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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

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EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

LXII

O ar estava quente... Para lá da velha cidade... Dengosa e pardacenta... Um misto de cor parecia incendiar o dia... Com ardor e essência...

A passarada... Tomava conta dos céus... Com arrojo e audácia... Para lá dos demais... Que tristes e conformados... Circulavam de cá para lá... E de lá para cá...

Os olhares trocavam-se... Sem contudo se ver... Os corpos frios... Banalizavam a circunstância de simplesmente existir... Durar e permanecer... Com pouco alento e grandeza...

Os saltos e as corridas... Perdiam-se nas palavras vãs... Saídas das bocas... Acabadas e indiferentes...

Lágrimas e esteria... Ecoavam e chamavam de um modo peculiar...

Os interesses e as incoerências... Acasalavam como estranhos... Afastados e ridículos...

Pedro olhava o rio... Que parecia sossegar... Escutando as conversas e inspirando o ar... Sentindo o tempo a tomar conta de si... Perguntava-se quando seria que este tinha fim...

Invasão de sentimento... Nojo pela qualidade do ar... Perdoando num momento... Deixando-se estar... Nas vezes em que jura que pensa... Ser maior que o mar... Contudo... A força do vento... Lembra-o de acordar... De sonhar...

Na força que se faz por estar... De pé ou a dançar... Com a graça das ondas... Que lhe tentam mostrar... O que olhar...

O professor encerrou os olhos e respirou fundo...

No ar... Uma travagem violenta fez-se notar...

Muita gente correu para ver o que se passara... Pedro também...

No chão de uma estrada suja e fria... Uma mulher agonizava... Aos olhos de todos e numa simples fracção de tempo do mundo...

- Alguém chame o 112! – Gritou uma voz...

Subitamente... Várias chamadas se realizaram e uma confusão pareceu instalar-se... O condutor do carro chorava desalmadamente...

Pedro abeirou-se da vítima e tentou apoiá-la... Perguntando:

- Está bem?... – Todavia... A senhora não respondeu... Parecia estar inconsciente e desacordada... A sua respiração aflita... Dilacerava pela opressão que comportava...

Inesperadamente... Pareceu ver naquele rosto ausente... Aquela senhora de idade que se aprontou em ajudá-lo... No dia em que chegara para se apresentar... Vindo de longe... Inseguro... Precário e avaro de esperança...

Alguém que há tempos lhe perguntara... Com voz doce... Meiga e atenciosa... Clarão de um rosto amarrotado pelo passar do tempo... Que naquela altura... O fez rememorar a sua avó quando o adormecia... Há muitos anos atrás... Um olhar afectuoso e preocupado... Como o dela... Que o tempo apagava aos poucos da sua memória... Cada vez mais pequena... Pelo passar de tanto tempo da sua morte...

Facilmente.... E sem qualquer pudor... Pedro colocou-lhe a mão por detrás do pescoço... Pois sentiu-a estrebuchar... Parecia inquieta e pesarosa...

Era agora ele que... Envolto no odor hediondo de estrada e automóvel... Calor... Afrontamento e drama... A amparava... Nos poucos segundos de vida que lhe restavam... Transportando-a para o conforto da sua cama que há muito deixara no seu quarto... Extinto e longínquo... Na sua infância remota e distante... Devorada pelos anos... Acelerados... Esquecidos e atrozes...

- Deixem passar! – Ordenou uma voz por trás de si... Enfim... Médicos e enfermeiros invadiram o local...

Acompanhou o seu adormecer infindável... Apreciando a sua aparência... Imbecilizada e disforme do acidente... Decadente pelos anos duros e efémeros...

A frescura aliviava-lhe a quentura que sentia... Amenidade dolorosa... De uma fragrância tenebrosa e capaz...

Já não era a senhora de idade que lhe passava um lenço húmido na testa... O cheiro a gasolina e sangue... Misturava-se com o de livro fechado que a mesma exalava...

Não era Pedro quem estava deitado no banco da paragem do autocarro... Era alguém anónimo que jazia... Na estrada conspurcada e algente...

Vagarosamente... Pedro retirou a mão por baixo do seu pescoço e meigamente olhou aquele rosto que repousava... Já sem vida... Naquela manhã... Igual a tantas outras...

Aquela senhora que o amparou pelo braço e o olhou nos olhos... Como que... Comprovando o seu estado de saúde plena... Fez com que o professor parasse por uns instantes... Siderado naquele olhar... Agradável... Diligente e concentrado... Uma raridade nos nossos dias e nas pessoas...

Uma ignóbil parte da vida... De um coração maior que o mundo... Que ali estava para auxiliar um semelhante... Com a ternura que se tem para com um amigo ou familiar...

Jamais esqueceria aquele olhar... De alma compassiva... De humanidade maior... Jamais esqueceria a forma como a viu partir... Sozinha e no meio de todos... 

Emocionado... Restava-lhe agora... Dar de novo ao rosto… Uma imagem segura…

Por uns momentos... E como sempre... Fixou-se na contiguidade arquitetónica... Divagando por instantes… Nos paradoxos da vida e da conjuntura temporal... Paradigmas bárbaros de uma sociedade feita à base de betão... Que aos poucos consume as consciências e os corpos amiudados das gentes que naquela cidade habitavam...

António Pedro Santos

(Continua)... 

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