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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXIV

À hora do almoço… Pedro entrou no refeitório… Rapidamente… Um enorme barulho fez-se ouvir...

Apoteóticos… Os alunos saudavam o professor… Como se de um político se tratasse…

Enquanto progredia no espaço… As felicitações e aclamações eram constantes e intensas... Ao longe… As colegas olhavam-no com ciúmes… Pedro sentiu-o e sorriu… Nada lhe dava mais prazer do que o reconhecimento dos próprios alunos…

Andreia ergueu-se da mesa... Escabrosa… Participando com alegria na festa… Articulando a sua dificuldade em espasmos constantes...

Saudade impediu-a de se aproximar de Pedro… Mas mesmo assim... Este aproximou-se da aluna e beijou-a na face…

A aluna pareceu gostar… Soltando gritos e ruídos de estranho contentamento... Saudade segurava-a com bastante força nas mãos com ambos braços… Com uma expressão de censura face à atitude do docente...

O corpo rígido de Andreia… Rapidamente desfaleceu… Numa tentativa de fuga por outra via… Que não resultou na totalidade... Mas em parte... Uma vez que o professor a auxiliou até ao lugar…

Atentos… Os alunos pareceram gostar da atitude de Pedro… João levantou-se e bateu as palmas das mãos… Os restantes aplaudiram-no… Ao longe… Elisa observava-o sem pronunciar uma palavra...

O professor alteou os braços… Agradecendo a salva de palmas e continuou rumo ao balcão…

Ao seu lado… Filipe convidava-o para a sua mesa… Num tom de voz baixo e quase imperceptível...

- Hoje é com a gente! – Exclamou Ronaldo... Olhando Pedro…

O professor já não se recordava… Porém… Efectuou um gesto afirmativo… Filipe afastou-se cabiz baixo… Regressando ao seu lugar...

- Eu já vou! – Alertou… Avisando Ronaldo...

- Isto é que é sucesso! – Afirmou Luz… Que alimentava Bento com uma colher... Mirando-o com cumplicidade…

O docente sorriu e perguntou:

- Como se estão a sair os moços? Já vêm buscar o almoço sozinhos?

- A maioria sim. – Respondeu… - À excepção destes… - Disse… Virando os olhos para o aluno em particular… - E da Andreia e do Hélio.

- Bem… Mas esses são diferentes! – Lembrou Pedro… Alargando a sua vista mais além… Onde… Patrícia e Cláudia... Auxiliavam os alunos com maiores dificuldades... Juntamente com Saudade... Leontina... E Rosa que sorriu no momento em que os dois olhares se trocaram...

- Estás a gostar? – Indagou Pedro... Efectuando um gesto com o braço...

Rosa respondeu afirmativamente... Com um sorriso atrapalhado e desconjuntado... Auxiliando Miguel no almoço...

- Estes meninos precisam da nossa ajuda! – Exclamou Patrícia... Levando minuciosamente a colher à boca de Salvador... Com toda a atenção do mundo...

Ao longe... Saudade parecia suspirar... Enquanto agarrava Andreia e a auxiliava na alimentação... Lamentando-se:

- Isto assim é muito mais difícil!

Pedro ignorou-a e continuou a conversa com a aluna:

- Estás a gostar?

Patrícia confirmou as suspeitas do professor com um sorriso leve na face... Compenetrada no seu trabalho...

- Eu também estou a gostar! – Atestou Cláudia... Esboçando uma expressão mais infantil... Enquanto alimentava Rafael...

Ruben deu sinal... Gesticulando violentamente e emitindo gritos... Talvez porque Pedro se havia aproximado...

Leonina... Que lhe dava o almoço... Tentou acalmá-lo... Abrandando a voz e preenchendo os seus ouvidos com palavras doces... Acariciando-o na cara com macieza e suavidade...

O professor observou-a e acercou-se... Agachando-se junto do aluno... Segurando-lhe uma das mãos com ternura... Leonina olhou-o... Piscou um dos olhos e sorriu... E continuou... A alimentá-lo com palavras afectuosas...

Por momentos... O tempo pareceu ter parado... O professor observou a ternura com que Leonina... De bata azul aos quadrados e chinelos... Encadeava os seus movimentos... Exprimindo-se por suaves deslocamentos de pureza maternal... No cuidado dos seus actos... Que de carinho... Terminavam sensualmente perigosos em Pedro...

- Ai meu deus! – Barafustava Saudade... – Ainda por cima são dois!

O professor ergueu-se... Retribuindo a Leontina o cerrar fugaz de um olho…

Luz... Desfez de imediato o sorriso... Segurando Bento na testa... Dando-lhe a sopa mecanicamente... Sem o jeito de há pouco... Pedro olhou-a e segredou-lhe ao ouvido:

- Estás linda hoje!

Luz desfez-se num sorriso... Contrapondo:

- Só hoje?...

O professor agitou a cabeça e murmurou ao seu ouvido... Quase tocando na sua orelha:

- Hoje especialmente...

- Eu não dou conta disto! – Exclamou Saudade...

Pedro aproximou-se e pediu-lhe que se afastasse... Sentando-se entre os dois alunos...  Hélio... Começou a bater as palmas... Numa estereotipia quase constante... Que aos poucos se tentava combater... Andreia acompanhou-o... Mais efusiva e barulhenta ainda...

Pedro falou-lhes e colocou-lhes os talheres nas mãos... Pedindo-lhes que comessem... Nada fizeram... Saudade dizia:

- Não vês? Eu sei... Não dá!

Pedro agarrou em ambas as mãos dos alunos... Que seguravam os garfos e auxiliou-os a espetar as batatas cozidas... Cortadas em pequenas formas muito pequenas...

Hélio pareceu assustado... Arregalando os olhos... Talvez amedrontado com a situação... Andreia pareceu entender... Contudo... Comia e fazia ruídos... Olhando para Pedro com alegria... Por vezes tentava agarrá-lo...

O professor pediu constantemente que se acalmasse e se concentrasse na sua acção... Pareciam improdutivas as suas palavras... Todavia... Com o virar da atenção para Hélio... Esta pareceu desistir de abordar Pedro... Alimentando-se devagar... Sem se amotinar...

Saudade trouxe o prato de Pedro e disse para os alunos:

- Hoje o professor come com vocês!

Hélio apresentava-se estático... Olhar firme e distante... Com movimentos básicos e quadradões...

Desesperado... O docente... Começou a comer... Encorajando Andreia... Que o acompanhava satisfeita...

As colegas que por ali estavam pareciam observá-lo... Assim como a maioria dos miúdos... Que ao longe atestavam a impotência de Pedro... Até Bela e Preta espreitavam por detrás do enorme balcão… Sobretudo Elisa... Júlia e Martinha... Que estavam junto à porta… Contemplando o professor e a sua acção... Que em nada adiantava...

- Vamos Hélio! – Exclamou Patrícia...

- Come! – Gritou Ramos...

Ao longe... Carlos e Virgílio... Encorajaram-no... Tal como João e Ronaldo...

Um burburinho que se instalou e que parecia transformar-se em força... As mesas estremeciam e o bater dos pés no chão... Desencadeou uma onda de solidariedade pura e real... Uma química mágica parecia desenvolver-se no ar...

- Anda lá Hélio! – Disse Preta... Distante...

- Come Hélio! Come! – Ordenou Carrapito... Com a voz muito aguda e incisiva...

Pedro pediu-lhe uma vez mais... Usando outras palavras:

- Vamos pôr a batata na boca?

Hélio abaixou o olhar... Fixando-se no garfo... A sua boca abriu às prestações... Em pequenos bocados...

Por instantes... O refeitório ficou silenciado... Todos aguardavam pelo desenrolar da situação…

Hélio levantou o garfo e percorreu aquele enorme trajecto até à cabeça... Com tremeliques e desorientações... Até colocar a batata na boca e a encerrar... Estagnando de novo os olhos... Fixados e estacionários...

O professor retirou-lhe o garfo da boca e disse:

- Boa!

- Bom! – Balbuciou Hélio... Como um robot...

Rapidamente... Um frenesim de comemoração correu todo o refeitório... Alunos e funcionários gritaram vivas e aplaudiram... Por este feito conquistado com a força de todos... Numa transferência de energia em que o impossível é coisa pouca para se conseguir ou alcançar...

Nesse dia... Pedro sentiu-se bem... Foi admirado e saudado por todos... Nessa tarde... Toda a gente parecia inebriada com o sucedido... Como se a acção humana de todos fosse essencial para a superação de uma barreira... E era...

No café... No escritório e pelos corredores... Correram versões diferentes da história... Como se de algo transcendente se tratasse...

No fundo… E de facto… Pedro apenas improvisou uma vez mais... Quebrando uma condição à partida impossível... Recusando falhar... Negando as dificuldades... Enaltecendo qualidades que em todos vivem... Se assim o quisermos...

Naquele almoço... Hélio deu apenas um pequeno passo... Nas restantes garfadas foi auxiliado... Mas sozinho... Só o conseguiu fazer uma vez...

O professor deixou no ar... Que não tinha medo de se sujar ou de lidar com as adversidades... Jamais se resignaria à condição pré estabelecida dos alunos... De incapazes... Ou estagnados…

Seria preciso lutar por eles... Inverter os caminhos estabelecidos pela sociedade... Criar e construir novos sempre que houver necessidade... Porque nem tudo o que vem escrito nos pergaminhos é lei...

António Pedro Santos

(Continua)...