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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XXXVI

Em conversa com Luz... No café...

Os seus olhos confessavam uma beleza infinitamente azulada... Que se completava num sorriso radiante e convidativo... Por vezes ria... Mas era diferente...

Se um sorriso fosse o mesmo que um riso... Também um berro não seria dissemelhante de um simples sussurrar... Não fosse a sua distância atroz e longínqua... 

O riso é uma detonação... Explosão... Disparo... O sorriso é suave e silencioso... A diferença de um vendaval para uma brisa suave de verão... Uma tempestade e um dia de sol... O riso como desabafo e um sorriso como um estado da nossa própria alma... A diferença da integração com polimento... Para uma infindável invenção dos outros e de nós mesmos... Uma resistência inclusiva e um simples transparecer da nossa intimidade... Agitar de consciências... Atenção esmerada... Elegância... A braços com a loucura e com a harmonia...

Os seus lábios húmidos... Tocavam no cigarro... Com sensualidade...

Pedro olhava-a com vontade... Sentindo o seu cheiro... Bem próximo de si...

A educadora social aparece e senta-se... Rapidamente... Começam a falar de trabalho... De alunos e de dificuldades... Barreiras e facilitadores... De peripécias e de outras situações... Causadas por estes...

Martinha começou a queixar-se da sua sala... Muito ampla e vazia... Apenas com uns cartazes na parede... De aspecto escuro e frio... Com pouco estímulo para trabalhar os alunos... Face ao espaço... Que até não era mau...

- Gostaria de alterar a tua sala! – Interrompeu Pedro... – Isto é... Se me deres autorização! – Aperfeiçoou...

- Alterar?... – Questionou estupefacta... Abrindo os seus olhos na direcção do professor...

Pedro sorriu e disse:

- Pensa comigo... A tua sala é comprida e está pouco aproveitada... – Nesse instante... O professor apanhou um guardanapo do centro da mesa e começa a desenhar...

- Se dividíssemos a sala em três partes...

- Três partes? – Interrompeu Luz... – Fazer paredes?

O professor desenhou no rosto uma expressão de gozo e prosseguiu:

- Com biombos... Ou móveis... Por exemplo!..

Luz sorriu... E Pedro continuou:

- Três partes para três áreas fundamentais! – Exclamou... Olhando-as... – Para trabalhar melhor a autonomia dos alunos e o treino de actividades da vida diária! – E continuou com o esboço... Enquanto as duas colegas o olhavam surpresas... Mas... atentas...

- Tens um lavatório ao fundo da sala?... Não tens?

- Sim! – Respondeu... – E uma pequena bancada!

- Óptimo! – Exclamou... Continuando a rabiscar no papel... Enquanto as suas colegas... Iam tecendo comentários jocosos acerca do seu fraco jeito para o desenho...

Depois de o concluir... Pedro começou a expor o seu esboço...

A ideia do docente era simples... E resumia-se à criação de três espaços dentro da mesma sala...

À entrada desta... Uma primeira zona... Composta por uma mesa... Uma televisão... Cadeiras e algum material básico... Onde a educadora social poderia reunir os alunos antes das actividades... Assim como... Trabalhar sessões individuais e de grupo... Executar tarefas mais teóricas de aplicação simples... Como o visionamento de filmes... A análise de documentos... Simulações... Entre outros...

Um segundo espaço... A seguir ao primeiro... Separado por um biombo ou móvel... Com uma cama...

- Uma cama! – Gritou Luz... Com o seu sorriso maroto... Martinha também sorriu e Pedro respondeu:

- Sim Luz!... Uma cama!

Nesse local... Colocariam uma cama com lençol... Cobertor e almofadas... Para que os alunos aprendessem esta actividade básica... Assim como... Uma cómoda com espelho... Com objectos e produtos de uso pessoal e diário... Para trabalharem aspectos relacionados com o quarto... Nomes... Utilizações... Enfim... Uma estrutura composta por cabides com várias peças de vestuário... Desde a cueca... Ao fato e ao vestido... Para os nomear... Vestir e conhecer a sua utilidade e adequação...

No terceiro espaço... Ao fundo da sala... Fariam uma pequena cozinha... Com alimentos de plástico... Embalagens reais... Torradeira... Pequenos electrodomésticos... Um lavatório e uma pequena bancada... Para que os alunos beneficiassem de uma área vocacional de culinária... A fim de se confeccionarem pequenas refeições...

A ideia caiu bem e Luz falou com dona Filó... Que deu um parecer positivo... E assim foi... Trataram de tudo...

Pedro arregimentou os seus alunos... E com a ajuda das oficinas... Nomeadamente... Irene e Dora... Sempre prontas a intervir e transformar... E claro... A educadora social... Deitaram mãos à obra e fizeram a remodelação...

Arranjaram-se móveis usados para fazer divisões... Um biombo foi construído nas oficinas... Restaurou-se uma cama que Roberto e Carlos encontraram no lixo... Um colchão velho... Que Virgílio arranjou e lavou sozinho... Lençóis e cobertores... Que Bela dispensou da sua casa... E até almofadas... Enfim... Até um microondas e um fogão velhos...

Lentamente... Pedro... Começou a recolher junto dos alunos e funcionários... Peças de vestuário... Que posteriormente... Algumas alunas lavaram na lavandaria da escola... Como... Angela e Ilda... Cláudia... Rosa e Patrícia... Com a ajuda de Bela e de Leontina...

Aos poucos... E de uma forma espontânea... Experimentou-se e implementou-se mais uma área vocacional interna... Lavandaria e engomadoria... Com o tempo... Alguns alunos passaram por lá... Revelando empenho e sucesso... Uns mais que outros... Como em tudo e todos nesta vida...

Em suma... A sala ficou surpreendente e muito mais funcional... Passou a haver espaço para trabalhar as actividades da vida diária... De uma forma mais real e prática...

Pedro auxiliou na realização de cartazes de trabalho em conjunto com Martinha... Relacionados com a segurança e higiene... Prevenção rodoviária... E mais temas... Resumidos em pósteres mais apelativos e direccionados às dificuldades... Capacidades e necessidades dos alunos...

Diante das dificuldades dos portadores de deficiência... A sociedade... Os pais e professores... Técnicos e outros... Tendem a protegê-los... Impedindo-os de vivenciar experiências que poderão promover o seu desenvolvimento pessoal e social...

Como tal... É de extrema importância trabalhar as actividades da vida diária... No sentido de elevar a autonomia dos intervenientes... Isto porque... Quando nascemos... Apresentamos uma dependência total... Que se vai perdendo de um modo gradual e natural...

Neste tipo de crianças e jovens com deficiência... É imperioso treinar comportamentos adaptativos... Como a postura... O vestir e a realização da higiene... Os hábitos à mesa e o saber estar...

Por todo o lado se reuniram latas de conserva... Pacotes de leite... Garrafas de sumo e outros objectos... Sem utilidade e que foram reutilizados na nova cozinha... Um espaço de trabalho e de treino de competências...

A sala foi utilizada por todos os que já beneficiavam deste gabinete... E por mais alguns... Houve necessidade de reestruturar horários de forma a albergar mais alunos e rentabilizar a sala...

Fizeram-se simulações de vendas de produtos confeccionados... Para trabalhar as trocas monetárias... Porque também houve quem arranjasse uma caixa registadora velha... Venderam-se bolos à fatia... Doces e gelatinas... Pipocas... Lavou-se louça... Aprenderam a pôr a mesa... Fizeram camas e identificaram peças de vestuário...

Para além disso... Trabalharam e treinaram situações de segurança com produtos alimentares... Como... Identificação de rótulos... Análise do prazo de validade...

Abordou-se a saúde... A vacinação e os produtos nocivos e perigosos... O conhecimento dos símbolos... Falou-se da higiene e da sua importância... Da rotina dos banhos e como tomar banho... Da lavagem dos dentes e da roupa...

Abordaram-se sinais de trânsito... Semáforos e passadeiras... Regras e alguns cuidados para circular na rua... Enfim... Situações que com o tempo... Foram experimentadas em tamanho real... Afinal... Era a vantagem do treino destas capacidades... Habilidades e competências... Que aos poucos... Naturalmente e facilmente eram adquiridas pelos alunos na sua vida diária...

Durante a remodelação da sala... Pedro anexou um pequeno anexo de arrumos nas imediações... Com cerca de seis metros quadrados... Que vagarosamente também começou a remodelar...

- Para que vai ser esta sala? – Perguntou Elisa... Incrédula...

- Esta vai ser a sala de música! – Respondeu...

A educadora ficou como sempre... Atónita e descrente... Sempre encostada à impraticabilidade e à dificuldade das coisas...

Tradicionalmente... Este sentimento de pequenez... Mistura-se por vezes... Ou quase sempre... Com uma boa dose de arrogância... Falta de humildade e soberba... Inveja e egoísmo...

Na mente de Pedro... Não havia espaço para indecisões... As barreiras trepavam-se ou contornavam-se... Sempre de cabeça erguida e com uma visão de progresso... Para lá das conversas derrotistas... A necessidade de ser optimista... Contra o pessimismo...

Elisa era assim... Encarava tudo de um modo negativo... Conjecturando sempre o pior... Estigma bem relacionado com o sentimento português mais elementar e derrotista... Onde existe total supremacia do mais forte sobre o mais fraco... Do maior para o mais pequeno... Do rico e do pobre... Enfim... Do bem e do mal... Num atónito conformismo... Privação e isolamento obediente... Distante do crescimento e da expansão...

A sala não era mais do que um local com um rádio gravador... Em cima de uma mesa... A guitarra... E os restantes instrumentos que encontraram durante a limpeza da sala de estimulação global...

Posteriormente e em articulação com as oficinas... Fizeram-se outros instrumentos musicais... Latas de tinta vazias... Grandes e pequenas... Que serviam de tambores e timbalões... Paus de chuva... Flautas de cana e pífaros... Chocalhos de caricas... Adufes com telas velhas... E mais...

Juntou-se a criatividade com o desembaraço... Ampliou-se o conhecimento através da expressão...

Uma vez por semana... Pedro passou a orientar actividades com os alunos... Treinando canções... Acompanhando melodias do rádio... Cantando à capela... Usando a percussão como acompanhamento...

Curiosamente... Os alunos tinham uma cultura musical muito básica... Pimbalhada... Novelas e canções infantis... Não fosse este um desígnio das televisões... Rádios e governos portugueses... Estreitar a mente das pessoas... Para que sejam mais resignadas e amorfas... Numa promoção da apatia e da submissão...

Com o passar do tempo... Pedro também tentou inverter isso... Ouviram-se outros sons... Outras canções... Nessa altura... Entendeu que as novas canções também educavam... Isto é... Os ouvidos permitiam facilmente a entrada de novos sons... Pela repetição e pelo treino... Variando a intensidade... Os contextos e os momentos...

Decoraram a sala com imagens de grupos musicais e artistas... O professor aproveitou a sala para colocar imagens de instrumentos musicais com os nomes... Para facilitar a sua identificação...

Mais tarde... Pedro descobriu que a musicoterapia poderia revelar-se eficaz para este tipo de alunos... Isto por... Apresentar características inclusivas... Trabalhar a expressão e a desinibição...

A música como componente facilitador e integrador... Onde não existe deficiência na forma como se interioriza e exprime a mesma... Uma vez que... Cada pessoa entende-a de uma forma muito particular...

A música como terapia... Pode minorar algumas dificuldades... Pode auxiliar no desenvolvimento da comunicação... Da motricidade e socialização...

Com a musicoterapia... Pode trabalhar-se também a autonomia... A auto estima e a cognição... Memorizando canções... Encadeando rimas e tons... Por meio de batidas... Que ao acaso ou cadenciadas... Poderão marcar um compasso sério ou divertido... Integrando tudo e todos... Sem pudor e estigma... Intensamente... Intimamente e socialmente...

António Pedro Santos

(Continua)...