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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXII

Na semana seguinte... Pedro mobilizou alguns dos alunos do período da manhã e começou...

Vazaram uma sala inteira... Atulhada de materiais... Coisas velhas... Outras não... Pouco ou nenhum uso…

Motivados... Os alunos auxiliaram-no... Se calhar... Pela primeira vez... Sentiam-se úteis de facto...

O professor teve o cuidado de explicar aos grupos o objectivo da missão... Na verdade... Nem todos o perceberam... Mas deram o seu contributo... Por pequeno que tenha sido…

No passar das horas e dos dias... As coisas foram-se compondo... Martinha e Júlia deram uma ajuda...

Durante esses dias... Estes três profissionais... Esqueceram um pouco o trabalho habitual... Psicológico… Académico e de educação social…

Ao mesmo tempo... Pedro interrogava-se e chegava lá... Afinal... Esta... Também era uma acção inclusiva... Pedagógica e educadora...

- Rum... Rum... O que faço? – Perguntou Cristina...

- Leva estes sacos para ali! – Exclamou o professor... – Ajuda a Bebé e o Ramos!

- Vamos Cristina! Trabalha! – Ordenou para si própria... Hesitando aos poucos...

Mesmo assim avançou... E na medida do possível... Colaborou...

Bebé estava motivada... Carregava sacos para a sala polivalente... Assim como outras tralhas... Carrapito e Filipe... Transportavam volumes maiores... Dois a dois e por vezes com a ajuda de Samuel... Ramos perdia-se no monte de tralha acumulada... Descobrindo e procurando coisas... Lentamente e sem pressas... Pegando nas coisas e aproximando-as da vista... Vendo-as à minúcia...

Outros apareceram e por lá passaram... Os alunos mais velhos e fortes... Que foram uma importante ajuda para arredar móveis... Carlos... João e Mário... Luís… Virgílio e Roberto... Mostrando entusiasmo e espírito... Enfim... Aplicação e interesse por um bem comum... Que neste caso... Seria para outros... Para os mais pequenos e limitados...

Ainda assim... E mesmo não atingindo... A maioria deles... Estava a ser solidária...

Teófilo confidenciou a Pedro que nunca trabalhara... Não estava habituado nem preparado... O professor... Ao escutar aquele discurso robótico... Perguntou-lhe se não gostava de experimentar... O aluno respondeu-lhe que teria de pensar... Enquanto isso... Efectuava pequenas passadas... Sem contudo... Sair do local... Dizendo:

- Eu já lhe digo! Vou pensar! Está bem?...

- Leva o tempo que quiseres! – Afirmou Pedro... – Mas olha... Enquanto pensas... Leva estes dois sacos para o polivalente! – Pediu... Entregando-lhos em mão e voltando-lhe as costas…

Martinha e Júlia viram e sorriram... Pareciam surpresas com o poder com que o professor movia os alunos... Fazendo-os trabalhar... Sem mandar... Pedindo com jeito... Ajuda... Colaboração e alma de equipa...

- Podemos ajudar? – Questionou Carla... A terapeuta da fala... Que trazia mais duas alunas... Maura e Raquel...

Enlevado... O professor exteriorizou o brilho dos seus olhos... E... Rapidamente se integraram...

Esta acção foi fantástica para estreitar a relação de Pedro com a educadora social e a psicóloga…

Ao contrário do início... Martinha e Júlia... E até Carla... Concordaram com o professor e colaboraram com ele... A partir daí... Passaram a ser mais cúmplices e os projectos começaram a surgir... A escola teria pernas para andar... Havia lugar para a camaradagem e para a inovação...

Por outro lado... Elisa... Passava e olhava... Tecendo comentários desencorajadores... Pedro escutou-a e até lhe disse:

- Mas olha... Prepara-te que esta vai ser a tua sala!

Elisa voltou-lhe as costas e desapareceu...

Carla e Martinha riram...

- Não a percebo. – Disse Júlia... – Esta sala é muito maior!

- Professor Pedro! – Gritou Ramos... Nasalado… – Encontrei uma viola!

- Deixa ver! – Pediu Pedro... Dirigindo-se para ele...

O professor segurou o instrumento e apreciou-o... Olhando-o com atenção e ternura... A guitarra estava ligeiramente descolada e a precisar de uma pintura... As cordas já eram... O braço... Pentes e carrilhões pareciam estar em condições...

- Tocas? – Interrogou Júlia...

- Um pouco... – Respondeu... Siderado na nova descoberta... – Vou levá-la para a reparar.

- Professor! – Chamou Carlos... – Eu e o Virgílio encontrámos mais instrumentos!

O professor deslocou-se ao local... Deparou-se com uma pequena caixa... Carregada de ferrinhos... Caixas e tambores... Flautas e pandeiretas... Entre outras coisas...

- Já ouviram falar de musicoterapia? – Perguntou Pedro... Dirigindo-se a todos...

Ninguém respondeu... À excepção de Teófilo... Que ficou confuso com a pergunta... Pensando que tinha sido só para ele...

Enquanto isso... Efectuava pequenas passadas... Sem contudo... Sair do local... Dizendo:

- Musicoterapia?... Disse... Musicoterapia?... Eu tenho de pensar! Está bem?...

- Seria uma boa ideia! – Concordou Carla...

E lá continuaram com as arrumações... Os grupos de trabalho foram mudando e a sala também... Irene e Dora colaboraram com os seus alunos na pintura e decoração do espaço... Depois de secar... O professor e os alunos mais velhos começaram a montar a estrutura da sala…

No final... Colocou na porta um papel que dizia: “Sala de estimulação global II”...

Chamou Elisa e Telma... Assim como Dona Filó que veio com Luz...

Aos pouco… Todos apareceram para ver a obra... Saudade... Leontina… Bela e Preta... Também fizeram questão de ver…

Surpreendidos... Não esconderam nos rostos a admiração pelo que estava à vista... Nem mesmo as vozes da reacção... Que atónitas... Se silenciaram... À excepção do nome da sala... Coisa que Pedro fez questão de esclarecer... Fundamentando que a sua escolha se devia ao facto de naquela sala não se estimularem apenas a parte sensorial... Mas sim... A cognitiva... Motora e a socio-afectiva... Assim como a comunicação e a linguagem... Com isto... Deixou-as sem argumentos e tiveram de acatar...

Posteriormente... Começaram a modificar a sala de estimulação global I... Uma sala mais pequena... Com casa de banho e um pequeno espaço…

O professor tinha ideia de a tornar mais apetrechada de estímulos e de condições... Provisoriamente... Os cinco alunos multideficientes passaram para a sala II... Afinal... Já estavam juntos…

Irene e Dora trataram da pintura... Em conjunto com os alunos... Uma sala a várias cores... Com muitos estímulos visuais…

Depois... Pedro e a sua equipa... Apetrecharam-na de outros estímulos e protecções... Espelhos... Uma parede de texturas... Com vários tipos de materiais disponíveis para o toque... Cortiça... Madeira e cartão... Tecido e algodão... Mosaico e borracha... Entre outros... Criou duas zonas dentro da sala... Uma para trabalho... Onde os alunos permaneceriam nas cadeiras de rodas ou standings... Outra para outro tipo de intervenção... Mais física e exploratória... Acolchoada e devidamente vedada e protegida... Com bolas... Brinquedos e pistas tácteis... Local ideal para perícias... Manipulações... Deslocamentos e pequenos equilíbrios…

No chão e nas paredes... Pedro colocou diversos sinais... Landmarks... Para a orientação espacial... Assim como pontos de apoio... Sobretudo para Salvador... Miguel e Ruben...

Montou ainda uma aparelhagem velha... Com auxílio dos alunos... Com colunas dispersas... Onde o som percorria toda a sala... Por cima e por baixo…

Objectos manipuláveis e sonoros que caiam do tecto... Coisas para apertar e manipular... Ruidosas e agradáveis…

As luzes foram modificadas... Algumas tapadas com papel celofane... Para dar cor...

O professor havia visto uma revista de material da especialidade... De lá tirara ideias...

Criou um sistema básico de botões... Uns acendiam luzes... Outros faziam sons... Coisas tão simples... Ainda do tempo das suas aulas de electrotecnia... Aquando aluno... Tudo devidamente protegido…

Luís... Mário e Virgílio ajudaram-no nessa parte... Pareciam interessados por esta área diferente... Até trouxeram alguns contributos que tinham aprendido com os pais em casa…

Mas a melhor ideia foi de Carlos... Quando sugeriu que se pusesse um computador dos velhos na sala para que estes brincassem... Todos riram... E até houve quem dissesse:

- Para que precisam eles de um computador?

Na verdade... Pedro envolveu o computador obsoleto e mal estimado... Com materiais fofos e acolchoados... Carregou-o de imagens diversas... Paisagens... Objectos... Cores e pessoas... Fotografias que passassem de umas para as outras... Com ou sem ordem do rato... O objectivo eram ser mais um estímulo... Um recurso tecnológico... Abandonado no chão como se fosse mais um brinquedo...

Quando ficou pronta... As pessoas ainda ficaram mais pasmadas...

- Tu e os miúdos é que fizeram isto? – Perguntou Elisa... Com a voz esganiçada...

- Tivemos ajuda de mais colegas! – Exclamou... Olhando para as intervenientes de ambas as obras...

Por momentos... Olharam e visitaram o espaço... Telma estava radiante com as alterações... E Rosa também…

Esta aluna já sabia que ia ajudar a Telma e os alunos mais pequenos... Estava encantada pela sua nova função...

- Parece impossível! – Disse Elisa... Desfazendo a sua incredulidade e o seu cepticismo...

Olhando-a com um sorriso leve... Dona Filó elevou a voz... Para a todos se dirigir:

- Já dizia o outro... O impossível é quase sempre o que nunca se tentou!

António Pedro Santos

(Continua)...