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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXV

Depois da pintura do espaço... E até por causa da área vocacional interna de jardinagem e hortofruticultura... O professor lembrou-se de dinamizar alguns canteiros existentes na escola... Limpando-os com os seus alunos e criando rotinas de preparo e de manutenção... Rotinas essas que seriam importantes ferramentas para o desenvolvimento geral dos alunos...

Na problemática da deficiência... Os seus intervenientes... Não estão isentos do cumprimento de horários e de rotinas sociais... Como tal... As actividades da vida diária... Devidamente enquadradas na prática das crianças e jovens... Poderão revelar-se como importantes instrumentos de trabalho e de intervenção... Estas... Passam a exercer um papel quer como... Elemento terapêutico... Quer inclusivo... Para além disto... Desenvolve-se a autonomia para pensar... Estruturar e de agir... Através da planificação do trabalho e da participação em todo o processo de gestão...

A horta... Tornou-se um espaço de invenção comunitária... De expressão de conhecimento e produção de produtos... Humanização paisagística que diariamente se modificava... Experimentação de capacidades e vontades... Superação das limitações e consequente transformação em facilidades... Enfim... Socialização e convivência... Com pares e adultos... Num ambiente naturalmente conquistado... Realizando mudanças reais de carácter... E de representação social...

No início... Semearam salsa... Coentros e alfaces... Mais tarde... Couves... Favas e ervilhas... Os canteiros eram muito poucos... Posteriormente... Começaram a colocar garrafões de água de cinco litros... Cortados... Arranjados no comércio local... Ou... Nas casas dos alunos... Envolvendo-os a eles e às famílias... Assim como... A comunidade enleante... Num projecto comum... Onde semearam mais coisas... Batatas... Cenouras... Beringelas... Pimentos e muito mais...

Tudo estava disposto num canto solarengo... Junto à sua sala de aula... Aí... Parqueou uma mesa velha... Que os alunos restauraram... Pintando-a de verde e castanho... Servia de bancada... Onde se dispunham pequenos canteiros... Os tais garrafões... Garrafas grandes e pequenas cortadas... Assim como outras vasilhas de plástico e baldes velhos... Que fizeram de canteiros... Que de bem colocados e dispostos... Embelezavam o local...

Aos poucos... Pedro criou um mapa de manutenção da horta... Ou melhor... Do jardim... Ou quintal... Como alguns carinhosamente lhe chamavam... Onde estavam... Bebé... Cristina... Carrapito e Filipe... Ramos e Samuel... Para regar... apanhar as ervas daninhas... Identificar culturas com etiquetas...

Com o tempo... Começaram a semear e plantar flores... Rosas... Cravos e lisandros... E até alguns arbustos pequenos... Alfazema... Alecrim e poejo... Enfim... Gradualmente.. Os outros alunos também se meteram no projecto... De uma forma natural e espontânea... Alguns até levaram sementes e algumas plantas de casa...

Cristina... A mais limitada deste grupo... Começava aos poucos a adquirir a sua noção de rotina diária... Enchia os regadores e regava... Chegou a afogar algumas plantas... Mas não foi caso único... E... Sempre que acontecia... Pedro e os mais velhos explicavam que água a mais era prejudicial à planta... Mas... Foi assim...

Os alunos da sala de estimulação global II também colaboraram... Isto é... De quando em vez... Alguns... Como era o caso de Hélio e Zé... Arrancavam as folhas das plantas e colocavam-nas na boca... Não fossem os dois autistas... Isolados e à parte... Sem se misturar com os outros... Rotinados e persistentes no seu próprio dia a dia... Sem manter o contacto visual ou físico com os restantes... Parecendo não ouvir... Quanto mais escutar... Apegados religiosamente a objectos que giram de uma forma estranha e peculiar... Sem qualquer noção do perigo... Rindo e mexendo-se sem explicação...  Balançando-se... Agitando-se... Cheirando e lambendo coisas... Sem fundamento... Ou quem sabe... Talvez com sentido...

Alguns confundiam as ervas daninhas com as que... Na realidade... Não eram para apanhar... Mas na verdade... Até os mais velhos se enganavam... Inclusive Pedro e outros adultos... Bem... Alguns... Achavam-se conhecedores demais... Como Bela... Luz e até Roberto...

As favas davam-se bem... Sem muito cuidado... Preparação ou manutenção... Com o tempo... Foram aparecendo e desenvolveram-se...

Quanto aos alunos da sala de estimulação global I... Pouco ou nada contribuíram... Contudo... Beneficiaram... À sua maneira... Do ambiente verde e mais cheiroso...

Por vezes... Iam lanchar nas suas cadeirinhas para o pequeno jardim que o professor havia improvisado... Chegaram a fazer-se actividades de carácter olfactivo com plantas aromáticas...

Não fosse o olfacto... Um sentido vasto... Que fornece pistas para a orientação e para a localização... Uma interacção que identifica ambientes... Espaços e locais... Um auxiliar para a mobilidade... Protecção e segurança... Que ajuda o deficiente a conhecer-se melhor a si e ao mundo que o rodeia...

Nessas actividades olfactivas... Os alunos cheiraram folhas... Terra seca e molhada... Aromas e fragrâncias... Quem sabe... Se não as distinguiam... Alguns... Metiam-nas na boca... Pedro não achou mal... Já Elisa... Passou-se...

Para o professor... Talvez diferenciassem sabores e experimentassem sensações... Ruben... Por exemplo... Adorava mascar camomila...

Mais tarde... Pedro descobriu que a camomila tinha propriedades calmantes... Pois... Contribuía para a diminuição da hiperactividade... Propiciando a tranquilidade e colaborando para a diminuição do stresse...

A verdade... É que ele se acalmava mesmo... Quem sabe... Se esta não seria uma forma natural de fugir à enorme quantidade de medicamentos que diariamente tomava...

António Pedro Santos

(Continua)...