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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

LXIV

Finalmente... O grande dia chegou...

Pela primeira vez... Aqueles alunos armavam tendas e iam passar uma noite fora...  Longe do conforto da casa e da família... Ainda que... Este aconchego... Fosse discutível...

Tendas... Ou melhor... Dois enormes toldos atados às árvores...

Durante muito tempo... Pedro teve a preocupação de explicar o conceito... E não foi nada fácil... Desde a proposta do projecto... Preparação... Até à actividade propriamente dita...

Enfim... Não foi nada fácil... Levar pais e colegas a dizer sim... Conquistar os alunos... Falar-lhes daquela realidade e convencê-los a aderir...

Para variar... Alguns dos funcionários da escola... Criaram barreiras e demonstraram até... Algum despeito... Todavia... Pedro deu-lhes a volta...

Sentiu sempre o apoio de dona Filó... Que lhe transmitiu alento e força... Assim como... Dos restantes... Ou seja... Os do costume...

A verdade é que... Desde que havia chegado ao colégio... Habituara as suas colegas a uma forma de trabalho diferente... Mais dinâmica... Partilhada e cooperada...

Para o professor... Não haviam impossíveis... Isto é... Acreditava ser possível superar obstáculos... Tabus e dificuldades...

Na sua forma peculiar de laborar... E até de ver o mundo... Era um privilégio trabalhar com aquele tipo de população... Tão débil e ignorada... Que tanto precisava e ao mesmo tempo... Tudo lhe dava...

Era imperioso coadjuvar e intervir em equipa... Confiar na mudança e nas capacidades de todos... Interferir na sociedade com razão... Presença e competência...

Luz conseguiu que a estadia fosse grátis... Dora e Irene conferiram estrutura ao desígnio... Com a realização de listas e recolha de materiais... Telma... Carla... Júlia e Martinha... Foram essenciais para angariar parceiros... Patrocinadores que ofereceram aos alunos géneros alimentícios... Roupas e mais coisas... Como sacos de cama e cobertores...

Bela e Preta... Trataram da preparação de alguns alimentos... Que posteriormente foram confeccionados no parque de campismo... Leontina fez o transporte... Em suma... Uns mais outros menos... Mas... Todos ajudaram...

Agora... E enquanto Pedro os avistava... Era gratificante e emocionante...  Ver os seus rostos coloridos... Repletos de olhares descontraídos e sorrisos rasgados... Imensos de autonomia... Desenvoltos ao nível da linguagem e da comunicação... Num contexto diferente e estranho... Onde a camaradagem e a cooperação nas tarefas eram necessárias... Afinal... Dormia-se no chão... Com menos conforto que o habitual... O balneário era comum... A comida era partilhada e as tarefas também...

Aqueles jovens... Jamais esqueceriam aquele acampamento... E os adultos também...  Dali... Sairiam mais enérgicos... Seguros e confiantes... Mais próximos e iguais...

Tranquilamente... O professor aprecia aquele panorama e sorri... Com prazer... Satisfeito pelo momento e pela experiência que lhes conseguiu proporcionar...

Não fossem estes... Alunos com necessidades especiais... Maiores que os demais... Expostos numa panóplia de enigmas... Dificuldades e limitações... Desarranjos emocionais... Distúrbios... Mistérios e transtornos... Síndromes e problemáticas...

Por causa disto... Sorri de novo...

Ao seu lado... Deu conta de Ramos... Que permanecia imóvel e na ponta dos pés... Medindo-se com Pedro... Na sua postura básica... Isto é... Calças puxadas até ao umbigo... Braços cruzados... Elevando os óculos no nariz com o simples movimentar dos lábios...

- Parecem maluquinhos! – Exteriorizou... De uma forma nasalada... Batendo com o dedo na testa...

O professor olhou de novo em redor e procurou fotografar o momento... Para mais tarde recordar...

Carlos jogava às cartas com Luís... Roberto e Patrícia... Por perto estavam Cláudia e Rosa... Parecia estar a correr bem o jogo...

Adjacente... Carrapito ria de alguma brincadeira de Filipe... Que segurava o seu gigantesco lápis amarelo... Expondo um cara afável e ardilosa...

Por contágio... Cristina ria também... Dizendo para si própria:

- O que foi Cristina?... Rum... Rum... Ai! Ai! Cristina... Rum... Rum... – Repetia... Alterando-se e transformando por completo o seu estado emocional... Rindo muito alto...

Dora e Irene... Contavam anedotas... Quase juntas e ao mesmo tempo... Como se fossem gémeas... E eram quase... Fingindo condições... Com o encarecimento natural...

Virgílio assistia... Arreganhando os dentes e agenciando o pescoço... Tal como Samuel... Ronaldo e Sarita... Bem como Ana... Que chegou a mostrar os dentes... Ainda assim... Nunca chegou a falar... Não que Pedro ouvisse...

Júlia e Carla... Riam da exibição das colegas... Angela e Maura igualmente... E mais... Muitos mais... Como... Raquel e Fábio... Sempre agarrados e encantados...

Pedro sentiu alguma nostalgia que lhe apertou o estômago... Afinal... Sabia que se ia embora... Num futuro bastante próximo... E... Teria de os abandonar e deixar à sorte...

Para além do professor procurar maior estabilidade profissional e assim... Usufruir das regalias do estado... Sabia.. Tal como todos os seus colegas... Que a aquela escola estava por um fio...

A saída da tal portaria... Estava a matar o colégio aos poucos... Enfim... Subsídios atrasados... Dificuldades financeiras crescentes... Salários que não apareciam... E... Uma situação que se tornava insustentável e impossível para todos...

À sua frente... João jogava raquetes com Bruninho... Ou melhor... Tentavam... Religiosamente... João servia a bola... Contudo... O colega permanecia imóvel... Com calma... João apanhava a bola e servia de novo... De vez em quando dizia de voz trémula:

- Então... Bruninho?... Não vês a bola?...

Frustrado... Baixava a cabeça... Rodando os olhos para cima... Como um animal clamando por clemência...

- Não faz mal! – Dizia João... Deslocando-se para a bola... Apanhando-a do chão e servindo de novo...

Ramos agitava negativamente a cabeça e girava de novo o dedo na testa...

Teófilo tentava ler um livro... Ao seu lado... Ilda conferenciava com apetite e ânimo... Num monólogo que este não dava sequer importância... Provavelmente estava como sempre... Fora deste mundo... Simplesmente e somente no seu...

Por outro lado... Ilda continuava... Sem se importar... Divagando na conversação... Desenvolvendo questões e cedendo as próprias soluções... Rindo com jovialidade e gáudio...

- Parecem maluquinhos! – Constatava Ramos... Enquanto os observava... - Fugiram do hospício!...

O professor sorriu e nesse instante... Sente um beijo na mão... Olhou para baixo e encontrou Bebé... Sorrindo... De olhos pequenos e amendoados.. Inclinando a cabeça e acarinhando-o com as mãos... Acompanhada de Pedro... O boneco... Descabelado do uso... Descalço e quase nu... Gasto pela passagem do tempo que correra tão depressa...

- Pra ti! – Disse sussurrando... Estendendo-lhe o boneco...

O seu peito incendiou-se e uma lágrima escorreu pelo seu rosto... Pedro sentiu-se decomposto e a sua mente explodiu de emoção...

Agachou-se para a abraçar... Quem sabe se pelo gesto... Ora... Pelo gosto que tinha de trabalhar com aqueles alunos... Ou talvez... Pela saudade que já sentia... Do dia em que já lá não estaria... Para os acarinhar... Apoiar e ensinar...

Do dia em que ficariam entregues a si mesmos... Aos desígnios das gentes... À sorte de um país à beira mar plantado... Que os exclui e intimida... Na natureza que têm da essência que os separa... Transporta e carrega... A braços com a vida... Com a morte e com a...

Pedro susteve a respiração e abraçou Bebé com força... Para segurar a vontade de chorar...

Enquanto isso... Ramos repetia descontraídamente:

- Loucura!... Loucura!... Loucura!...

António Pedro Santos

(Continua)...