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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

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EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

XLVI

No dia de ir à direcção regional... Pedro e dona Filó meteram-se à estrada na viatura desta…

O seu automóvel era um utilitário básico e normal… Sem grandes requintes ou tecnologia de ponta…

Combinaram no café às quatro da tarde… Tinham hora marcada a partir das seis… Teriam de se despachar…

Embora a direcção regional funcionasse das nove às cinco… A situação destes também era considerada excepcional… Afinal… A tal senhora prontificara-se a recebê-los após o término das actividades lectivas…

- Tem tudo consigo professor? – Perguntou dona Filó… Assim que entrou no carro…

- Penso que sim! – Exclamou… - Ora… - Disse verificando… - Tenho aqui o projecto educativo… Regimento interno e plano de actividades… Sim! Está tudo! – Afirmou seguro…

Ao longo da viagem… Dona Filó alertou Pedro acerca da pessoa com quem iriam estar… A responsável pelo departamento de educação especial… Uma tal de Rosa…

Parece que… Tinha por hábito problematizar a maioria das situações que menos interessavam… Criando problemas… Onde simplesmente não existiam razões para alarme… Debruçando-se sobre conjunturas que pouco ou nada contribuíam para o desenvolvimento… Segurança e bem estar das crianças e jovens… Como tanto apregoava… Afinal… Estava afastada do ensino… Isto é… Do terreno de intervenção… Há muitíssimo tempo…

Segundo diziam… Tinha leccionado apenas dois anos em toda a sua carreira.. E diz-se que havia sido um desastre… Enfim… Situação algo aberrante… Porém… Super comum na nossa vida educativa e até social…

Ainda assim… Falava com classe… Como se dominasse a prática e a intervenção…

Não passava de mais um caso comum e demasiado banal da nossa sociedade… Pessoas distintas em distintos cargos… Ganhando bolor e bicho de tanto tempo… Falando com conhecimento de causa… Sem sequer dominar a razão… O entendimento e tão pouco a arrogância… Dominando tudo e todos.. Ou tentando… Sem que no fundo conheçam coisa alguma da realidade em que se vive…

- Mas sabe… Eu até a levo bem! – Acrescentou sorrindo… - No fundo… Ela não passa de uma senhora importante… Ou armada em… - Nisto... Fez uma pausa… Enquanto meteu a mudança… - Se nós formos inteligentes… Demonstrar-mos classe… Temo-la na mão!

- Mas… Qual é a função dela em relação a nós? – Inquiriu o professor... Entremostrando alguma curiosidade e preocupação…

Dona Filó explicou-lhe… Que por fazerem parte de um estabelecimento de ensino particular e cooperativo… Tutelado pela direcção regional… Que inicialmente lhes concedeu uma autorização de funcionamento provisória e posteriormente definitiva… Obrigava a inspecções frequentes… Auditorias… Entre outras coisas... Como envio permanente de mapas e documentos...

Mais tarde... O professor descobriu... Que aos estabelecimentos de ensino particular  de ensino especial... Eram exigidos alguns requisitos de funcionamento... Como possuir uma de autorização de funcionamento... Ter instalações  adequadas  às  exigências  da acção educativa... Cumprir o contrato colectivo de trabalho... Possuir um director pedagógico e uma equipa multidisciplinar... Assim como... Desempenhar todo um  conjunto de actividades e acções ao nível da concepção de documentos de prestação de contas...

Também aprendeu que a direcção regional... Supervisionava a atribuição de subsídios àquele tipo de colégios... Fossem de frequência... De transporte ou de alimentação...

No caminho… Combinaram estratégias… Conversas que poderiam acontecer… Respostas possíveis e até as mais indicadas… Enfim... Dona Filó preparava-o para possíveis questões…

O transito do final do dia… Começava a cansar os corpos… Que entediados e amargurados… Fluíam para além das suas possibilidades sãs… A bem da economia… Sustentada e monopolizada…

O edifício era velho… Cinzento… Carrancudo e frio… Com segurança privada à porta…

Por dentro… Uma parvidade de corredores… Onde circulava gente bem engalanada… Como se fossem comerciais… Deambulavam… Cheirosos e altivos…

Mais tarde.. Pedro soube que a maioria eram professores…

Salas e mais salas… Mulheres graciosamente elegantes… Como dona Filó… Enfim… Vestidos… Muitos aromas e gravatas…

A directora… Mais habituada ao ambiente e ao funcionamento da coisa… Dirigiu-se prontamente ao gabinete da doutora Rosa… A responsável pela educação especial do distrito…

Ao entrarem… Apareceu uma senhora na casa dos quarenta anos de idade… Contudo.. Aparentava ser mais velha… Bem decorada… Como todos… Charmosa e demasiado aprumada… Nariz apontando o tecto e rosto importante…

Desferiu beijos e elogios rasgados a dona Filó… Aos quais... Correspondeu em pleno… Afinal… Era demasiado experiente para se deixar ficar para trás… Dizendo banalidades do género… “Olá como está?”… Ou… “Está na mesma!”… Ou ainda… “O tempo não passa por si!”… Enfim… Uma troca de galhardetes habitual… Todavia hipócrita e completamente artificial…

- Doutora Rosa!... Este é o nosso director pedagógico… O professor Pedro!

A colega… Sim… Porque ela também era professora… Ainda que… Tivesse há muito tempo ausente naquele cargo… Olhou o docente com frieza e algum desdém…

O professor sentiu a sua importância… Contudo.. Ignorou… Porque quando esta lhe estendeu o braço para o normal aperto de mão… Pedro inclinou-se e deu-lhe dois beijos na face…

Dona Filó… Que se encontrava por trás desta… Piscou um dos olhos e sorriu…

Pelo contrário… Rosa... Ou melhor… Doutora Rosa… Como parecia gostar de ser tratada… Quase mudou de cor… Com tamanho atrevimento… Mas recompôs-se…

Convidou-os a sentar numa mesa propícia a reuniões… Redonda e maior do que as outras…

Pedro contemplava o espaço… Os quadros na parede… As cadeiras bem diferentes das escolas… O cheiro a higiene e o ar condicionado… Era este afinal o estado das coisas… Ordenados chorudos para alguns funcionários públicos… Bem diferentes daqueles que diariamente são castigados com cortes e trabalho… Bons carros… Motoristas e cartões dourados… Não fosse esta uma republica de bananas… Ou... País à beira mar sentado... Cada vez mais decrépito e perdido…

Sentada à cabeceira… Começou por explicar os propósitos do governo para a educação especial… O perfil dos docentes e das equipas de intervenção… A falta de empenho e o deixa andar de alguns deles… O corte de verbas… Gastos e despesas… A carência de recursos… Associada à inexistência de professores especializados e devidamente habilitados para trabalhar com aquela população escolar… Enfim… Sempre a bater na tecla do empenho... Dedicação e rigor… Segundo ela... Há muito perdidos e esquecidos por esta nova geração de profissionais da educação… 

Para Pedro... Uma conversa politicamente reaccionária... De alguém que não tem moral nem escrúpulos... Que se agarrou a um tacho e lá ficou… De quem nada sabe da vida... Porque vive e passa muito bem… Mas... Que sugere e exige formas de estar e de andar…

A conversa centrou-se.. Sobretudo… Na importância dos papeis… Ou seja… Documentos logísticos… Imperiosos e demasiado importantes para o funcionamento das escolas e colégios de educação especial…

Pedro já estava enjoado daquela retórica… Obsoleta… Tanto saber… Ou melhor.. Pseudo saber… Recitando portarias… Despachos e decretos lei… Gabando-se do seu passado… Glorioso e curandeiro… Evocando louvores pessoais… Estratégias e vivências… Melhores que as de todos… Quase únicas...

Naquela conversação… Ou monólogo fanático... Sobressaia um carácter de circunstância... De uma retrógrada conservadora... Que caminha consoante a maré... De alguém que defende a manutenção de uma condição política e social... Rejeitando qualquer inovação ou mudança...

Doutora Rosa até encerrava os olhos… Falando com emoção e paixão…

Em uma das vezes que o fez… Os olhares de Pedro e de dona Filó cruzaram-se… E esta bocejou… Apontando-lhe o relógio…

Nesse preciso momento… O professor interrompeu-a… Com subtileza e delicadeza… Isto… Se é que existe alguma possibilidade de haver suavidade ou educação quando se interrompe alguém…  A verdade é que se calou… Contudo... Abriu-lhe os olhos… Arregalando-os na sua direcção por tamanha ousadia…

Todavia… O professor não se deixou intimidar… E continuou… Dando início à apresentação dos seus documentos… Num discurso em que alternava os olhos entre a sua directora geral e a doutora Rosa…

Dona Filó… Sorria embevecida com o seu desembaraço e arrojo… Ao contrário… A outra parecia querer falar… Mas Pedro não lhe dava hipótese… Pois havia encetado uma conversa sólida e racional… Fundamentada e baseada na legislação...

As suas palavras misturavam o estatuto do ensino particular e cooperativo com o paralelismo pedagógico... A autonomia e a organização das escolas... Com as necessidades e limitações dos alunos... Os recursos e os tempos lectivos... A paixão do trabalho real... Pela magia dos progressos e capacidades dos discentes... Nas ofertas do colégio... Desde as terapias às salas... Do empenho dos profissionais e do trabalho de equipa... Nas directrizes dos despachos... Decretos e documentos orientadores... Da ideia das áreas vocacionais... Como início... Aos estágios no exterior e à transição para a vida activa...

Enquanto isso… E enquanto falava… O professor ia distribuindo um exemplar à doutora Rosa de cada documento… Ou seja… À medida que os ia apresentando e explicando… Permitindo que esta... Assim como dona Filó… Intermediassem os olhares pelos papeis e os ouvidos pelo discurso de Pedro…

O professor realçou a importância da inclusão dos alunos na sociedade... Começando por uma mudança essencial de atitudes e de mentalidades... Da articulação necessária entre o ministério da educação... Direcções regionais de educação... Escolas e sociedade... No sentido de auxiliar e apoiar todo o processo... Da importância das famílias e comunidade envolvente... Na aceitação da deficiência e de todos os cidadãos portadores de deficiência... Permitindo e contribuindo para uma integração plena...

Arrebatada… Dona Filó escutava-o com atenção… Por outro lado… Rosa parecia fumegar por dentro… Incomodada e importunada…

Embora desempenhasse um cargo daqueles… Aparentava e expressava instabilidade… Imensa de distância… Algum glamour barato… Elegância estranha e de pouco requinte… Enfim… Alguém que escondia o seu ser  por detrás de um lugar elevado… Quem sabe se a sua pequenez… Ou as suas origens… Provavelmente simples e humildes… Talvez a tivessem mudado e transformado…

Para Pedro… Representariam certamente orgulho e respeito… Para Rosa… Vergonha e esquecimento…

Quem sabe se não era isso… Provavelmente chegara de baixo…

Mais tarde… O docente descobriu que se tratava de uma professora do primeiro ciclo do ensino básico… Ou melhor… Professora primária… Do antigo magistério… Havia realizado o curso e trabalhado apenas dois ou três anos com alunos…

A verdade é que se agarrou àquele lugar com unhas e dentes… Pois foi das primeiras pessoas a especializar-se na área da educação especial… Se bem que… Jamais trabalhara nessa esfera… A não ser naquele cargo… Distante e demasiado acima das reais necessidades... Dificuldades e encantos do terreno… Um facto… Aliás… Impressionante… Porém… Comum em tantos campos profissionais…

Pedro terminou a sua exposição e fez uma respiração profunda… Houve um compasso de espera e de silêncio:

- A doutora importa-se que eu vá lá fora fumar um cigarro? – Perguntou dona Filó… Erguendo-se da cadeira…

- Ora essa! – Exclamou Rosa… - Fume aqui mesmo! – E levantou-se para ir buscar um cinzeiro… Praguejando que não era fumadora… Contudo… Compreendia e não se importava nada… 

Dona Filó acedeu à conversa e ao sorriso da doutora e lá ficou…

Naquele tempo fumava-se em quase todos os sítios… Neste tipo de gabinetes… Dependia de quem lá trabalhasse e dos seus hábitos… Porque fundamentalismos… Sempre existiram e existem…

A verdade é que Rosa… Na presença de uma senhora tão singular como dona Filó… Se desfazia e derretia… Face à sua classe e elegância… Afinal… A pose sempre impressionou e impressiona… Quem é demasiado pequeno por dentro… E quem sabe por fora… Na verdade… Talvez seja aqui que se veja o verdadeiro tamanho e importância das pessoas…

Ao professor… Também lhe apetecia fumar um cigarro… Pois… Era demasiada conversa e algum nervosismo… Mas… Achou que não devia… Talvez Rosa não achasse muita graça…

- Sabe colega… - Iniciou… - Estes documentos estão muito aquém do que é necessário!... – Declarou… Encerrando os olhos… Como que desdenhando… - O projecto educativo… Está desfasado da realidade… O regimento está mal estruturado e organizado. – Destacou… Firmando o dedo indicador… - E… O plano de actividades está incompleto!

Pedro engoliu em seco… Invadido por um frio que de imediato se transformou em raiva… Que o tomou e assumiu… Por seu lado… Dona Filó olhava para o chão… Bafejando o cigarro…

- Veja estes documentos! – Convidou… Colocando na mesa alguns exemplares de outros estabelecimentos de ensino… Pedro acedeu ao seu pedido e começou a folheá-los… Enquanto ela falava… Demasiado absorvida nas suas próprias palavras…

O docente deixou de a ouvir e olhou os documentos... Um por um… Na verdade… Não os achava melhores que os seus… Diferentes sim… Pouca conversa… Demasiados bonecos e um belíssimo trabalho de configuração… Pedro não disse uma palavra…

- Oh colega… Não esteja preocupado! – Disse… Confortando-o… Talvez pensando que o tivesse abafado… - Isto resolve-se! – Enquanto isso… Olhava para dona Filó com afeição… - É normal… Que com a sua pouca experiência e idade proceda desta forma!... São novos! Inexperientes!... Estão a aprender! – Acrescentou… Olhando para dona Filó e sorrindo…

A cabeça de Pedro parecia querer explodir… Sempre demasiado jovem… Sem conhecimento… Pouco habilitado… E mais e mais… Que jovem conseguirá a tão desejada e exigida experiência… Se jamais terá a possibilidade de entrar para o mundo laboral?…

Discretamente… Pedro abriu o seu maço de tabaco… E sem que ambas percebessem… Colocou o cigarro na boca… Encerrou os olhos e tranquilamente.. Interrompeu:

- Sabe colega… Subestimar uma geração é desacreditar a sua também! – E nesse momento abriu os olhos... Acrescentando… - Afinal… Foram vocês que nos educaram e formaram…

O fumo já invadia de novo a sala… Os olhos da doutora estavam esbugalhados na direcção do professor… Quem sabe pensando para si… Tanta arrogância e desplante…

Dona Filó piscou-lhe um dos olhos… Pedro sentiu mais força e disse:

- A experiência é importante… Porém.. O empenho e a entrega talvez tenham maior impacto social! – A doutora ia dizer qualquer coisa… Mas Pedro não deixou e continuou… - O projecto educativo não me parece nada desfasado da realidade em que trabalhamos… Há jovens com imensas dificuldades e necessidades que necessitam de ser trabalhados de si para o todo… Em sessões individuais e de grupo… Num caminho concertado para uma evolução cognitiva… Para que adquiram uma maior autonomia pessoal e social… Privilegiando a motricidade… Trabalhando as capacidades e habilidades motoras… O desembaraço e a destreza… De uma forma lúdica… Todavia... Devidamente planificada e pensada… Ou melhor… Fazer com que estes se sintam úteis e incluídos numa sociedade segregadora e vil… Que já de si os descrimina… Pelas suas dificuldades e limitações… E quem sabe… Devido às suas necessidades também… - Pedro fez uma pausa… E continuou… - Uma sociedade… Onde a competição impera em demasia… Abafando todo e qualquer ser… Já de si… Normal… Quanto mais aqueles… Que são intelectualmente desfavorecidos!

- Muito bem! – Exclamou dona Filó… Mas o professor continuou:

- Estes documentos que me apresentou… E que tive o cuidado de analisar… Não me parecem melhores que os nossos!... Repare… - Pedro abriu o regimento e mostrou-o passo a passo… Pedindo-lhe… Que o acompanhasse… - Isto adequa-se perfeitamente ao nosso espaço… O local onde trabalhamos e intervimos com os nossos alunos… Regras de funcionamento… Direitos e deveres… Salas e ofertas curriculares... Terapias… Comparticipações… Etc… Baseado em todos os recursos humanos… Materiais e espaciais de que dispomos.

- Mas sabe… - Interrompeu a doutora… Algo alterada e com a voz mais grave… - Nem todas as pessoas que trabalham nesta área são formadas! E muitas trabalham por trabalhar! Por vezes…

- Tem razão! – Embargou Pedro… - Certamente que esse é um problema com que se deparam a maior parte das profissões! – Clamou… - Muitas pessoas não encontram motivação nos seus trabalhos… Por inúmeras razões… - O docente bafejava o cigarro... Libertando o fumo em direcção ao tecto… - Falta de condições de trabalho… Trabalho precário… Atraso nos vencimentos… Distância de casa… Problemas familiares e muito mais…

Doutora Rosa preparava-se para falar… Completamente apanhada de surpresa com o desembaraço e traquejo do professor… Tamanho atrevimento… Se ela pudesse… Calava-o…

Dona Filó… Assistia… Expondo o seu sorriso leve e acessível…

O professor prosseguiu:

- Contudo… Temos a sorte de ter uma boa equipa… Pessoas que se dedicam e esforçam por inverter a situação dos jovens com quem trabalhamos… - Enfim… Pedro sabia que Elisa era sempre um entrave a quase tudo o que se fazia na escola… Assim como Saudade… Porém… Até Júlia… O pessoal das oficinas e restantes funcionários… Pareciam contagiados pelo novo espírito que o professor trouxera para dentro da instituição… No fundo… Salvo uma ou outra excepção… Todos pareciam conquistados e absorvidos por um objectivo comum…

O docente apagou o cigarro no cinzeiro e prosseguiu:

- Temos um plano de actividades centrado nas capacidades… Dificuldades e necessidades dos alunos… Contemplando efemérides e datas comemorativas… Actividades desportivas… De expressão musical e plástica… E muitas mais… Assim como outras que promovem e estimulam a inserção dos alunos na comunidade… - Enquanto isso… O professor folheava o documento e gesticulava… Acrescentando exemplos… Apontando datas e metas… Projectos e soluções…

- Tudo bem! – Gritou a doutora… De modo a tomar conta da conversa… - E no projecto educativo?... Onde estão as metas? As linhas orientadoras?... Ou seja… As competências?... E. - Pedro interrompeu-a imediatamente… Transportando o comando da conversa para si… Abrindo o documento em questão…

Por seu lado… Doutora Rosa… Afinal… Tão doutora como Pedro… Folheou diversos documentos… Muito bem paginados e cheios de cor… Com citações e pensamentos ociosos… Imagens irreais de personagens fantásticas… Em suma… Enfeites de pouca graça e utilidade... Pelo menos para o docente…

- Repara colega! – Reiniciou Pedro… Tratando-a por “tu”… Era afinal sua colega… Talvez até… Menos professora do que ele… Devido à ausência prolongada e distância da sua real profissão…

Rosa paralisou… Estupefacta com tamanho arrojamento… Esgazeando-lhe os olhos… Dona Filó escondeu o rosto com a mão… Pedro insistiu:

- Metas?... Todas elas estão demasiadamente bem explicadas no nosso projecto educativo… O nosso objectivo principal é a inclusão destes alunos na sociedade… De uma forma concertada e eficaz… Onde possam ser adultos participativos… Relativamente autónomos e integrantes de uma sociedade que os segrega… Assim sendo… Temos a preocupação oferecer algumas áreas vocacionais… De carácter interno e externo… Precisamente para os sondar… Para os preparar para a transição para a vida activa e adulta… Daí o tema que escolhemos: “Formação pessoal e preparação para a vida activa”…

As áreas vocacionais estavam integradas no currículo dos alunos com necessidades educativas especiais como sendo a primeira fase de transição entre a escola e a vida activa... De uma forma espontânea... Os alunos beneficiavam de um conjunto de áreas e de competências que se esperavam ser úteis na escolha de uma formação adequada às suas motivações e capacidades...

- Tudo bem! – Disse perplexa a doutora… Preparando-se… Quem sabe… Para investir… - Como é isso estruturado? Como avaliam… E como organizam?... Como…

- Tivemos a preocupação de elaborar um documento… Que no fundo… Se traduz como um currículo para cada área vocacional… Interna e externa… No sentido de alicerçar a intervenção… - Pedro abriu a sua pasta e retirou um dossiê de folhas e micas… Abriu-o e explicou-o passo a passo a Rosa… Dando exemplos de alunos e especificando objectivos... Competências... Protocolos realizados e actividades...

Doutora Rosa era uma pessoa intragável… Daquelas que… Tal como avisara dona Filó… Estava há muito agarrada ao poder… A verdade é que ficou sem argumentos… Face à conversa e à  intervenção de Pedro… Que a abafou por inteiro…

Com os documentos devidamente preparados e fundamentados… Ainda houve espaço para mostrar fotos de experiências realizadas… Documentos internos produzidos… E expor alguns projectos para um futuro próximo…

O professor assegurou-lhe que as mudanças haviam sido imensas e convidou-a a visitar a instituição… Esta desculpou-se com o trabalho.. Que parecia abundar naquele gabinete… Mas…Face à insistência de dona Filó… A doutora foi incapaz de dizer que não…

No final… E depois de saírem… Dona Filó estava demasiado contente… Chegando a dizer que… Não podia ter feito melhor escolha… Que o professor tinha dignificado os interesses do colégio como ninguém… Confidenciando-lhe que… No fundo… E embora ele tivesse falado no plural... Ela sabia que era tudo obra sua…

O caminho de regresso foi animado e Pedro até trouxe o carro… Manifestando à sua directora que sempre quis ter um automóvel...

António Pedro Santos

(Continua)...