Prenúncio de Futuro
Texto de abertura da XIX Cimeira Virtual de Educação Especial - 2026
(Reescrita e Continuidade – 20 anos de Educação Diferente)
A concepção elementar de associação continua em transformação profunda. Já nada é como dantes - e talvez nunca o tenha sido verdadeiramente. Muito antes da pandemia, a participação social dava sinais de empobrecimento: mais imediata, mais ruidosa, mais superficial. As redes sociais consolidaram esse padrão - sínteses apressadas, reacções instintivas, o gosto e o não gosto como substitutos do pensamento. Uma encenação permanente de vida que raramente é vida. Um cansaço dos sentidos alimentado por afinidades ilusórias, debates estéreis e ruído mediático. Tudo rápido. Tudo descartável. Tudo fatigado.
A pandemia apenas acelerou processos que já estavam em curso. Quebras múltiplas atravessaram a sociedade, a educação e as relações humanas. Trabalhar, educar, cuidar e aprender passaram a exigir um esforço acrescido - sempre mais um. As condições de trabalho deterioraram-se, a partilha enfraqueceu, o trabalho em equipa fragmentou-se. Reinventar tornou-se palavra de ordem, mas nem sempre acompanhada de tempo, meios ou reflexão. E enquanto se exigia mais, esquecia-se de perguntar: até quando é possível resistir? Quanto pode uma comunidade aguentar sem se desfazer?
Perante esta conjuntura, fecho os olhos e divago. Oiço palavras repetidas, gastas, ditas com convicção mas vazias de sentido. Gritos de coragem mal organizada, impulsos sem estrutura. No meio desse ruído, ecoa ainda a pergunta de Eduardo Lourenço: “Como foi possível um país tão pequeno ter tido um percurso tão extraordinário?” Talvez pela capacidade persistente das pessoas comuns - que, apesar de tudo, continuam a criar, a adaptar-se, a inovar. A vida não parou. Não pode parar. Mesmo quando o discurso dominante insiste em encerrar, proibir ou reprimir.
E as crianças e os jovens? Aqueles que estão em formação - devem ser suspensos, adiados, protegidos até à asfixia? Será legítimo confundir cuidado com afastamento, segurança com interrupção? Não são eles o amanhã? Não precisam de vínculos, de confiança, de experiências reais para construir futuro?
O excesso de zelo pode tornar-se negligência disfarçada. Quando repetimos que conviver é perigoso, que tocar é risco, que o afeto deve ser contido, não estaremos a hipotecar uma geração inteira? Isolando-a dos seus pares, fragilizando percursos educativos, adiando projectos de vida, empurrando para a solidão aquilo que deveria ser comunidade?
Recordo então Eça de Queirós, na sua lucidez irónica: “A criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, só começamos a ser idiotas quando chegamos à idade da razão.” Talvez porque, ao crescer, aprendemos a normalizar o absurdo, a aceitar políticas curtas, respostas fáceis e soluções que não educam – apenas controlam.
É precisamente por isso que crianças e jovens devem ser prioridade real, não retórica. Com prudência, sim - mas também com visão, estrutura e planeamento. É urgente repensar processos, políticas, conteúdos e práticas. Criar espaços de discussão e de pensamento crítico. Promover competências humanas fundamentais: tolerância, solidariedade, responsabilidade. Articular educação com intervenção social. Superar a lógica estreita da mera transmissão de conteúdos - tantas vezes caduca, contraproducente e desumanizada.
Respiro fundo. O ruído continua, mas também persiste a vontade. A engrenagem é antiga, por vezes enferrujada, mas move-se. Entre palavras do passado e desafios do presente, relembro Almada Negreiros, quase como um aviso e um estímulo: “O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades!”
Vinte anos depois, Educação Diferente mantém-se como espaço de resistência crítica, reflexão e proposta.
Hoje, ao abrir a XIX Cimeira Virtual de Educação Especial, este texto afirma-se como ponto de partida coletivo: um convite à escuta, à responsabilidade e à ação informada. Insistimos. Continuamos. Não por teimosia, mas por convicção. Porque educar diferente não é uma moda – é uma necessidade permanente, sobretudo quando falamos de inclusão, equidade e futuro.
António Pedro Santos