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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor ... Ensaiando

XVII

No terceiro dia da semana... Quarta-feira de manhã... Depois do café... Pedro subiu com Elisa...

No caminho para ambas as salas conversavam acerca do início do ano lectivo:

- Estás a gostar? – Perguntou... Com a voz meiga e olhar desconfiado...

O professor respondeu afirmativamente... Contrapondo:

- E tu... Está a correr bem?

Elisa efectuou um desenho de enjoo... Como se um cheiro irrespirável andasse por ali...

- Bom dia! – Cumprimentaram em coro Irene e Dora... Que ao contrário de ambos... Desciam para as oficinas...

- Bem... As miúdas tão encantadas contigo! – Afirmou Irene...

- E os rapazes também! – Completou Dora...

Pedro sorriu... Irene agitou a cabeça e continuou:

- Sabes o que é que a Maura disse ontem lá em baixo nas oficinas? – Interrogou... Efectuando um pequeno compasso de espera... – O professor Pedro é muita giro! – Exclamou... Realizando um decalque oral do sucedido...

- E a Raquel disse: É lindo! – Gritou Dora... Num rasgo de imitação jocosa da aluna... Gaguejando para melhor parecer...

Elisa e Pedro riram... Se bem que... A educadora fê-lo de uma forma mais discreta e contida... Exactamente o contrário das colegas das oficinas... Que elevavam a voz... Encenando interpretações ao mais alto nível... Mesmo ao lado de alguns alunos que já andavam por ali...

Ao visualizar Ramos... Pedro deu-lhe a chave e pediu-lhe que abrisse a porta aos colegas... Depois foi atrás dele...

Elisa ainda realizou uma expressão de aspereza... Enquanto as restantes desciam as escadas rumo às oficinas...

Por outro lado… Pedro achou graça... Talvez pela forma tão idêntica com que articulavam o mesmo discurso... Encadeando palavras numa história colectiva contada a duas vozes... Harmoniosas na voz e semelhantes no aspecto...

Já na sala... O professor cumprimentou os alunos e explicou-lhes o que iriam fazer nessa manhã... Iriam trabalhar a escrita do nome... Alguns dos alunos pareceram entusiasmar-se com a ideia... Outros... Tão dispersos pareceram nem perceber... Como Cristina... Que juntava os dedos das mãos nos seus lábios... Rodopiando os olhos... Ou Filipe... Que contemplava o seu enorme lápis...

Ramos já estava a afiar o seu... Sorrindo em tom de gozo... E Bebé ainda preparava religiosamente a sua mesa... Retirando o material lentamente da sua mochila...

Talvez Samuel e Carrapito estivessem atentos... O primeiro a coçar a cabeça... Ainda devagar... O outro com a mão esquerda escondida na boca...

Pedro assobiou e bateu as palmas... Ramos também o fez...

Alguns alunos riram do ocorrido... E o docente sorriu também...

No final da aula... Os alunos dirigiram-se ao refeitório...

Saudade e Luz ajudavam os alunos com maiores dificuldades... Enquanto que… Preta e Bela... Do lado de dentro do balcão... Preparavam os pratos…

Ao passar... Pedro foi abalroado por Andreia... Que o abraçou... Arrastando o seu andar... Por entre uma excitação de riso com saliva... Que escorria agora para cima do novo professor... Pedro conduziu-a ao lugar... Mas esta... Agarrou-o com tanta força... Que Luz teve de o auxiliar...

- Ai! Ai! – Gritou... – Deixa o professor ir almoçar!...

Mas Andreia... Revoltada... Entoou gritos suprimidos da sua própria alma... De uma forma débil e translocada...

Pedro dirigiu-se ao local onde almoçaria... Porém... Foi também abordado por Sónia... Que o abraçou com toda a força…

Desta vez... Foi Saudade quem o ajudou... Levando a aluna para o seu lugar...

Tumultuosa... Entrou num pranto sem igual... Por entre lágrimas e um carpir medonho... Já ao chegar à porta... Pedro ainda ganhou um beijo de Maura... Que mesmo com o seu porte... Desapareceu timidamente com pulos infantis...

- Bem... Isso está mau! – Exclamou Carla... A terapeuta...

- Ainda és acusado de pedofilia! – Afirmou Martinha sorrindo...

Pedro agitou a cabeça e sentou-se... Cansado somente do pequeno período da manhã... Tão absorvente e intenso...

- Talvez não aguentes! – Disse Júlia... Bonacheirona...

- Comigo também foi difícil! – Estorvou Elisa... – Ao princípio estive para desistir! – Completou... Efectuando um olhar de vida complicada e penosa...

- Um homem nunca desiste! – Interrompeu Bela... Em grossa voz... Colocando o prato de Pedro na mesa...

- Ora aí é que é! – Exclamou Pedro... Seguro das suas palavras...

- Ora vêem? Caralho! – Desabafou Bela... – Ai! Desculpem! Saiu-me! – Descartou-se... Afastando-se...

Pedro sorriu... Contudo... A maioria dos presentes efectuou uma expressão de desdém...

O resto do almoço teve uma banda sonora usual... A conversa do ensino e dos alunos... Aliada à má educação e formação dos intervenientes no processo educativo…

O professor desligou... Alimentando-se e procurando descansar... Restabelecendo-se para a tarde e apagando dos seus ouvidos a futilidade das conversas das colegas...

Depois do café... Seguiram-se dois grupos de psicomotricidade...

Zé entrou no ginásio eufórico... Sem parar junto de Pedro... Que estava junto à porta... Acomodando-se nos colchões de ginástica... Enquanto o professor o chamava... Inutilmente…

Sónia placou-o por trás... Num abraço enérgico... Os clones ainda vinham no início das escadas... Agarrando-se e deslocando-se lentamente..

Tatiana também entrou no ginásio... Levando Hélio pela mão…

Pedro desceu para ajudar Andreia... Que assim que o sentiu... Esperou que este fizesse tudo... Libertando a moleza e o peso total…

O professor acomodou-a nos corrimãos e ordenou-lhe que subisse... A aluna não se mexeu e Pedro subiu... Fazendo-lhe adeus...

Ao chegar ao ginásio... Os clones estavam estacionados à entrada... Estagnados de corpo e face... Num sorriso artificialmente definitivo…

Hélio batia as palmas... Como sempre… Arreganhando os dentes... De olhos muito abertos…

Tatiana e Sónia espojavam-se no chão...

Ao contrário... Num autismo isolado e vão... Zé entretinha-se consigo próprio nos colchões…

Pedro pediu que se sentassem no centro da sala... Sónia sentou-se de imediato e Tatiana foi buscar o Hélio... Guiando-o para o local que o professor indicara... A pedido do docente...

Os dois irmãos também foram para o sítio... Mas não se sentaram e ficaram de pé...

- Zé! – Chamou o professor... Contudo... Este nem sequer se moveu... Continuando siderado nas suas íntimas actividades...

Andreia entrou por fim... Pedro elogiou-a e levou-a para junto dos colegas...

Sem ligar a Zé... Começou a aula... Ligando a música de um pequeno gravador... A opera rock “Tommy”... Dos “The Who”...

Pediu que estes se levantassem e começou o aquecimento... Correndo com eles... Saltando e pulando... Dançando... Saltitando ao pé-coxinho e pedindo-lhes que andassem nas pontas dos pés... Enfim... Os miúdos acederam à proposta... E consoante as suas capacidades... Imitavam o professor... Na medida do que podiam…

Tatiana auxiliava Hélio... Que parecia um pouco assustado com o ruído e talvez com o excesso de movimento…

Sónia desfrutava o movimento e a música em alto som...

Os clones... Necessitaram de ser empurrados pelo professor... Tipo motor de arranque... Mas depois lá fizeram...

Andreia... A princípio intimidada... Entrou numa deambulação de palmas e movimentações... Arcaicamente desarticuladas... De sorriso armado... Emitindo sons de pura felicidade...

Ao longe... Zé olhava os colegas... Todavia... Permanecia distante... Sem participar... E assim foi até ao fim... Um olhar afastado e gélido... Numa tranquilidade de abusiva observação... Nessa aula já não fez mais nada sozinho... Mas não se juntou ao grupo... Ao sair... Beijou Pedro na testa com delicadeza e fugiu...

Andreia e Hélio tiveram de descer as escadas sozinhos... Com a supervisão do professor... Os irmãos e Tatiana foram obrigados a descer com a ajuda de apenas uma mão...

Em baixo... Já Sarita coordenava as operações... Formando com as colegas uma fila... Que esta organizava com distinção... Ao entrar:

- Então professor? Rum... Rum... – Cumprimentou Cristina... Elevando o braço... Numa expressão de desconserto... Rindo... Talvez de atrapalhação...

- Porta bem! – pediu Sarita... Colocando em ordem a colega...

- Tá bem! Rum... Rum... – Exclamou... Desculpando-se... Embora animada...

- Despacha-te! – Pediu Bebé... Com a voz sumida... Num sussurro... – Parva!

- Professor... Ela chamou-me parva! – Denunciou Maura... Com o rosto inconsolável... Apesar do seu corpo... Já um pouco envelhecido para esse tipo de birras...

Pedro sorriu e apaziguou a situação... Desvalorizando-a... Apesar de Raquel protestar de uma forma lunática acerca da atitude de Bebé... Revirando os olhos...

- Ela é assim! Ela é assim! – Repetia Ilda... Sem parar... – Eu sei! Eu sei!

- É verdade! – Exclamou Angela... A irmã... De olhar vesgo... Cruzando os braços...

- Cala-te! Cala-te! – Gritou Ilda... Revirando os olhos e gesticulando os braços num tom ameaçador... – Não tou a falar contigo!...

- Tá a ver professor... – Disse Sarita... Olhando-o com tristeza... – Assim não dá!

- Calma! – Pediu o professor... Elevando a voz e os braços...

Ilda continuava a barafustar e Raquel protestava... Arranhando as palavras e misturando-as com risos... Descontroladamente... Por entre o tique vocal de Cristina e o desconsolo de Maura... Face à impotência de Sarita que olhava o professor... Com atenção…

Pedro ligou a música... Em alto e bom som...

Lentamente e atendo às dificuldades físicas de Sarita... Assim como dos restantes alunos... Realizou um aquecimento com música... “Don McLean” e “American Pie”...

Dança individual... A pares e em pequenos grupos... O professor também participou... Puxando pelas mais envergonhadas... Inventando passos e criando…

As alunas explodiam em movimentos impossíveis de fazer sem música... Enfim... Sonhos e desejos proibidos... Numa sociedade nua e crua... Carregada de preconceitos... Sem uma banda sonora que as liberte... Desenvolva e divirta...

Não deu para fazer uma roda geral... Ilda não quis estar no mesmo círculo da irmã... Enfim... Seria um trabalho a fazer... No futuro…

No final dessa aula... Ainda houve uma sessão individual com Bento... Com doze anos de idade... Multideficiente e totalmente dependente...

Também ele entregue aos cuidados de uma instituição de internato... Pais divorciados... Trabalhadores da classe operária sem tempo ou qualidade para oferecer ao filho…

O pai visitava-o sempre que podia... Tentava saber como estava e tratava-o com um carinho nunca visto... Pedro nunca vira um homem tão terno…

Bento não falava... O seu choro era mudo e quase silencioso... Gemidos subtis que ecoava sempre que se assustava... Com um toque ou com uma simples aproximação... Pedro aproveitou a música para que este se descontraísse... O seu corpo de bebé grande era rígido... Desfazendo-se em flacidez... Os pés e mãos atrofiaram... A cabeça agitava-se... E os olhos amedrontavam-se sempre que este sentia medo...

António Pedro Santos

(Continua)...