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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

LV

No terraço das tais águas furtadas... Pedro digere o jantar...

Abraçado à guitarra... Encena uma profunda divagação... Nos olhos doces de Luz... No cheiro quente de Leontina... Duas preciosidades bem portuguesas... Para lá dos quarenta... Que deambulam e apregoam aos sete ventos... Qualidades ocultas à grande maioria dos outros seres...

Nas mãos ardentes de Leontina... A sensação intermitente de que se pode ser maior... Na sua roupa apertada sob um andar elevado e desengonçado... A excelência da produção de braço dado com a simplicidade maravilhosa de Luz... Que na sua magia descontraída... Arrebata e assola... Olhar profundo e intenso... Lábios prazerosos e provocadores... 

No ar ecoa uma melodia galerna... Um saxofone que invade aquele fim de dia... Com o assombro de um sopro...

Alguém por perto... Tenta domesticar um instrumento... O professor aproxima-se com a cadeira do muro do terraço e percebe que vem de uma casa que se encontra ao mesmo nível... Mas não vê ninguém...

Resolve por isso entrar na melodia e procura os acordes que o permitam... Encadeando os sons da sua guitarra... Ou melhor... Da escola... A verdade é que andava sempre consigo... Ou quase sempre... Como companhia... E que bem lhe fazia...

Entra na canção... Elevando a altura do toque... Um concerto para Luz e Leontina... Encerra os olhos e deixa-se ir... Ao longe... Um rapaz sai... Manobrando o saxofone... Contemplando Pedro... E entrando na brincadeira... Aproxima-se no seu muro e ficam muito perto... Improvisam e fazem um final...

- Tocas bem! – Exclamou o professor...

- Não te lembras de mim? – Questionou... Olhando-o como se o conhecesse...

Nesse momento... O professor pareceu reconhecer o rapaz que o ajudara à saída da camioneta...

- Saída turbulenta!... – Comentou sorrindo...

Pedro soltou um gargalhada... A partir daí... Encetaram uma conversa agradável... Pedro contou-lhe que trabalhava num colégio de deficientes... Que vivia ali e falou-lhe um pouco acerca da sua experiência...

Por seu lado... Matias... Era esse o seu nome... Tocava num trio que circulava em dois ou três bares da zona...

- Temos um contrabaixo e um percussionista... – Informou... - Para além de mim... Claro!

O músico afirmava que não se ganhava muito... Dava para pagar a renda e ainda assim... Tinham de fazer outros trabalhos... Mas faziam o que queriam e gostavam...

Convidou Pedro para aparecer num ensaio... Apenas para se divertirem um pouco... Este acedeu ao convite...

Encontraram-se todos na casa de Matias... Afinal... Moravam todos juntos... Pedro ficou abismado com o material de que dispunham... Bateria... Guitarra eléctrica... Vários instrumentos de sopro... Enfim... Pedro entendeu-se bem com a guitarra eléctrica e Matias mostrou uma enorme versatilidade com todos os instrumentos... Nomeadamente com os de sopro...

Passaram a encontrar-se todos com frequência... De uma forma descontraída... Improvisavam por cima de temas bem conhecidos... De um jeito animado e alegre... A música crescia e parecia evoluir...

Quando teve oportunidade... Pedro convidou-os a ir à escola... Falou com dona Filó... Que autorizou...

Fizeram várias experiências... Desde um pequeno concerto... Em que Pedro também participou...

Os alunos deliraram... Ao perceberem que as canções conhecidas eram adulteradas... Com uma base apenas instrumental... Sentiam que as reconheciam... Entravam no ritmo... Dançavam e batiam o pé... As reacções eram as mais diferentes possíveis...

Salvador ria e arrastava-se no chão... Assim como Rubem... Que batia as palmas com violência e emitia ruídos... Talvez menos... Porque com o barulho da música... Não eram audíveis...

Miguel passeava-se... Seguindo a mão... Estranhando o ambiente... Mas... Parecendo ignorar a melodia... Bento e Rafael... Achavam o ambiente estranho e diferente... Mas as manifestações não eram muito óbvias...

Estranhamente... Zé observava o grupo... Com zelo e atenção... Contemplando com admiração e sossego... Era óbvia a tranquilidade que a música lhe transmitia...

Hélio batia os pulsos e arreganhava os dentes... Abalado com a confusão... Tatiana segurava Andreia... Instigando-a a dançar... De um jeito mórbido... Num sacudir temporário de movimentos pouco cadenciados e crus...

Andreia... Com movimentos espásticos... Batia as palmas a três tempos... Mas... Fora de tom... Os clones abanavam os corpos... Descoordenados e hirtos... Em movimentos de ombros... Da esquerda para a direita... Como se fosse esta... A única parte do corpo com mobilidade...

Abraçados... Carlos... Mário e Bruninho... João e Luís... Acompanhavam o espectáculo... Como se assistissem a um concerto de rua... Por outro lado... Patrícia e Rosa observavam-nos com malícia... Bem como Angela... Atenta e misteriosa... Ana estava a um canto... silenciosa e pouco motivada para a actividade...

Dora... Irene e Júlia... Encorajavam Fábio e Raquel... Que dançavam agarradíssimos e apaixonados... Como sempre...

Martinha acompanhava Cristina... Ramos e Carrapito... Que a imitavam de uma forma básica... Dois passos para um lado e dois passos para o outro...

Filipe dançava com o enorme lápis amarelo... Como se fosse um maestro... Ao seu lado... Maura e Sarita... Movimentavam-se com prazer... Ainda que com uma demarcação muito própria...

Teófilo era espicaçado por Luz e Carla... Mas estava muito renitente... Virgílio estava atrás dos músicos... Como se fizesse parte deles... Afinal... Tinha ajudado a montar e carregar o material...

Bebé e Ilda estavam bem na frente dos músicos... Inventando movimentos completamente fora da canção... Com jovialidade e emoção... Soltando-se em plena liberdade... Também lá estavam Cláudia e Ronaldo... Este último... Completamente excitado e fora de si... Manobrando uma guitarra virtual e imaginária...

Próximo de Pedro... Aparecia Sónia... Chegando a beijá-lo... Não percebendo que por vezes não lhe podia dar tanta atenção... Por causa do instrumento... Arrancada de lá à força... Por Bela... Chorando e gritando desaforadamente:

- Popêeeee!...

De uma forma geral... Alunos e funcionários desfrutaram do momento... Cantando e dançando... Aplaudindo e soltando para fora de si... Todas as suas limitações... Necessidades... Capacidades e frustrações...

Para além disto... Pedro ainda organizou algumas sessões... No contexto da sala da música... Em que convidou Matias e os seus colegas... Para uma abordagem mais pormenorizada ao instrumento... Com situações de experimentação e de acompanhamento... Chegaram a fazer-se algumas simulações... Onde os alunos... De uma forma ensaiada e coordenada... Reconhecendo e aprendendo regras... Respeitando pausas e momentos... Introduzindo inovações e acrescentos... Acompanhavam as canções... Enchendo-as de cor... Paixão e emoção... 

António Pedro Santos

(Continua)...