Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXIII

Com o tempo... E com a inserção do professor na comunidade envolvente ao colégio... Pedro começou a estabelecer protocolos com algumas empresas e entidades locais... Onde... Alguns alunos passaram a desempenhar actividades de formação em posto de trabalho...

O professor elaborou inclusivamente... Alguns documentos para o efeito... Como... Um que fundamentava a formação no contexto de transição para a vida activa... Áreas vocacionais internas e externas... Combinados de espécies de currículos... Para cada área... Objectivos gerais e específicos... Expectativas... O envolvimento dos pais... Entidades parceiras e escola... Assim como... Autorizações e outros protocolos...

Pedro desenvolveu uma opinião bastante particular... Assim sendo... E para este... As áreas vocacionais deveriam ser inseridas no currículo do aluno com necessidades educativas especiais como sendo a primeira fase de uma futura integração profissional... Propiciando-se o experimentar e o descobrir de diferentes áreas profissionais de uma forma teórica e prática... Permitindo a aprendizagem de novas competências... Ou... Um conhecimento das capacidades dos alunos nas diferentes áreas... Sondando gostos... Procurando vocações...

Para ele... A escolha das áreas vocacionais a introduzir no currículo de cada aluno teria de ter em linha de conta os recursos humanos... Materiais e espaciais disponíveis... Deveriam ser diversificadas e ir ao encontro das motivações dos alunos e das necessidades da sociedade... Isto é... Actividades que revelassem carências de profissionais...  

No seu conceito... E de acordo com a estrutura de trabalho que aos poucos estava a montar... Para que estas áreas contribuíssem para a integração do aluno e consequentemente para o sucesso de todo o processo ensino aprendizagem... Deveriam ser planificadas... Delineando metas e linhas orientadoras... Objectivos... E ainda... Sujeitas a uma avaliação... De forma a adequar os conteúdos ao discente... Reestruturando-os sempre que necessário...

Embora houvesse uma certa relutância social... Em aceitar este tipo de alunos com deficiência... A escola... Tinha o dever de tentar efectuar parcerias com empresas... Instituições... Organismos públicos... Para auxiliar no funcionamento das áreas vocacionais... No sentido de proporcionar aos alunos melhores condições de aprendizagem... Assim como viabilizar futuros protocolos de formação ou até de emprego...

No fundo... Pedro criou pequenos currículos para cada área vocacional ... Assim como... Formulários... Onde assinavam... Pais e encarregados de educação... Os alunos em questão... A entidade empregadora... Ou melhor... Formadora... Ora parceira... E o director pedagógico... Na pessoa do professor... Como representante da escola...

Para além dos alunos que desempenhavam funções dentro do colégio... Na cozinha... Nas salas... Na carrinha... Refeitório e outros... Pedro conseguiu falar com a junta de freguesia local... Onde colocou Teófilo a realizar... Uma vez por semana... Numa tarde... Funções numa reprografia... Foi bastante complicado... Devido à sua problemática... Afinal... O autismo... Como disfunção global do desenvolvimento... Com a célebre tríade de Lorna Wing... A comunicação... Sociabilização e a imaginação... Ou seja... Os tais três grandes domínios do desenvolvimento humano... Seriamente afectados... Enfim... Pedro teve de o trabalhar muito... Acompanhá-lo no início... Mais tarde com Leontina... Posteriormente com João... O colega que frequentava a área vocacional interna de porteiro e de moço de recados... Até que por fim.. Sozinho... Sempre pelo mesmo caminho... A mesma rotina...

Respondia tipo robot... Articulando um discurso bem preparado e com ênfase... Porém e por vezes... Confundia-se na totalidade... Baralhando-se e perdendo a paciência com a sua cabeça e com os seus problemas…

Dizendo: “É a minha cabeça! Não tenho a culpa!”…

Nessa altura... Também regularizou a brigada da limpeza... O presidente da junta... Acessível e moderno... Achou graça ao projecto e tornou-se mais um aliado de Pedro... Arranjou algum material... Sacos de lixo... Vassouras e pás... E até umas camisolas com o brasão da freguesia... Os alunos... Esses ficaram mais inchados e até pareceram mais adultos e profissionais...

Falou também... Com a senhora do café que frequentava... Esta aceitou e comprometeu-se a receber Ramos para servir à mesa... Lá ia ele... De calça preta puxadissima para cima e camisa branca... Uma hora por semana...

A mãe colaborou na produção e na roupa...  Bem... A verdade... É que ele conversava mais do que fazia e até chegou a partir alguma louça... Mas isso até lhe fez bem...

Nessa hora... Em que Ramos trabalhava no café... Os funcionários do colégio enchiam o espaço... E Ramos sentia-se demasiado valorizado...

No início... A dona do café não estava muito a fim ... Mas cedeu... Provavelmente por Pedro... Contudo... Passado uns tempo e depois de ver o desempenho de Ramos... Dirigiu-se  ao docente e perguntou-lhe:

- Se me arranjasse uma aluna mais desenvolta...

Foi ouro sobre azul... Rosa passou a ir depois da hora de almoço para o café... Uma vez por semana... Aprender a lavar louça e a varrer... A verdade é que... De limpeza... Sabia ela bem... Não fosse ela a empregada lá de casa... Cozinhar... Limpar e cuidar dos sobrinhos... Enfim... Há muito que deixara de ser criança...

Afinal... E à vista deles... Não era tão anormal assim... Era um encanto Vê-la de bata...

Luís era bastante fechado e sempre reservado... Contudo justo... Pois.. Respeitava os mais fracos e protegia-os sempre que necessário... Conhecido por ter problemas cognitivos e comportamentais... Se bem que... Estes últimos... Nunca os chegou a revelar ao professor... Aliás... Sempre empenhado e motivado nas actividades... Levando consigo os outros...

Gostava de grafittis... Música da moda... Carros desportivos... Filmes de guerra.. E todas as coisas associadas... Talvez devido à idade... Ou quem sabe... À conjuntura do próprio ambiente em que vivia...

Pedro conseguiu metê-lo duas horas por semana... Numa tarde...  Numa casa de tatuagens... Enfim... Uma conversa que aconteceu com o dono num café local... Luís não deve ter aprendido muito... Todavia... Ganhou no contacto com outra pessoa... Diferente dos espaços que habitualmente conhecia... Escola e casa... Esta última... Demasiado degradada e ausente...

Lá... Tinha a liberdade de fazer desenhos da sua autoria... Conhecer utensílios e determinados cuidados associados àquele trabalho...

Aos poucos... Passou a ser mais desenvolto... Aberto e sociável... Contava episódios da sua formação e desenvolveu com o dono do espaço um relacionamento de amizade...

No fundo... Estes alunos... Precisavam invadir a sociedade que tanto os excluía... Educando mentalidades e modificando formas de pensar... Retrogradas e ultrapassadas... Provando ser hábeis e capazes... Úteis e sobretudo... Mostrando que também  têm direito à vida...

Roberto foi para um supermercado local fazer reposição de material... No início... Tudo correu bem... Mas passado algum tempo... Foi recambiado para o armazém... Pois a sua linguagem chocava os clientes... Falava muito alto e tinha a mania de se auto vitimar... No armazém... Estava mais escondido e podia falar à vontade com os seus colegas mais velhos... Para ele... Naquela manhã em que frequentava a área vocacional externa... Era como estar em casa...

Samuel também foi para o mesmo supermercado... Duas horas numa manhã... Auxiliava com os sacos... Ensacando-os e carregando-os... Fazendo pequenas arrumações... Contudo... Por ser muito organizado e originário de uma família com dificuldades económicas... Sabia os preços dos produtos de cor... Sobretudo os mais baratos... Afinal... Eram esses que tinha em casa... Sem maldade... Começou a aconselhar os clientes que frequentavam o supermercado... Dizendo:

- Olhe que este é mais barato!

Enfim... Pedro foi chamado à atenção e falou com o aluno... Explicando-lhe que o objectivo do dono era vender... Sobretudo o mais caro... Samuel ouviu o pedido... Mas... Teve algumas semanas sem aparecer no supermercado... Ficou amuado... E não entendia... Porque é que não podia ajudar as pessoas... Ele no fundo tinha uma consciência social... Sabia que havia muita falta de dinheiro e miséria...

Carlos foi para uma casa de rações... Que também vendia animais... Para além da limpeza e de alguma ajuda no atendimento... Enchia sacos e carregava-os até aos carros dos clientes... Limpava as gaiolas e alimentava os animais...

O aluno sentia-se demasiado orgulhoso com esta sua função... Não poupando ninguém de escutar a sua prestação durante aquela tarde semanal... A verdade é que a sua auto estima subiu...

Virgílio foi para uma oficina de automóveis... Leontina ajudou na realização do protocolo... Lá... Limpava peças e motores... Ouvia ensinamentos... Passava ferramentas e ia conhecendo os seus nomes... E utilidades...

O ambiente era propicio para os seus tiques faciais e para as suas dificuldades na fala... É que o dono também não falava muito bem... Todavia... Era bastante atencioso com Virgílio... Aceitava-o sem dificuldade e por vezes até lhe pagava um sumo e uma sandes...

Começou por ir uma manhã... Posteriormente... Já frequentava a oficina duas vezes por semana... Estava demasiado motivado e já começava a achar a escola pior que a oficina... Com o tempo... Ganhou um macaco azul com o nome da empresa nas costas... Ficava-lhe um pouco grande e largo...

A sua responsabilidade... Tolerância e atenção... Evoluíram a olhos vistos... Por vezes... Até fumava um cigarro... Pedro sabia mas ignorou... Afinal... Esta também era uma forma de inclusão... Ainda que... Menos boa...

Há uma imagem inesquecível... Que o professor ainda guarda... Quando o apanhou uma vez a fumar... Virgílio... Com o arranhar dos dentes... Num enrugar da face... Clara e ameninada... A piscar-lhe um dos olhos... Bem mais adulto e experiente...

Ronaldo e Claudia fizeram equipa num centro de lavagem automóvel... Ela trabalhava com vontade... Ainda que... Sem os dentes da frente... Escondendo-se por vezes da sua própria timidez... Já Ronaldo... Parecia um magnata à conversa com os clientes e restantes funcionários... Todos lhe achavam graça... Olho claro... Falador e muito bem-parecido...

De vez em quando... Era chamado à atenção e lá tinha que tirar as mãos dos bolsos e alinhar... A verdade... É que o convívio e a interacção com o exterior era positiva para os dois... Até chegaram a ganhar gorjetas... Que Claudia dividia pelos dois em partes desiguais... Pois Ronaldo... Tinha imensas dificuldades em realizar contagens e trocas monetárias...

Os restantes alunos do colégio e estes... Continuaram à mesma a frequentar áreas vocacionais de carácter interno... Quer fosse nas oficinas da escola... Na brigada da limpeza... Que por vezes arranjava espaço para outros alunos... Na cozinha e no refeitório... Na portaria e na limpeza do espaço...

Pedro ficou impressionado com o auxílio de algumas colegas... Como Júlia... Martinha e Luz... Dora e Irene... Carla... Preta e Bela... Até Telma... Que... Por trás da sua gaguez... Fazia a diferença... Com imenso empenho...

Gaguez... Ou... Perturbação da fluência do discurso... Carregada de bloqueios... Repetições e prolongamentos de sons...

Nas suas investigações... Pedro aprendeu que a gaguez pode ser acompanhada de movimentos faciais ou corporais... Como Bela e Virgílio... Por exemplo...

Para alguns autores... A gaguez parece estar relacionada a um processo de reforço do bloqueio... Isto é... Quando a palavra acaba de ser pronunciada a ansiedade diminui... Logo... A indecisão é premiada... Enfim... Talvez não passe de uma aprendizagem com reforço negativo...

De fora... Continuavam Elisa e Saudade... Sempre a criticar e a apontar defeitos... Como se nada valesse realmente a pena...

Por outro lado... Os restantes colegas já utilizavam alguns alunos... Até para realizar alguns recados... Dentro e fora da escola...

Começaram a perceber que estes alunos tinha potencialidades e podiam ser utilizados para tarefas de responsabilidade... Resumindo... Cada gesto era demasiado importante e significativo...

Antes e durante esta intervenção... Pedro foi desenhando um currículo para cada área vocacional... Fosse interna ou externa...

De uma forma espontânea... Os alunos beneficiavam de um conjunto de áreas e de competências que eram úteis para a escolha de uma formação adequada às suas motivações e capacidades... Para o professor... Era fundamental... Conhecer as capacidades dos alunos nas diferentes áreas... Experimentar novas formas de trabalho... Possibilitar a aprendizagem de novas competências...

Desta forma... O docente esperava... A longo prazo... Encontrar uma vocação que permitisse a integração futura dos alunos na sociedade... Assim como... Desenvolver a autonomia pessoal e social... A cognição... Elevar a auto estima... E as capacidades e habilidades motoras dos discentes...

O professor escolheu como áreas vocacionais internas... A reparação e manutenção... Onde aprenderiam a utilizar ferramentas básicas... Como o serrote... O martelo ou a chave de fendas... Conhecer o nome e a sua utilidade... Desenvolver algumas técnicas básicas... Como lixar... Colar...

A limpeza e reciclagem... Era uma área que permitia treinar a utilização dos utensílios de limpeza... Como vassouras... Panos do pó... Baldes e detergentes... Ou seja... Aprender competências básicas do dia a dia... Como limpar... A varrer ou lavar...

Com a jardinagem e hortofruticultura... Pedro ensinava a semear... Regar e plantar... A manipular enxadas... Regadores e baldes... Conhecer diferentes culturas e procedimentos...

A área vocacional de comércio... Ainda que... Não tivesse sido implementada no início do projecto... Suscitou dúvidas na totalidade dos seus colegas...

A verdade é que... Pedro acreditava... Que num futuro próximo... Seriam vendidos alguns produtos executados pelos alunos da escola... Como... Produtos da horta... De artesanato e jornais... Enfim... Isto permitiria... Por exemplo... Realizar trocas monetárias... E desenvolver a autonomia pessoal e social...

Na culinária... Os alunos envolvidos poderiam colaborar na confecção dos alimentos... Preparar e cortar... Lavar... Cozinhar... Conhecer as regras de higiene alimentar... No fundo... Prepará-los para a vida... Trabalhando uma actividade da vida diária essencial...

Nas oficinas... Iria realizar-se uma espécie de unidade de produção de artesanato... Com pintura... Cerâmica e carpintaria... Áreas importantes para o desenvolvimento dos discentes... Ao nível cognitivo... Motor e criativo... Através do desenvolvimento de algumas técnicas... Experimentando e utilizando materiais... De diversas formas e em vários contextos...

Como estratégias... Pedro tentaria visitar locais... Como oficinas e empresas... Ou até... Realizar  projectos individuais e de grupo... Trabalhos na escola e quem sabe... Fora dela... Estimular a criação própria... Experimentar diversos espaços... Formas de ensino e de aprendizagem...

Esta estruturação dos currículos... Seria uma base de trabalho para o futuro... Um registo prescritivo de situações... Objectivos... Critérios de êxito e condições de realização... Um documento pioneiro e inovador... Que sustentaria toda a intervenção no âmbito do processo de transição para a vida activa e adulta... A base do projecto educativo... Um desígnio do professor e da escola...

António Pedro Santos

(Continua)...