... Enfim... Socialização e convivência... Com pares e adultos... Num ambiente naturalmente conquistado... Realizando mudanças reais de carácter... E de representação social...

No início... Semearam salsa... Coentros e alfaces... Mais tarde... Couves... Favas e ervilhas... Os canteiros eram muito poucos... Posteriormente... Começaram a colocar garrafões de água de cinco litros... Cortados... Arranjados no comércio local... Ou... Nas casas dos alunos... Envolvendo-os a eles e às famílias... Assim como... A comunidade enleante... Num projecto comum... Onde semearam mais coisas... Batatas... Cenouras... Beringelas... Pimentos e muito mais...

Tudo estava disposto num canto solarengo... Junto à sua sala de aula... Aí... Parqueou uma mesa velha... Que os alunos restauraram... Pintando-a de verde e castanho... Servia de bancada... Onde se dispunham pequenos canteiros... Os tais garrafões... Garrafas grandes e pequenas cortadas... Assim como outras vasilhas de plástico e baldes velhos... Que fizeram de canteiros... Que de bem colocados e dispostos... Embelezavam o local...

Aos poucos... Pedro criou um mapa de manutenção da horta... Ou melhor... Do jardim... Ou quintal... Como alguns carinhosamente lhe chamavam... Onde estavam... Bebé... Cristina... Carrapito e Filipe... Ramos e Samuel... Para regar... apanhar as ervas daninhas... Identificar culturas com etiquetas...

Com o tempo... Começaram a semear e plantar flores... Rosas... Cravos e lisandros... E até alguns arbustos pequenos... Alfazema... Alecrim e poejo... Enfim... Gradualmente.. Os outros alunos também se meteram no projecto... De uma forma natural e espontânea... Alguns até levaram sementes e algumas plantas de casa...

Cristina... A mais limitada deste grupo... Começava aos poucos a adquirir a sua noção de rotina diária... Enchia os regadores e regava... Chegou a afogar algumas plantas... Mas não foi caso único... E... Sempre que acontecia... Pedro e os mais velhos explicavam que água a mais era prejudicial à planta... Mas... Foi assim...

Os alunos da sala de estimulação global II também colaboraram... Isto é... De quando em vez... Alguns... Como era o caso de Hélio e Zé... Arrancavam as folhas das plantas e colocavam-nas na boca... Não fossem os dois autistas... Isolados e à parte... Sem se misturar com os outros... Rotinados e persistentes no seu próprio dia a dia... Sem manter o contacto visual ou físico com os restantes... Parecendo não ouvir... Quanto mais escutar... Apegados religiosamente a objectos que giram de uma forma estranha e peculiar... Sem qualquer noção do perigo... Rindo e mexendo-se sem explicação...  Balançando-se... Agitando-se... Cheirando e lambendo coisas... Sem fundamento... Ou quem sabe... Talvez com sentido...

Alguns confundiam as ervas daninhas com as que... Na realidade... Não eram para apanhar... Mas na verdade... Até os mais velhos se enganavam... Inclusive Pedro e outros adultos... Bem... Alguns... Achavam-se conhecedores demais... Como Bela... Luz e até Roberto...

As favas davam-se bem... Sem muito cuidado... Preparação ou manutenção... Com o tempo... Foram aparecendo e desenvolveram-se...

Quanto aos alunos da sala de estimulação global I... Pouco ou nada contribuíram... Contudo... Beneficiaram... À sua maneira... Do ambiente verde e mais cheiroso...

Por vezes... Iam lanchar nas suas cadeirinhas para o pequeno jardim que o professor havia improvisado... Chegaram a fazer-se actividades de carácter olfactivo com plantas aromáticas...

Não fosse o olfacto... Um sentido vasto... Que fornece pistas para a orientação e para a localização... Uma interacção que identifica ambientes... Espaços e locais... Um auxiliar para a mobilidade... Protecção e segurança... Que ajuda o deficiente a conhecer-se melhor a si e ao mundo que o rodeia...

Nessas actividades olfactivas... Os alunos cheiraram folhas... Terra seca e molhada... Aromas e fragrâncias... Quem sabe... Se não as distinguiam... Alguns... Metiam-nas na boca... Pedro não achou mal... Já Elisa... Passou-se...

Para o professor... Talvez diferenciassem sabores e experimentassem sensações... Ruben... Por exemplo... Adorava mascar camomila...

Mais tarde... Pedro descobriu que a camomila tinha propriedades calmantes... Pois... Contribuía para a diminuição da hiperactividade... Propiciando a tranquilidade e colaborando para a diminuição do stresse...

A verdade... É que ele se acalmava mesmo... Quem sabe... Se esta não seria uma forma natural de fugir à enorme quantidade de medicamentos que diariamente tomava...

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXIV

O colégio estava construído no centro de uma velha cidade... A sua edificação era oitocentista... Ou talvez... Do inicio do século XX... Como tal... Havia muito pouco espaço verde... Ou melhor... Nenhum... O ambiente era demasiado cinzento e eram frequentes as paredes velhas e sujas... Uma brancura deslavada e vã... Que preocupava Pedro...

O professor falou com as colegas das oficinas... Dora e Irene... Que gostaram da ideia de as pintar... Contudo... Haviam poucas tintas disponíveis... Tinham branco... Verde... Azul e rosa... Vermelho e mais algumas... Todavia... As quantidades não chegavam para fazer uma pintura decente... Pelo menos... Para as paredes interiores que se voltavam para o pátio da escola...

Irene lembrou-se de pintar as paredes às cores e até idealizou alguns perfis e pormenores... Como... Flores e crianças... Arco-íris e até um sol... Enfim... O projecto ficou à responsabilidade desta...

Pedro falou com Dona Filó... Que apenas respondeu... Com o seu ar sobranceiro:

- Confio no professor para limpar a imagem deste colégio!

Assim foi... Deitaram mãos à obra...

Os alunos que beneficiavam da área vocacional interna de reparação e manutenção... Começaram por colocar plásticos e cartões no chão... Junto às paredes a intervencionar...

De roupas velhas... Que sempre se arranjavam... E chapéus... Com luvas... Que Pedro continuava a desviar na bomba de gasolina... Lá iniciaram a obra...

Rolos e pincéis... Enchiam de cor as marcações realizadas por Irene e Dora... Luís também fez algumas...

Afinal... A pintura... Como arte genérica e comum... De aplicação de um pigmento liquido... Colorindo áreas e superfícies... Enchendo-as de cor e de encantamento... Em papeis... Telas ou paredes... Em matérias e materiais... Pintura de mural... Frescos...

Sintéticas e Celulosas... Cubismo... Impressionismo... Abstracção... Loucura poética e devaneio puro... Para lá das paredes e muros... De desenhos húmidos e secos... Quentes e frios... Pitorescos e reais...

Pedro também ajudou... Canalizando para o projecto os alunos que passavam por si... Aliás... Durante essa semana... A maioria das actividades lectivas não aconteceram... Havia necessidade de agilizar o processo... Só assim seria possível despachar tudo rapidamente...

Mário e Roberto... Luís... Carlos e Virgílio... João... Ronaldo e até Bruninho... Tiveram um papel de extrema importância no desenvolvimento e implementação do empreendimento... Bem como Ilda... Angela e Patrícia... Ana... Rosa e Claudia...

Os restantes... Colaboraram como puderam... Retocando alguns pormenores... Fazendo lanches... Carregando latas... Baldes e água... Pintando com auxilio... E mais... Muito mais...

Afinal... As actividades lectivas foram outras... Mas aconteceram... Numa promoção das práticas educativas... Mais próximas da normalidade... Ainda que... Com deficiência...

Um exercício de cooperação... De vivência e de autonomia.. Um ensaio de criatividade... O ser capaz em detrimento de incapaz... Crescer forte e com vida... Mesmo com limitações...

No final da obra... Houve tempo para algum silêncio e constatação... Por parte dos alunos e funcionários...

Pedro reuniu-os em grupo e falou-lhes... Elogiando o trabalho à minúcia:

- Hoje estou demasiado orgulhoso de vocês! – Exclamou... – Provaram ser capazes!... Reparem que desenharam portas e janelas nas paredes... Algumas árvores... Pessoas e bolas... Parece que estamos na rua!

- A bola fui eu que pintei! – Gritou Roberto... Complementando a sua intervenção com um enorme e despropositado salto... – Sozinho! Não foi Irene? – Indagou... Olhando-a... Como que esperando por aprovação...

Todos riram e Pedro continuou:

- Desenharam flores... Nuvens e até um sol! Estão de parabéns! – Afirmou...

Uma grande ovação invadiu aquele espaço... Um ruído ensurdecedor contagiou o local... Com mística e valor... Palmas para todos... Porque ali... Provaram ser úteis e iguais aos demais... Aos ditos normais... Conseguindo colaborar em grupo... Em equipa... Num projecto comum... Numa obra única e permanente... Para a posteridade... Um projecto de remodelação de um edifício velho e devoluto... Ao qual deram uma nova cor...

Isto porque... Na pintura... Com todo o fundamento da cor... Massas coloridas em estruturas básicas... Que de altivas e fortes... Obras de arte se tornam... Para espectadores atentos ou banais... Desfrutando de calor e frio... Proximidade e profundidade... Luz e sombra... Relações de história... De arte... De imagem e de base... Abafam a deficiência... O estereótipo e o preconceito...

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXIII

Com o tempo... E com a inserção do professor na comunidade envolvente ao colégio... Pedro começou a estabelecer protocolos com algumas empresas e entidades locais... Onde... Alguns alunos passaram a desempenhar actividades de formação em posto de trabalho...

O professor elaborou inclusivamente... Alguns documentos para o efeito... Como... Um que fundamentava a formação no contexto de transição para a vida activa... Áreas vocacionais internas e externas... Combinados de espécies de currículos... Para cada área... Objectivos gerais e específicos... Expectativas... O envolvimento dos pais... Entidades parceiras e escola... Assim como... Autorizações e outros protocolos...

Pedro desenvolveu uma opinião bastante particular... Assim sendo... E para este... As áreas vocacionais deveriam ser inseridas no currículo do aluno com necessidades educativas especiais como sendo a primeira fase de uma futura integração profissional... Propiciando-se o experimentar e o descobrir de diferentes áreas profissionais de uma forma teórica e prática... Permitindo a aprendizagem de novas competências... Ou... Um conhecimento das capacidades dos alunos nas diferentes áreas... Sondando gostos... Procurando vocações...

Para ele... A escolha das áreas vocacionais a introduzir no currículo de cada aluno teria de ter em linha de conta os recursos humanos... Materiais e espaciais disponíveis... Deveriam ser diversificadas e ir ao encontro das motivações dos alunos e das necessidades da sociedade... Isto é... Actividades que revelassem carências de profissionais...  

No seu conceito... E de acordo com a estrutura de trabalho que aos poucos estava a montar... Para que estas áreas contribuíssem para a integração do aluno e consequentemente para o sucesso de todo o processo ensino aprendizagem... Deveriam ser planificadas... Delineando metas e linhas orientadoras... Objectivos... E ainda... Sujeitas a uma avaliação... De forma a adequar os conteúdos ao discente... Reestruturando-os sempre que necessário...

Embora houvesse uma certa relutância social... Em aceitar este tipo de alunos com deficiência... A escola... Tinha o dever de tentar efectuar parcerias com empresas... Instituições... Organismos públicos... Para auxiliar no funcionamento das áreas vocacionais... No sentido de proporcionar aos alunos melhores condições de aprendizagem... Assim como viabilizar futuros protocolos de formação ou até de emprego...

No fundo... Pedro criou pequenos currículos para cada área vocacional ... Assim como... Formulários... Onde assinavam... Pais e encarregados de educação... Os alunos em questão... A entidade empregadora... Ou melhor... Formadora... Ora parceira... E o director pedagógico... Na pessoa do professor... Como representante da escola...

Para além dos alunos que desempenhavam funções dentro do colégio... Na cozinha... Nas salas... Na carrinha... Refeitório e outros... Pedro conseguiu falar com a junta de freguesia local... Onde colocou Teófilo a realizar... Uma vez por semana... Numa tarde... Funções numa reprografia... Foi bastante complicado... Devido à sua problemática... Afinal... O autismo... Como disfunção global do desenvolvimento... Com a célebre tríade de Lorna Wing... A comunicação... Sociabilização e a imaginação... Ou seja... Os tais três grandes domínios do desenvolvimento humano... Seriamente afectados... Enfim... Pedro teve de o trabalhar muito... Acompanhá-lo no início... Mais tarde com Leontina... Posteriormente com João... O colega que frequentava a área vocacional interna de porteiro e de moço de recados... Até que por fim.. Sozinho... Sempre pelo mesmo caminho... A mesma rotina...

Respondia tipo robot... Articulando um discurso bem preparado e com ênfase... Porém e por vezes... Confundia-se na totalidade... Baralhando-se e perdendo a paciência com a sua cabeça e com os seus problemas…

Dizendo: “É a minha cabeça! Não tenho a culpa!”…

Nessa altura... Também regularizou a brigada da limpeza... O presidente da junta... Acessível e moderno... Achou graça ao projecto e tornou-se mais um aliado de Pedro... Arranjou algum material... Sacos de lixo... Vassouras e pás... E até umas camisolas com o brasão da freguesia... Os alunos... Esses ficaram mais inchados e até pareceram mais adultos e profissionais...

Falou também... Com a senhora do café que frequentava... Esta aceitou e comprometeu-se a receber Ramos para servir à mesa... Lá ia ele... De calça preta puxadissima para cima e camisa branca... Uma hora por semana...

A mãe colaborou na produção e na roupa...  Bem... A verdade... É que ele conversava mais do que fazia e até chegou a partir alguma louça... Mas isso até lhe fez bem...

Nessa hora... Em que Ramos trabalhava no café... Os funcionários do colégio enchiam o espaço... E Ramos sentia-se demasiado valorizado...

No início... A dona do café não estava muito a fim ... Mas cedeu... Provavelmente por Pedro... Contudo... Passado uns tempo e depois de ver o desempenho de Ramos... Dirigiu-se  ao docente e perguntou-lhe:

- Se me arranjasse uma aluna mais desenvolta...

Foi ouro sobre azul... Rosa passou a ir depois da hora de almoço para o café... Uma vez por semana... Aprender a lavar louça e a varrer... A verdade é que... De limpeza... Sabia ela bem... Não fosse ela a empregada lá de casa... Cozinhar... Limpar e cuidar dos sobrinhos... Enfim... Há muito que deixara de ser criança...

Afinal... E à vista deles... Não era tão anormal assim... Era um encanto Vê-la de bata...

Luís era bastante fechado e sempre reservado... Contudo justo... Pois.. Respeitava os mais fracos e protegia-os sempre que necessário... Conhecido por ter problemas cognitivos e comportamentais... Se bem que... Estes últimos... Nunca os chegou a revelar ao professor... Aliás... Sempre empenhado e motivado nas actividades... Levando consigo os outros...

Gostava de grafittis... Música da moda... Carros desportivos... Filmes de guerra.. E todas as coisas associadas... Talvez devido à idade... Ou quem sabe... À conjuntura do próprio ambiente em que vivia...

Pedro conseguiu metê-lo duas horas por semana... Numa tarde...  Numa casa de tatuagens... Enfim... Uma conversa que aconteceu com o dono num café local... Luís não deve ter aprendido muito... Todavia... Ganhou no contacto com outra pessoa... Diferente dos espaços que habitualmente conhecia... Escola e casa... Esta última... Demasiado degradada e ausente...

Lá... Tinha a liberdade de fazer desenhos da sua autoria... Conhecer utensílios e determinados cuidados associados àquele trabalho...

Aos poucos... Passou a ser mais desenvolto... Aberto e sociável... Contava episódios da sua formação e desenvolveu com o dono do espaço um relacionamento de amizade...

No fundo... Estes alunos... Precisavam invadir a sociedade que tanto os excluía... Educando mentalidades e modificando formas de pensar... Retrogradas e ultrapassadas... Provando ser hábeis e capazes... Úteis e sobretudo... Mostrando que também  têm direito à vida...

Roberto foi para um supermercado local fazer reposição de material... No início... Tudo correu bem... Mas passado algum tempo... Foi recambiado para o armazém... Pois a sua linguagem chocava os clientes... Falava muito alto e tinha a mania de se auto vitimar... No armazém... Estava mais escondido e podia falar à vontade com os seus colegas mais velhos... Para ele... Naquela manhã em que frequentava a área vocacional externa... Era como estar em casa...

Samuel também foi para o mesmo supermercado... Duas horas numa manhã... Auxiliava com os sacos... Ensacando-os e carregando-os... Fazendo pequenas arrumações... Contudo... Por ser muito organizado e originário de uma família com dificuldades económicas... Sabia os preços dos produtos de cor... Sobretudo os mais baratos... Afinal... Eram esses que tinha em casa... Sem maldade... Começou a aconselhar os clientes que frequentavam o supermercado... Dizendo:

- Olhe que este é mais barato!

Enfim... Pedro foi chamado à atenção e falou com o aluno... Explicando-lhe que o objectivo do dono era vender... Sobretudo o mais caro... Samuel ouviu o pedido... Mas... Teve algumas semanas sem aparecer no supermercado... Ficou amuado... E não entendia... Porque é que não podia ajudar as pessoas... Ele no fundo tinha uma consciência social... Sabia que havia muita falta de dinheiro e miséria...

Carlos foi para uma casa de rações... Que também vendia animais... Para além da limpeza e de alguma ajuda no atendimento... Enchia sacos e carregava-os até aos carros dos clientes... Limpava as gaiolas e alimentava os animais...

O aluno sentia-se demasiado orgulhoso com esta sua função... Não poupando ninguém de escutar a sua prestação durante aquela tarde semanal... A verdade é que a sua auto estima subiu...

Virgílio foi para uma oficina de automóveis... Leontina ajudou na realização do protocolo... Lá... Limpava peças e motores... Ouvia ensinamentos... Passava ferramentas e ia conhecendo os seus nomes... E utilidades...

O ambiente era propicio para os seus tiques faciais e para as suas dificuldades na fala... É que o dono também não falava muito bem... Todavia... Era bastante atencioso com Virgílio... Aceitava-o sem dificuldade e por vezes até lhe pagava um sumo e uma sandes...

Começou por ir uma manhã... Posteriormente... Já frequentava a oficina duas vezes por semana... Estava demasiado motivado e já começava a achar a escola pior que a oficina... Com o tempo... Ganhou um macaco azul com o nome da empresa nas costas... Ficava-lhe um pouco grande e largo...

A sua responsabilidade... Tolerância e atenção... Evoluíram a olhos vistos... Por vezes... Até fumava um cigarro... Pedro sabia mas ignorou... Afinal... Esta também era uma forma de inclusão... Ainda que... Menos boa...

Há uma imagem inesquecível... Que o professor ainda guarda... Quando o apanhou uma vez a fumar... Virgílio... Com o arranhar dos dentes... Num enrugar da face... Clara e ameninada... A piscar-lhe um dos olhos... Bem mais adulto e experiente...

Ronaldo e Claudia fizeram equipa num centro de lavagem automóvel... Ela trabalhava com vontade... Ainda que... Sem os dentes da frente... Escondendo-se por vezes da sua própria timidez... Já Ronaldo... Parecia um magnata à conversa com os clientes e restantes funcionários... Todos lhe achavam graça... Olho claro... Falador e muito bem-parecido...

De vez em quando... Era chamado à atenção e lá tinha que tirar as mãos dos bolsos e alinhar... A verdade... É que o convívio e a interacção com o exterior era positiva para os dois... Até chegaram a ganhar gorjetas... Que Claudia dividia pelos dois em partes desiguais... Pois Ronaldo... Tinha imensas dificuldades em realizar contagens e trocas monetárias...

Os restantes alunos do colégio e estes... Continuaram à mesma a frequentar áreas vocacionais de carácter interno... Quer fosse nas oficinas da escola... Na brigada da limpeza... Que por vezes arranjava espaço para outros alunos... Na cozinha e no refeitório... Na portaria e na limpeza do espaço...

Pedro ficou impressionado com o auxílio de algumas colegas... Como Júlia... Martinha e Luz... Dora e Irene... Carla... Preta e Bela... Até Telma... Que... Por trás da sua gaguez... Fazia a diferença... Com imenso empenho...

Gaguez... Ou... Perturbação da fluência do discurso... Carregada de bloqueios... Repetições e prolongamentos de sons...

Nas suas investigações... Pedro aprendeu que a gaguez pode ser acompanhada de movimentos faciais ou corporais... Como Bela e Virgílio... Por exemplo...

Para alguns autores... A gaguez parece estar relacionada a um processo de reforço do bloqueio... Isto é... Quando a palavra acaba de ser pronunciada a ansiedade diminui... Logo... A indecisão é premiada... Enfim... Talvez não passe de uma aprendizagem com reforço negativo...

De fora... Continuavam Elisa e Saudade... Sempre a criticar e a apontar defeitos... Como se nada valesse realmente a pena...

Por outro lado... Os restantes colegas já utilizavam alguns alunos... Até para realizar alguns recados... Dentro e fora da escola...

Começaram a perceber que estes alunos tinha potencialidades e podiam ser utilizados para tarefas de responsabilidade... Resumindo... Cada gesto era demasiado importante e significativo...

Antes e durante esta intervenção... Pedro foi desenhando um currículo para cada área vocacional... Fosse interna ou externa...

De uma forma espontânea... Os alunos beneficiavam de um conjunto de áreas e de competências que eram úteis para a escolha de uma formação adequada às suas motivações e capacidades... Para o professor... Era fundamental... Conhecer as capacidades dos alunos nas diferentes áreas... Experimentar novas formas de trabalho... Possibilitar a aprendizagem de novas competências...

Desta forma... O docente esperava... A longo prazo... Encontrar uma vocação que permitisse a integração futura dos alunos na sociedade... Assim como... Desenvolver a autonomia pessoal e social... A cognição... Elevar a auto estima... E as capacidades e habilidades motoras dos discentes...

O professor escolheu como áreas vocacionais internas... A reparação e manutenção... Onde aprenderiam a utilizar ferramentas básicas... Como o serrote... O martelo ou a chave de fendas... Conhecer o nome e a sua utilidade... Desenvolver algumas técnicas básicas... Como lixar... Colar...

A limpeza e reciclagem... Era uma área que permitia treinar a utilização dos utensílios de limpeza... Como vassouras... Panos do pó... Baldes e detergentes... Ou seja... Aprender competências básicas do dia a dia... Como limpar... A varrer ou lavar...

Com a jardinagem e hortofruticultura... Pedro ensinava a semear... Regar e plantar... A manipular enxadas... Regadores e baldes... Conhecer diferentes culturas e procedimentos...

A área vocacional de comércio... Ainda que... Não tivesse sido implementada no início do projecto... Suscitou dúvidas na totalidade dos seus colegas...

A verdade é que... Pedro acreditava... Que num futuro próximo... Seriam vendidos alguns produtos executados pelos alunos da escola... Como... Produtos da horta... De artesanato e jornais... Enfim... Isto permitiria... Por exemplo... Realizar trocas monetárias... E desenvolver a autonomia pessoal e social...

Na culinária... Os alunos envolvidos poderiam colaborar na confecção dos alimentos... Preparar e cortar... Lavar... Cozinhar... Conhecer as regras de higiene alimentar... No fundo... Prepará-los para a vida... Trabalhando uma actividade da vida diária essencial...

Nas oficinas... Iria realizar-se uma espécie de unidade de produção de artesanato... Com pintura... Cerâmica e carpintaria... Áreas importantes para o desenvolvimento dos discentes... Ao nível cognitivo... Motor e criativo... Através do desenvolvimento de algumas técnicas... Experimentando e utilizando materiais... De diversas formas e em vários contextos...

Como estratégias... Pedro tentaria visitar locais... Como oficinas e empresas... Ou até... Realizar  projectos individuais e de grupo... Trabalhos na escola e quem sabe... Fora dela... Estimular a criação própria... Experimentar diversos espaços... Formas de ensino e de aprendizagem...

Esta estruturação dos currículos... Seria uma base de trabalho para o futuro... Um registo prescritivo de situações... Objectivos... Critérios de êxito e condições de realização... Um documento pioneiro e inovador... Que sustentaria toda a intervenção no âmbito do processo de transição para a vida activa e adulta... A base do projecto educativo... Um desígnio do professor e da escola...

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXII

O fim do dia no terraço…

Nas tais águas furtadas… Pedro aquecia o coração solitário com um pouco de cor… Arejado pelo ambiente… Siderava-se na paisagem… Provinciana… Ainda assim… Citadina… No ruído do final do dia… Cansativo e disperso… O término das gentes que agora se recolhiam… Face ao sentido de esgotamento dos corpos…

Na companhia de um cigarro… Desfrutava com todo o prazer… Olhando o rio ao longe… A entrar à força no mar… Numa mistura de fluídos… De requinte e de salvação…

A guitarra também lá estava…

Aos poucos… Pedro intermediava por ambos… O cigarro e o instrumento… Numa ode ao desassossego… De quem tempera a alma acinzentada… Com um pouco de brilho….

Os acordes fluíam sem pressa… O fumo do tabaco explodia… Num desabafo do corpo… Refeito da sua necessidade… De lá para cá e… De cá para lá…

No meio de toda a inspiração… A génese criadora surpreendia… Com virtuosismo e um pouco de loucura...

Aberto aos recados de Elisa… Aprendiz dos risos dos alunos… Com o charme natural de Luz... Ou... O cheiro provocante de Leontina… No encontro da realidade de dois mundos... Completamente distintos... Onde um grupo de jovens parecia completamente desalinhado e à margem da sociedade...

Na ignorância das pessoas que na rua os olhavam… No diz que disse dos que... Eventualmente... Pensam ser diferentes... Ou abençoados por uma inteligência sobrenatural...

No alheamento de Miguel... No mundo limitadíssimo de Rafael... A luta diária de Salvador... Que teimava sempre em andar... Ou tentar... Ainda que não conseguisse...  Ou o grito de revolta de Ruben... Demasiado marcado pelo destrato social... O medo...  A ira e o abandono...

O zelo de Carrapito... Para com Filipe... A organização de Bebé… A mão amiga de Sarita... Ou o jeito de ser de Carlos... João e Mário... Na perda de contacto com a realidade exterior de Teófilo ou Zé... Quase... Ou simplesmente à parte...

O desleixe... A negligência... Familiar e escolar... Para com Patrícia... Rosa... Cláudia... Luís e Roberto... E mais... Muito mais...

Nas vocalizações de Cristina... Completamente fechada em si... Não por ela própria... Mas por todos... Ainda que... Se tentasse libertar... Criando alguém imaginário... Companhia... Amiga e doce... Sempre presente para si...

Pedro desenhava notas no braço da guitarra... Sentidas... Porém... Ao acaso...

Viu a cumplicidade de Dora e de Irene… Amigas… Colegas… Limitadas… Contudo… Aplicadas… Esforçadas em melhorar… Em aprender…. Para lá da cagança de Elisa…  Só comparável aos palavrões de Bela… Face ao rosto envergonhado de Preta… Que condenava tais actos…

Da gaguez de Telma… Ou a maldade de Saudade… Enfim… Na esperança de dona Filó… De Carla e de Martinha…

Na chegada atribulada… Na aceitação… Atenção e vigilância… De Luz… De curvas magas… Sempre bela… Ainda que prisioneira… Tal como os alunos… De uma sociedade… Que no fundo… A obrigava a ser assim… Casada e infeliz… Dançando sobre si mesma… Ao sabor da vida… Abrilhantada… Por vestidos coloridos… Cheiros provocantes de desejo… A braços com Leontina… Também soberba ao seu jeito… Doce… Mélico e sensual… Capaz de tomar um qualquer homem de assalto… Se fosse essa a sua vontade…

Pedro pára de tocar e atira com o cigarro… Do terraço para o mundo…

Em silêncio… Recorda-se do mutismo selectivo de Ana… Tudo o que vira… Passara e guardara para si própria… Numa prisão de um ser que consigo mesmo se revolta… Recusando-se a pronunciar… Um som que seja…

O professor procura uma folha solta e regista um tributo a todos eles… Vítimas de uma sociedade que os esqueceu… Depositando-os… Crianças… Jovens e adultos… Num hospício que cultiva a diferença… A segregação e a loucura…

Escreve a letra… Dedilha e canta…

 

A minha vida é um traço de calor... Que começa e termina onde acaba a dor...

À procura do sol... Uma vida por um dia...

À procura do sol... Era tudo o que eu pedia...

Que eu não levo a mal... Não ser igual...

Uma vida incompleta e distante... Um sorriso amargo e sujo como dantes...

À procura do sol... Uma vida por um dia...

À procura do sol... Era tudo o que eu pedia...

Que eu não levo a mal... Não ser igual...

Esta vida desgostosa e banal... Faz sentir-me um tanto ou quanto antisocial...

À procura do sol... Uma vida por um dia...

À procura do sol... Era tudo o que eu pedia...

Que eu não levo a mal... Não ser igual...

 

Acende outro cigarro... Relê a canção e interioriza-a...

Chama-lhe: “Uma vida por um dia”...

Siderado com o que escrevera... Pensa no que pode fazer com a canção... Na sua utilidade e aplicação... E divaga um pouco...

Imagina-se a cantá-la aos seus alunos... Ensiná-los... Ensaiá-los e pô-los a cantar para alguém... Numa festa... Num espectáculo... Quem sabe até numa cassete... Tanta coisa... Enfim...

O cigarro queima-lhe os dedos... Na verdade... Mal o fumara...

Crava-lhe os dedos para que desapareça... Esticando o braço... Mas hesita... E já não o atira do terraço para o mundo...

Em vez disso sorri... Apaga-o no chão e coloca-o no lixo… Afinal… Há que começar uma limpeza social… E esta… Deve começar com pequenos gestos…

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXI

Nos períodos da escolaridade… Na parte da manhã… O professor passou a apostar na diferença… Realizando actividades de carácter divergente e inovador daquilo que… Supostamente seria um currículo normal… Isto porque… De facto… Não havia muita esperança de transformar academicamente… Aqueles alunos problemáticos em seres assim tão evoluídos… Pelo menos… De grau superior…

Uma delas foi… Seguramente… Privilegiar as saídas do colégio… Passear na rua… Conhecer novas pessoas… Invadir as artérias do quotidiano comum… Costumeiro e banal… Com um pouco de disparidade… Talvez… Rumo a uma inclusão… Consertada e quem sabe… Mais eficaz… Com o recurso ao choque violento… A fim de conseguir uma mudança radical de mentalidades… Abruptas e anacrónicas...

Numa manhã de sol… Pedro realizou a chamada… Contudo… Já antes… Samuel o havia informado de que ninguém faltava… Enquanto isso… Ramos preencheu o boletim meteorológico…. E Bebé preparava paulatinamente a sua mesa de trabalho…

Quando os alunos já estavam a postos… O professor comunicou:

- Hoje vamos fazer uma coisa diferente!... Vamos ver o rio!...

Imediatamente… Conseguiu visualizar-se o contentamento de alguns… Ainda assim… Sobressaía a ausência de outros… Como por exemplo… Cristina… Que repetindo as suas vocalizações estranhas… Parecia completamente alheada da novidade…

Rapidamente formou-se uma fila na porta… Dois a dois… Ordenados e afortunados…

Carrapito e Filipe… Ramos e Samuel… Cristina e Bebé… E lá foram a caminho do rio…

- Onde vão? – Perguntou Luz… Que se havia cruzado com estes…

- Vamos ver o rio! – Exclamou Ramos com a voz fanhosa… Aproveitando… Ainda assim… Para a beijar no rosto…

- Estás boa Cristina? – Questionou a adulta… Verificando que esta ficara para trás… Contemplando a cena do beijo…

- Vamos Cristina! Junta-te aos teus colegas! – Ordenou o professor…

Rapidamente… Cristina avançou a trote… Dizendo:

- Boa! Tou Boa!… Rum… Rum…

E lá foi… Repetindo… Desorganizadamente… Perguntas e respostas:

- Tás boa Cristina?... Estou!... Rum… Rum… Vais passear?... Vou!... Rum… Rum… Claro que vou!...

- Não quero ninguém de mão dada! – Avisou Pedro… - Quero que andem acompanhados! Ao lado uns dos outros!

Nesse instante… Passou Elisa… Mais uma vez atrasada… Lamentando-se do trânsito infernal… Ainda que… Ninguém lhe perguntasse… Mesmo assim… Houve tempo para que os olhasse com desdém… Ou curiosidade… Mas… Pedro ignorou-a por completo…

Pelo caminho… Atravessaram passadeiras… Caminharam em passeios… Cruzaram estradas e obedeceram a semáforos… Guiados somente… Pelo desejo de ver o rio…

Quando chegaram ao destino… Pedro abeirou-se da margem e descalçou-se... Incentivando os alunos a fazer o mesmo...

Apenas Ramos o fez… De imediato e sem qualquer problema… Depois seguiu-se Bebé… Ainda que com maior dificuldade…

Para os convencer… O professor avançou para a água…

- Arregacem as calças! – Disse… - Vamos só molhar os pés!

Claro que… Pedro teve de auxiliar alguns dos alunos… Quer a descalçar… Quer a arregaçar as calças…. Como Cristina ou Carrapito…

- Temos de mudar isto! – Informou… Olhando-a com cara séria… - Tens de aprender a fazer isto sozinha!

Olhando-o nos olhos… Cristina respondeu… Quase em jeito de questão:

- Temos?... Rum… Rum… Ouviste Cristina?... Tens de fazer isto! Sozinha!

Já Carrapito… Virou o rosto para o lado… Evitando encarar de frente o professor...

A estranheza de caminharem descalços… No pequeno areal sujo… Misturado com escassos paralelepípedos… Experimentava neles sensações distintas… Enfim… A magia das impressões… Repleta na magia do rio… Imensamente vivo…

Receosamente… Caminharam atrás do professor… Com cuidado… De um lado para o outro…

Bebé segurava as calças do fato de treino com sentido e deslocava-se com bastante cuidado… Apalpando com os pés o novo piso…

Cristina permanecia imóvel… Só e abandonada… Paralisada e com receio em avançar… Aguardando instruções… Ou somente por um contacto… Pedro auxiliou-a... Tocando-a...

Já Carrapito… Avançava… Com a mão esquerda enfiada na boca e a outra puxando Filipe… Dizendo repetidamente:

- Vamos! Despacha-te! Atrás do professor!...

Filipe lá ia… Parecendo desfrutar daquele tacto e reparo… De um jeito redobrado quase constante da parte deste seu colega e amigo…

Samuel levantava as pernas com cautela e brandura… Enquanto que Ramos… Experimentava também as mãos…

O professor convidou-os a cheirar a água… Colocá-la nos lábios e mexer nela com as mãos... Tocar no fundo… Trazer areia para cima… Apanhar pedras… Ou simplesmente atirar água ao ar… Nessa altura… Lembrou-se de dizer:

- Não se molhem!...

Enfim… Já foi tarde demais… Mas... Mesmo assim sorriu e pediu-lhes que observassem as gaivotas e visualizassem peixes…

- Eu vi um! – Gritou efusivamente Carrapito… Agitando Filipe… - Viste Filipe? Viste?

Mas este… Rodando a cabeça… Parecia mais entretido com os barcos que por ali passavam… Traineiras ou simplesmente embarcações de recreio…

Pedro pediu-lhes que contassem os barcos… Ou melhor… Que tentassem… Contabilizar as poucas embarcações de pescadores que ainda restavam de uma arte... Ou indústria… Completamente assassinada… Quem sabe... Se pela Europa globalizada... Ou melhor... Monopolizada...

Ficaram por lá algum tempo… E de uma forma geral… Divertiram-se…

No regresso à escola… Os sorrisos eram evidentes e as expressões pareciam revolucionadas de uma nova vivacidade… Pelo caminho… Jornadearam molhados… Calças arregaçadas… E contentes… Sobretudo satisfeitos… Aos olhares de todos os transeuntes que passavam… Que paravam e olhavam a diferença... Ainda com algum pudor… Ou complexo…

Nesse dia… Tomaram banho nos balneários da escola… Pedro pediu ajuda a Júlia… Que de imediato se prontificou a auxilia-lo com as duas alunas…

Arranjaram-se toalhas… Champôs e gel de banho…

No final… A psicóloga assegurou que o banho das duas raparigas tinha corrido bem… Já o masculino… Foi uma animação… Os alunos despiram-se de preconceitos e lavaram-se… O professor orientou-os para que se lavassem bem… Isto… Ao constatar que estes nem sequer o sabiam fazer com correcção ou preceito…

A partir desse dia… O banho passou a ser uma rotina… Pelo menos para aqueles que apresentavam problemas de higiene… E infelizmente… Eram a maioria…

Criaram-se mapas e tabelas… Luz ajudou… Júlia a até Bela… Pedro supervisionava quase todos… Convidando-os e convencendo-os para os benefícios do banho… Junto do sexo oposto… Dos colegas… Funcionários e sociedade… Como melhoria efectiva da autonomia pessoal e até da auto estima…

Pedro até fez um desenho… Devidamente plastificado… Que se colocou nos dois balneários…. Com todos os passos e procedimentos… Desde a lavagem… Da cabeça aos pés… Gel de banho… Secagem… Enfim… Para melhor os auxiliar nessa tarefa...

Com o tempo… Estendeu-se a actividade às duas salas de estimulação global… Foi difícil… Mas Pedro conseguiu-o… Afinal… Estava determinado em mudar… Ou pelo menos… Contribuir para a mudança…

O professor ainda voltou ao rio… Levou outros grupos de alunos e até chegaram a levar materiais desportivos… Fizeram brincadeiras e jogos… Contudo… A experiência deste dia foi única… Talvez por ter sido a primeira… Afinal… Os rios comportam uma elevada carga… Capaz de modificar pessoas… Ou talvez… Disfarça-las… Desde as emoções aos comportamentos…

Enfim… A magia de modificar rostos… Empobrecidos e penalizados… Integrantes sem incorporação… Fruto de uma sociedade obsoleta… Ultrapassada... Mas presente e realmente segregadora… A necessitar de uma urgente transformação… De uma inadiável lavagem… Quem sabe… Com a genuinidade… Pureza e elegância da água de um rio…

António Pedro Santos

(Continua)... 

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXX

As sessões de psicomotricidade com Ruben eram dificílimas… Para além da sua problemática… Síndrome de lowe… O aluno estranhava qualquer tipo de ruído... Assim como... Qualquer contacto ou até palavra… Que a ele se dirigisse...

Da investigação que habitualmente fazia… Pedro constatou tratar-se de uma doença genética rara que causa deficiências físicas e mentais… Assim como problemas de saúde...

Também conhecido como síndrome óculo-cérebro-renal… Foi descoberta em 1951 pela equipa do doutor Charles Lowe... Segundo alguns estudos... Parece ser causada pelo mau funcionamento de um gene do qual resulta o défice de uma enzima… Enfim… Parece que esta enzima desempenha um papel importante no funcionamento metabólico de uma parte da célula… Com esta insuficiência… Desencadeiam-se problemas do foro ocular... E também... Do foro cerebral e até ao nível do fígado…

Esta problemática… Apresenta várias limitações e insuficiências... Como cataratas congénitas bilaterais… Que podem ser diagnosticadas à nascença ou pouco depois... Glaucoma… Em cerca de cinquenta por cento dos casos… Fraco tónus muscular e atraso no desenvolvimento motor e mental… Problemas comportamentais... Crises de epilepsia… Raquitismo… Fragilidade óssea… Entre outras coisas mais…

Durante as aulas individuais… De apenas meia hora cada… Pedro transportava-o até ao primeiro andar… Onde se situava o ginásio… No trajecto… Ruben gritava e auto agredia-se…

Os seus gemidos e gritos... Eram assustadores... Um misto de voz sofrida e engrossada pelo tempo... Num corpo acriançado e demasiado castigado pela vida que levava... Como um adulto isento de palavras... Escondido e aprisionado num corpo ainda muito primaveril...

Pedro sentia-se impotente face à situação… Todavia… Utilizou colchões para delimitar uma zona… Colocou algumas bolas e objectos… As pistas tácteis… Auditivas… Proprioceptivas… Enfim… Corpos estranhos… De características sonoras… Diferentes tipos… Com água… Quentes e frios… De diferentes cheiros e odores... Entre outros…

Foi com a água que Pedro pareceu entender algo… Isto é… A única altura em que o aluno se parecia acalmar… Era quando bebia exacerbadamente água pela garrafa…

Nessa altura… Tocava no professor… Nitidamente pedindo… Por meio do tacto e gestos… Para que este abrisse a garrafa… E lha levasse à boca…

Só nesse instante acalmava… Contudo… Se a tarefa não tivesse o resultado desejado… O aluno irritava-se… Explodindo novamente toda a sua exaltação…

Lentamente… E com o passar do tempo… O novo professor… Foi doseando a água a dar ao aluno… Aos poucos… Mão na mão… Realizou o movimento de agarrar na garrafa… Abri-la e levá-la à boca… Fechá-la e pousá-la por fim…

Uma habilidade básica para qualquer ser humano… Que Pedro foi repetindo em todas as sessões… Até na sala de estimulação global número um… Com o auxílio de Telma… Que com o seu empenho… Passou a contribuir para o desenvolvimento… Através do treino… Desta actividade básica da vida diária…

Para além disto… O docente diversificou os locais… Para que o aluno se habituasse à estranheza e diversidade das situações… Ora no ginásio… Na sala do professor… Na do aluno e até no pátio… Variou as situações… Com música… Ou com a presença de mais pessoas… Telma… Luz… Ou até outros alunos… Que sempre o ajudaram e acarinharam…

Aos poucos… Ruben criou uma certa empatia por Pedro… E por Telma…

Certo dia… Antes da sua sesta… Estava insuportável… Nem Telma… Nem Rosa ou mesmo Luz… Ninguém o conseguia adormecer… Chamaram Pedro… Que ao entrar lhe disse:

- Que se passa amigo?...

Ruben pareceu acalmar-se ao escutar a sua voz… Pedro aproximou-se agachando-se junto deste nos colchões… Imediatamente… Ruben abraçou-o… Acamando-se para dormir… De dedo na boca...

Pedro emocionou-se… Sentindo-se quase pai… Na porta… Colegas e alguns alunos… Olharam-no com admiração...

O professor fechou os olhos e Ruben adormeceu... Consolado... Perfeitamente encostado... Deixando Pedro completamente babado... No sentido literal do termo...

António Pedro Santos

(Continua)...