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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXVI

A brigada da limpeza... Foi um dos projectos que Pedro apresentou na reunião...

De uma forma geral... Consistia em ocupar os alunos mais novos... Contudo... Hábeis e capazes... Isto é... Propícios a um desenvolvimento possível... Através do treino e da prática...

Aos poucos... O professor começou a explicar... Dentro da sala e no recreio... Como deveriam proceder…

Lentamente... Os alunos tiveram o estímulo de técnicas muito básicas... Como varrer... Limpar e lavar... Utilizaram vassouras... Panos do pó e esfregonas... Pedro também lhes falou acerca dos detergentes e dos produtos de limpeza…

Nessas situações... O professor ia buscar Fábio à sala de estimulação global número dois...

A verdade é que... A expressão carrancuda e triste deste aluno... Modificava-se por completo... Os seus olhos pareciam brilhar... Sempre que o professor o levava... Abandonando prontamente as actividades de mesa muito infantis e iniciais... Avançando para Pedro... Expondo disposição para o trabalho...

O material existente era muito escasso... Para um grupo de sete alunos…

Dispunha apenas de três vassouras muito velhas e gastas... Sacos pretos do lixo que Bela lhe desviara... Entremostrando... Como sempre... O seu sorriso malandro... De cumplicidade no furto... Enfim...

Numa bomba de gasolina... Convenceu o funcionário a deixá-lo levar dez luvas descartáveis de plástico... Na verdade... Trouxe muitas mais...

Convenceu Irene e Dora... Responsáveis pelas oficinas... A mobilizar os alunos da área vocacional interna de reparação e manutenção... Para construírem alguns espetos... Não passavam de varas com um bico na ponta... Um cabo velho... Devidamente lixado... Com um prego dos maiores na ponta... Por fim... Com uma turquês... Os alunos cortaram a cabeça do prego e afiaram-no com uma lima…

Carlos... Virgílio... Luís e Roberto... Empenharam-se ao máximo… Esta área vocacional interna... Parecia ter sido feita à medida deles...

Alunos dos mais velhos... Porém... Com deficiências mais ligeiras e alguns problemas comportamentais... Pareciam cordeirinhos... Quando se viam a trabalhar num projecto comum… Sobretudo em prol e benefício da escola... Ou de parte dela…

Deram sempre mais em grupo... Do que sós...

Pedro confidenciou o avanço do projecto a Luz... Dizendo-lhe que estavam prontos a sair... Só faltava uma farda ou uma bata... Esta prometeu arranjar sete camisolas iguais com publicidade de uma loja local... Para o dia seguinte...

Encantado... Pedro desferiu-lhe um beijo húmido na face...

Surpreendida e visivelmente atrapalhada... Luz levou a mão ao local atingido... E deixou-a cair... Enquanto se desfez num sorriso... Rejubilando os seus olhos claros... E pondo a descoberto a sua timidez mais profunda…

Nesse momento... Bela passou por ali... Espampanante e audível... Ofendendo-a e aproximando-se aos poucos...

- Cabra! – Insultou Bela sorrindo… – Queres é apanhar com ele!

Nesse instante e perante a nova conjuntura... Luz colocou-se à vontade... Abraçando Pedro com cumplicidade...

O professor sentiu o seu corpo quente junto a si... Maminhas reduzidas e ínfimas... Porém... Salientes e espetadas... O vestido acetinado e escorregadio na sua roupa e no seu corpo...

- Cabra! – Continuou Bela... - Não passas de uma cabra!

O professor... Apertou Luz com conivência... Desfrutando da circunstância com intensidade... Sem problemas de maior… Enfim... Bela lá seguiu o seu caminho... Apregoando aos cantos daquela casa... Palavrinhas e palavrões com destino visado... Imediatamente... Luz... Afastou-se de Pedro... Desenhando no rosto um sorriso atrapalhado...

- Desculpa! – Pediu... Enquanto se afastava...

- Ora essa... – Respondeu Pedro... Completamente excitado com a situação...

Nessa mesma semana... No período da manhã... Pedro saiu para a rua com os alunos... Trajados a rigor... De camisola verde...

Filipe... Samuel e Ramos... Cada um com uma vassoura na mão... Cristina... Fábio e Bebé... Com os espetos novos... Procuravam acertar no lixo abandonado... Atrás... Carrapito... Que segurava um enorme saco de lixo preto e uma pá...

Pedro orientou os seus alunos para trabalharem organizados... Com método... Higiene e segurança…

Cada aluno calçava um par de luvas descartáveis e o professor levava mais consigo... As tarefas seriam rotativas e teriam uma hora e meia de trabalho... A rua escolhida foi a do colégio...

As vassouras construíram pequenos montes... Arrumados aos passeios... Os espetos encalacravam pacotes de sumo e papeis... Despejados no saco de Carrapito... Que ditava palavras de encorajamento e de orientação aos colegas...

- Apanha aquele monte Filipe! – Dizia... Apontando... – Põe aqui o lixo Bebé!

- E eu?... Rum... Rum... – Perguntava Cristina... Por detrás da colega...

- O lixo põe-se no mesmo sítio! – Avisou Pedro... Elevando a voz... – No Carrapito!

- É para aqui! – Gritou este...

Bebé e Fábio... Já haviam retirado o lixo dos seus espetos... Enquanto isso... Cristina ainda continuava na mesma...

- É pra ti Carrapito? Rum... Rum...

Carrapito aproximou-a de si e auxiliou-a... Retirando com a sua mão o lixo do espeto... Pouco à vontade... Cristina lá alinhou...

- Vai apanhar mais Cristina! – Sugeriu Pedro...

- Mais... Rum... Rum... – Dizia... – Mais lixo!

Samuel e Ramos na frente... Abriam os trabalhos... Filipe ao meio e os restantes atrás... Como uma equipa de futebol... Alinhada para a frente... Ofensiva e ao ataque...

Na sua generalidade trabalharam todos bem...

Samuel e Filipe pareciam varrer à competição... Bebé e Fábio compelidos na tarefa...

De cabeça para baixo... Cristina e Ramos mais lentos... Mas cumpridores... Face às palavras de incentivo de Pedro e de Carrapito... Um porque se dispersava nas conversas com as pessoas... Outra porque tinha alguma dificuldade em perceber qual era o seu real papel...

As pessoas que desciam a rua... Pararam para ver o que se passava... Encorajando os alunos e dizendo-lhes palavras de motivação... Até Dona Filó... Luz... Leontina... Júlia e talvez todo o pessoal da escola... Saíram para a rua para os ver... Outros... Como Elisa e Saudade... Espreitaram com os alunos à janela...

Pela primeira vez... Estes alunos... Depositados e enclausurados num colégio... Escondido da sociedade... Saíam à rua... Num contexto pouco escolar... Mais de trabalho e de exploração infantil…

Curiosamente... Os seus olhos não mostravam tristeza ou amargura... Naquela manhã e no resto do dia... Pareceram ter crescido mais uns centímetros... As suas cabeças habitualmente despidas de inteligência e de acção... Pareceram trabalhar mais um bocadinho... Ainda que... Fosse muito pouco... Foi uma oportunidade de se tornarem importantes... Necessários e precisos... Como todos os outros... De igualdade e de integração na vida activa... Como homens e mulheres participantes do processo comum de construção da sociedade...

António Pedro Santos

(Continua)...