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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

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EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

Inclusão digital dá voz para quem não sabe ler e escrever

O toque estridente no celular de Ivaneide Silva, 51 anos, revela que chegou mais um áudio pelo WhatsApp. Moradora do Pilar, comunidade do Bairro do Recife, ela não consegue ler textos enviados, mas usa assiduamente a rede social de trocas de mensagem. Além de se comunicar com os filhos e amigas pelo “zap”, como chama, mantém um perfil no Facebook, onde vê fotos e curte publicações. Não saber ler ou ser analfabeto funcional não afasta os brasileiros das mídias digitais. A última edição do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), estudo realizado em parceria pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa, revelou que, mesmo com dificuldades, os analfabetos funcionais são usuários frequentes das redes sociais. Entre eles, 86% se comunicam pelo WhatsApp, 72% têm perfil no Facebook e 31% acessam o Instagram.

A décima edição da pesquisa, realizada desde 2001, entrevistou 2 mil pessoas entre 15 e 64 anos, residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país. Quase um terço dos brasileiros ouvidos pelo estudo têm limitação para ler, interpretar textos, identificar ironia e fazer cálculos simples. São considerados, portanto, analfabetos funcionais. “Identificamos um grupo grande de pessoas que, mesmo com dificuldades, estão nas redes sociais. São usuários de diversas ferramentas e se comunicam não só por áudio, mas também por meio da escrita. Concluímos que as redes sociais funcionam como um meio de inclusão”, afirma o coordenador executivo adjunto da Ação Educativa, Roberto Catelli.

O uso das redes, entretanto, é limitado entre os analfabetos funcionais. Desses, apenas 12% enviam mensagens escritas e escrevem comentários em posts do Facebook, por exemplo. Entre os entrevistados com nível de alfabetização proficiente - isto é, os que elaboram textos, interpretam tabelas e gráficos mais complexos e resolvem situações-problema -, 44% enviam mensagens escritas e 43% redigem comentários em publicações. “As redes sociais também são um ambiente com limitações. Observamos um avanço, mas a presença nos meios digitais não basta. Estamos falando de pessoas que não conseguem ler textos do cotidiano, como placas de rua, folhetos de supermercado e orientações no mercado de trabalho”, pontua Catelli.

A dona de casa Maria Miron, 66 anos, reconhece que, apesar de estar no WhatsApp e trocar mensagens pelo aplicativo, tem dificuldades de ler textos com mais de três frases. Com mais de 60 anos, começou a estudar pela primeira vez e cursa o módulo dois - equivalente à antiga primeira série - na Escola Municipal de Dois Rios, no Ibura, Zona Sul do Recife. “Aprendi a ler, estou reconhecendo as letras e palavras, mas ainda não consigo entender textos maiores. Daqui para o fim do ano, tenho fé que poderei receber mensagens em texto e não só áudio no celular”, diz.

Para o Inaf, alfabetismo é a capacidade de compreender e utilizar a informação escrita e refletir sobre ela, “um contínuo que abrange desde o simples reconhecimento de elementos da linguagem escrita e dos números até operações cognitivas mais complexas, que envolvem a integração de informações textuais e dessas com os conhecimentos e as visões de mundo aportados pelo leitor”. Escolaridade, portanto, não garante a todos o nível de alfabetismo esperado. “Estudei, mas tenho dificuldade de ler textos grandes e entender o que estão dizendo, por isso, prefiro mandar áudio (no WhatsApp)”, diz a auxiliar de cozinha Roseane Lima, 41 anos.

Um dos principais riscos que as pessoas com baixo nível de alfabetização no meio digital correm é a vulnerabilidade à desinformação, de acordo com a pesquisadora na área de letramento digital Roberta Caiado, doutora em educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com pós-doutorado em linguística aplicada pela Universidade Católica de Pelotas (UCPEL) e e coordenadora da pós-graduação stricto sensu da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). “O analfabeto digital pode até ter nível elevado de escolarização, dominar as tecnologias do ler e do escrever, ser considerado letrado, porém não se apropriou das vantagens que as tecnologias do ler e do escrever na tela proporcionariam; não conseguem identificar uma fake news; não entendem um meme, por exemplo”, ressalta.

Quais são as formas de letramento possíveis?
O termo letramentos (no plural) estaria mais de acordo com o momento sociocultural que vivemos, pois fazemos usos heterogêneos das diferentes tecnologias, com finalidades diversas para modificar/ratificar nosso estado ou condição de ser letrado, na leitura e na escrita. Fazemos parte de um todo que se dinamiza e complexifica a cada nova necessidade, a partir das exigências que as novas descobertas e o conhecimento possibilitam. Diferentes letramentos, letramentos múltiplos, desenvolvem novas habilidades ou habilidades que há muito não nos eram solicitadas - devido a isso ressurgem como novas - nos sujeitos aprendentes contemporâneos. Acredito que as novas tecnologias digitais da informação e comunicação contribuem significativamente para a composição da concepção de letramentos a partir das mudanças que introduziram no estado ou condição dos sujeitos.
 
Do ponto de vista linguístico, de quais maneiras uma pessoa não alfabetizada é excluída?
O alto grau de escolarização representado pelos anos que o sujeito aprendente/aluno passa na escola não é garantia de alfabetismo, de desenvolvimento de habilidades referentes às tecnologias do ler e do escrever, em contextos diários dessas práticas. A questão se agrava, atualmente, no que se refere à compreensão, à interpretação e à produção de conteúdos, porque um adulto não alfabetizado ou analfabeto funcional se depara, por exemplo, nas redes sociais, com o fenômeno das fake news e, caso não tenha habilidades específicas e requeridas pelo letrado, poderá facilmente reencaminhar, compartilhar, redistribuir informações que não condizem com a verdade ou de cunho alarmista, corroborando para o que uma minoria linguística impõe a uma maioria discriminada com base na legitimação do saber e da língua de que eles dispõem.
 
A tecnologia promove inclusão linguística?
Se atrelado ao letramento escolar encontramos a figura do analfabeto funcional, atrelado ao letramento digital poderemos encontrar a figura do analfabeto digital. O analfabeto funcional aprendeu a ler e escrever signos - codificar e decodificar o texto -, mas não consegue depreender sentidos contidos em gêneros variados do discurso, por apresentar leitura superficial ou nível de leitura superficial e baixa frequência de escrita de textos simples. O analfabeto digital pode ter nível elevado de escolarização, dominar as tecnologias do ler e do escrever, ser considerado letrado, porém não se apropriou das vantagens que as tecnologias do ler e do escrever na tela proporcionariam; não se apropriou das vantagens das múltiplas semioses integradas: som, imagem, movimento - juntas e ao mesmo tempo - utilizando-as a seu favor, tirando vantagem dessas emergentes tecnologias digitais para melhor compreensão da sua cultura, da política, da identificação de fake news, do significado de um meme, da busca de informações na rede. Dessa forma, entendo que somente o letrado alfabético tem condições de se apropriar totalmente do letramento digital.