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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

Introdução

A magia era contagiante... E isso reflectia-se nos olhares daqueles jovens... Que inebriados com o momento... Desfrutavam dele com emoção... Afinal... Era provavelmente a primeira vez que se afastavam dos seus pais e famílias... Somente acompanhados de colegas e alguns adultos...

Acampavam num parque... Onde a solidariedade e a participação nas tarefas eram essenciais...

Aqueles alunos nunca tinham acampado e a grande maioria... Raramente ia à praia ou tinha sequer um momento de lazer com as suas famílias... Inclusivamente... Para os funcionários da escola... Foi uma excelente experiência... O convivo e a partilha... Aproximaram-nos mais... A todos...

Pedro descobriu... Que até para os seus colegas... O campismo era uma novidade... Tirando o professor... Dora e Irene... E talvez Júlia... Os restantes... Nunca o tinham feito...

Enfim... É no fundo um momento diferente... Onde se dorme no chão com poucas mordomias... A higiene e as necessidades são feitas num balneário comum... Separado por sexos... A comida é partilhada e não existem tecnologias como... Computadores ou televisões... Ao mesmo tempo... Os alunos são mais fortes... Mais próximos e iguais... As diferenças notam-se... Mas... São mais difíceis de ver... Todos têm funções definidas e procuram cumpri-las...

Pedro contempla aquele cenário e sorri... Com uma sensação de dever cumprido... Ou melhor... Quase... Até porque... O ideal de perfeição requer ainda mais trabalho e empenho... Maiores condições e recursos... Ainda assim... Face às adversidades e contradições... O professor está satisfeito com os resultados... E sorri de novo...

Ainda assim... Recorda-se como foi difícil preparar aqueles dias de campismo... Convencer pais e colegas... Sim.. Porque os alunos... Esses... Estavam mais que prontos... Embora... Não conhecessem a realidade da coisa...

Naquela reunião em que propôs realizar uma visita de estudo a um parque de campismo local... Ou melhor... Próximo... Pois ficava apenas a cinco ou seis quilómetros de distância do colégio... Muita gente levantou problemas e indignações... A verdade... É que o docente as conseguiu contornar...

A directora... Que esteve sempre com ele... Encorajou-o... Júlia e Martinha... Dora e Irene... E até Carla... Dispuseram-se a ajudar na organização do passeio... Luz... Ofereceu-se para fazer alguns telefonemas e tratar da parte logística... Telma e Leontina colocaram-se à disposição... Bela... Arfava... Elevando o sobrolho... Deserta... Provavelmente para soltar um palavrão... Quanto a preta... Apenas perguntava o que poderia fazer para ajudar...

Como sempre... Elisa e Saudade... Alertavam para os perigos e sobretudo para a enorme responsabilidade de tê-los a cargo...

- Não sentem essa responsabilidade?... – Argumentou Pedro... – Diariamente?...

Todos se calaram...

A directora escutava-o... Com aquele leve sorriso positivo... Que a caracterizava... E Luz mostrava algum orgulho... Pelas suas palavras e poder de argumentação... Leontina piscou-lhe um dos olhos... Bela soltou uma gargalhada seca... E mordeu o lábio... Para não soltar nenhuma obscenidade... Preta olhou-a com desdém... Abanando a cabeça em sinal de negação...

- Mas... Temos dinheiro para isso? – Questionou Elisa... Em busca de qualquer sinal de fraqueza...

Pedro sorriu... E explicou-lhe... A ela e aos restantes... Que este... Era o momento de aplicar o dinheiro que se foi juntando ao longo do ano lectivo... E que Luz... Religiosamente guardara...

Aquele que foi conseguido com a venda de jornais... Bolos e chás... Compotas... Licores... A verdade é que... O próprio professor... Que estruturara a escola e organizara todo o projecto... Atrapalhou-se ao explanar todas as actividades que foram tão produtivas para os alunos e lucrativas para a escola... Mas... Também não era necessário... Afinal... O trabalho estava à vista... Aos olhos de todos...

O professor pediu voluntários para passar duas noites fora...

Conseguiu a terapeuta da fala para uma noite... Pois Carla... Tinha uma consulta no segundo dia... Bem como Júlia e Martinha... Dora e Irene... Já davam seis...

Telma preparou-se para falar... Mas gaguejou... Como sempre... E Saudade antecipou-se... Perguntando:

- E nós?... Não trabalhamos?

Pedro sabia que nem todos os pais autorizariam a ida à visita de estudo... Isto é... Passar as duas noites fora... Numa tenda de campismo...

Até para os adultos estava a parecer complicado...

Contudo... Estava certo que permitiriam que os seus educandos fossem à praia... Assim sendo... Os restantes funcionários iriam ter à praia com os alunos que não poderiam acampar... Ou aqueles com maiores limitações...

Pedro sugeriu que fossem à praia apenas de manhã... Todos concordaram... No fundo... O professor já sabia que nenhum aluno da sala de estimulação global I iria... Assim como... Sarita... Hélio e Zé... Tatiana... Os clones... Sónia e Andreia... Enfim... Estes eram alunos com necessidades maiores que os restantes... Alguns não controlavam os esfíncteres... Outros tinham uma alimentação própria e medicação específica... Para além disto... Revelavam problemas emocionais... Distúrbios e transtornos que poderiam dificultar essa experiência...

Ainda assim... A ida a praia e o convívio com os demais... Poderiam ser um indicador para o futuro... Quiçá amanhã... Quem sabe...

Luz fez contactos com o parque de campismo... Expôs a situação... Jovens deficientes... Oriundos de famílias com poucos recursos financeiros... A ideia era conseguir um desconto...

- A estadia é grátis! – Exclamou Pedro contente... Informando os restantes colega e atribuindo todos os louros ao esforço de Luz... Que com o seu poder persuasivo conseguiu que os alunos beneficiassem da estada... Inteiramente oferecida pelo parque...

A sua colega corou com os elogios do professor... E logo um burburinho se instalou na sala... Misturado com as atitudes de espalhafato do costume...

As autorizações fizeram-se e foram assinadas pelos encarregados de educação...

- Mas e as tendas? – Inquiriu Elisa... Em busca... Quem sabe... De algum podre do projecto...

Pedro sorriu... Mas desta vez... Foi Júlia quem falou... Explicando que com dois toldos atados às árvores se faria uma enorme tenda... Os alunos apenas levariam sacos de cama... Os que não tivessem... Levariam um cobertor... Todavia... Pedro acrescentou... Que no dia da partida... Se verificariam os materiais... Previamente solicitados aos pais... Como... Produtos de higiene... Roupas e outras coisas... A fim de providenciar algumas faltas... Não fosse este... Um projecto de partilha e de solidariedade... Visando a vida comunitária e o desenvolvimento de autonomia...

Pedro sorria... Enquanto recordava a reunião... Olhando os alunos a interagir junto às tendas... Aguardando a passagem da digestão para regressarem à praia... Completamente soltos... Livres e puros...

- Professor! – Exclamou Ramos de braços cruzados... Em tronco nu... Com os calções demasiado puxados para cima... – Parecem maluquinhos! – Acrescentou... Batendo com o dedo na testa...

Bebé brincava com uma bola colorida... Atirando-a ao ar... Com Pedro no bolso... Afinal... Sempre inseparável... Completamente descalço e despido da cintura pra cima... De cabelos despenteados... Bem diferentes e mais gastos...

Carlos jogava às cartas com Luís... Roberto e Patrícia... Esta última... Sempre rodeada de Cláudia e Rosa...

Parecia correr bem o jogo... Pelo menos estavam empolgados...

Próximo destes... Carrapito ria de alguma brincadeira de Filipe... Que segurava o seu enorme lápis amarelo... De cara risonha e matreira... Por contágio... Cristina ria também... Dizendo para si própria:

- O que foi Cristina?... Rum... Rum... Ai! Ai! Cristina... Rum... Rum... – Dizia... descompondo-se a si própria e rindo desalmadamente...

Dora e Irene... Contavam anedotas... Quase juntas e ao mesmo tempo... Como se fossem gémeas... Escarnecendo e encenando situações... Com exagero da própria realidade da coisa...

Lá estava Virgílio... Arreganhando os dentes e contraindo o pescoço... Numa estereotipia frequente... Assim como Samuel... Ronaldo e Sarita... Que afinal... Se conseguiu que fosse...

“Ainda bem”... Pensou Pedro para si...

Bem como Ana... Completamente muda... Júlia e Carla... Que gozavam da prestação das colegas... Completamente animadas e dotadas em fazer rir...

Ali perto... Angela e Maura... Contemplavam o professor... Com alguma vergonha... Já... Raquel e Fábio... Bem agarrados e enamorados... Como sempre... Mas por pouco tempo...

João jogava raquetes com Bruninho... Ou melhor... Tentavam...

Religiosamente... João servia a bola... À qual... O colega permanecia imóvel e frustrado...

Com calma... João apanhava a bola e servia de novo... De vez em quando dizia com a voz trémula:

- Então... Bruninho?... Não vês a bola?...

Frustrado... Bruninho baixava a cabeça... Rodando os olhos para cima... Como um animal clamando por piedade...

- Não faz mal! – Dizia João... Deslocando-se para a bola... Apanhando-a do chão e servindo outra vez...

Ramos encarava de novo Pedro... Rodando de novo o dedo na testa...

Um pouco afastado... Estava Teófilo a ler um livro... Ao seu lado... Ilda comunicava com vontade e audácia... Num monólogo que este nem dava importância... Talvez estivesse desligado mesmo... Com a sua capacidade natural de... Simplesmente apagar... Mas... Ilda continuava... Sem se importar... Divagando na conversa... Formulando perguntas e dando as respostas... Gargalhando com prazer...

- Parecem maluquinhos! – Exclamou Ramos... Fanhoso e sorridente... Procurando integrar o mundo dos adultos através da proximidade com Pedro... – Fugiram do hospício!... Loucura!... Loucura!... – Repetiu... Oscilando o dedo na testa... – Loucura!...

António Pedro Santos 

(Continua) ...

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