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educação diferente

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

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EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

UMA REFLEXÃO SOBRE A FUNÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR…

Os desafios para o início do ano letivo

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A instituição escolar confronta-se atualmente com a necessidade de dar resposta a várias solicitações desencadeadas pela diversidade de públicos, de pedidos sociais, expetativas e de políticas educativas. Nos países desenvolvidos atingiu-se o grande objetivo da universalidade do princípio da escolaridade obrigatória. Todas as crianças e jovens em idade escolar frequentam a escola - emergindo atualmente o desígnio estruturante de evolução dos sistemas educativos, proporcionando a todos os alunos processos educativos de qualidade.

As mudanças ao nível do “modelo de escola inclusiva” com alterações na respetiva legislação desde o ano letivo passado reafirmou os princípios em que assenta no desenho universal para a aprendizagem e na abordagem multinível no acesso ao currículo. Esta abordagem baseada em modelos curriculares flexíveis no acompanhamento e monitorização sistemáticas da eficácia do contínuo das intervenções implementadas, no diálogo dos docentes com os pais ou encarregados de educação e na opção por medidas de apoio à aprendizagem, organizadas em diferentes níveis de intervenção, de acordo com as respostas educativas necessárias para cada aluno adquirir uma base de competências, valorizando as suas potencialidades e interesses.

Mas estes não são os únicos aspetos diferenciadores e de mudança no espaço escolar, com o inicio deste ano letivo enquanto Psicóloga numa escola, voltei a (re)pensar no meu papel, na minha intervenção. Desafios certamente sentidos por todos os psicólogos que dentro das suas escolas seguem um pedido de uma resposta educativa diferenciada permitindo a promoção do sucesso educativo dos seus alunos, criando alternativas diferenciadas e adequadas a cada um deles baseadas num trabalho interventivo.

O campo de intervenção da Psicologia da Educação é vasto e abrange todo o ciclo vital dirigindo-se a vários destinatários, com intervenção direta ou indireta nos processos educativos, entre os quais: alunos e formandos (crianças, jovens, adultos), professores e formadores, famílias, técnicos, assistentes, instituições e comunidades.

Não perdendo de vista o espaço dinâmico do meio escolar, onde os alunos convivem, crescem, evoluem e vivem uma diversidade de expetativas e anseios. O clima de escola atual é o resultado da convivência no mesmo espaço físico, dessa diversidade social e cultural, com interesses, opiniões e desejos muito díspares, originando situações de diferença e/ou divergência. As vivências têm-se tornado mais complexas em resultado da massificação e diversificação do público escolar, como tal os fenómenos de relacionamento humano, tais como a indisciplina, o conflito, a violência e o bullying, exigem uma reflexão profunda, um olhar atento e uma atuação atempada, para valorizar e desenvolver os relacionamentos de qualidade.

Surge assim a intervenção promocional, preventiva ou remediativa sempre com o  objetivo de desenvolver as capacidades e competências, promovendo contextos facilitadores da aprendizagem e do desenvolvimento pessoal, social e profissional. Acima de tudo a contribuição do Psicólogo deverá ser a promoção do desenvolvimento saudável e integral, o bem-estar e a saúde física e psicológica, o aumento da qualidade e satisfação com a vida, a promoção das relações interpessoais saudáveis, a prevenção de violência e de outros comportamentos de risco, a prevenção da discriminação, a promoção da cidadania ativa, a promoção da inclusão das pessoas nas suas comunidades, o compromisso e envolvimento com a aprendizagem e a redução de problemas psicoeducativos (de desenvolvimento, de comportamento, de aprendizagem e socioemocionais).

Neste sentido, as competências e capacidades dos Psicólogos da Educação constituem um apoio fundamental para as realidades individuais, sociais e económicas dos contextos educativos, sendo inúmeras as evidências científicas da eficácia, do custo-benefício e dos resultados positivos da sua ação. A escola é, pela sua natureza um espaço de descoberta e de transferência de saberes e afetos, por isso mesmo é motor de crescimento e mudança. Refletir sobre a existência do Psicólogo no espaço escolar pelos alunos, docentes, assistentes operacionais, famílias e outras estruturas sociais e educativas contribui para um melhor funcionamento destes serviços, bem como da intervenção dos profissionais que os constituem.

Na escola vivem vários “atores”, o psicólogo escolar e a sua intervenção está patente em documentos, legislação comunitária e nacional. Neste contexto é pois evidente a relevância dos Serviços de Psicologia e Orientação, criados em 1991, em que a intervenção está alinhada com um conjunto de pressupostos políticos, teóricos, científicos e técnicos organizadores da sua ação. Não esquecendo que por vezes o Profissional que se encontra num determinado ano letivo, não está no ano seguinte… dificultando a importância de continuidade do trabalho realizado e todas as problemáticas que lhe estão inerentes.

Também o professor é considerado uma figura central e de particular importância no processo ensino e aprendizagem e como elemento socializador e de referência na condução de um processo de ensino ativo, significativo, diversificado, integrador e socializador de modo a formar pessoas capazes de intervir e agir.

Os alunos, para serem ajudados a crescer, para aprender, enriquecer os seus conhecimentos e preparar a sua forma de estar na vida. Naturalmente com responsabilidades diferentes muitos deles revelam atitudes e afetos muitos diversificados. Pode ser um local de (des)integração, para quem lá estuda ou apenas está inscrito e até para quem lá trabalha ou lá está colocado. “A escola pode ser um excelente local de vida ou um tempo de falta…de vida.” (Patrício, 1995,p.251).

Fora dos muros da escola, para os alunos, o mundo parece atrativo e colorido, apresentando uma série de oportunidades e convidando o mesmo a fazer múltiplas descobertas.  No contexto escolar, tornar a experiência em sala de aula interessante é algo realmente desafiador, mas não impossível.

É importante que estejam patentes estratégias inovadoras de ensino, para que possam auxiliar o desenvolvimento dos alunos, não refiro unicamente ao uso exclusivo de novas tecnologias, também elas importantes, mas inovar utilizando velhos recursos, incluindo os tradicionais, mas nunca ultrapassados, livros didáticos, canetas e papéis (recursos estes explorados em sala de aula), podem permitir que a criatividade possa “colorir” a escola e dar significado ao ensino-aprendizagem através de projetos diferentes, interdisciplinaridade e aulas mais dinâmicas e interativas.

Motivar os alunos é importante, muitos estudantes vão para a escola porque faz parte das suas rotinas, tornar a escola enriquecedora, indispensável e como veículo transformador possibilita que os seus alunos estejam mais motivados e também eles saibam o que procuram dentro do ambiente escolar. A oferta de um ensino contextualizado, com elementos que fazem parte da vida do aluno e conteúdos que lhes façam sentido ajudará não só do ponto de vista cognitivo, mas também no que respeita à sua dimensão sócioemocional.

O Psicólogo deverá ser um elemento de ajuda e facilitador. O seu trabalho também vocacionado para a resolução de problemas específicos de alunos, professores ou pais, ou para a promoção das competências e condições favoráveis ao bem-estar e ao desenvolvimento psicológico deve incidir nos domínios: cognitivo (que inclua o desenvolvimento de competências e estratégias de resolução de problemas e de tomada de decisão); o emocional (que facilite a identificação e a expressão de sentimentos, o desenvolvimento de autoregulação e de estratégias de coping); o comportamental (que proporcione condições para a prática de estratégias de comunicação, de negociação e de interajuda); o motivacional (que desenvolva as expectativas de eficácia e controlo pessoais, que estimule a construção de metas e de projetos de futuro, que valorize a persistência e o esforço pessoal); e o contextual (que estimule a participação ativa e empenhada dos atores escolares).

Lanço este ano letivo o desafio de poder ainda intervir e melhorar as relações escola-família e comunidade. Sabendo que a prática de fatores como a variação nas opiniões, valores ou crenças entre pais, professores ou educandos, mostram muita relevância ao ponto de poder afetar programas, intervenções ou práticas e influenciar o curso de qualquer proposta ou tentativa de mudança.

Em contrapartida, fazer incidir as intervenções sobre as relações interpessoais e sistémicas, e facilitar a comunicação entre este níveis pode contribuir para ambientes escolares e interinstitucionais mais saudáveis e mais adequados à aprendizagem e manifestação de comportamentos adequados.

Termino esta reflexão tendo em cada ano letivo a certeza que o Psicólogo é envolvido num “meio” de experiências que vai de encontro ou não a um conteúdo teórico, onde as trocas vivenciais, as relações são construídas e os vínculos criados. Considero que a função do Psicólogo permite oferecer um conhecimento de uma observação diferenciada, face ao ambiente por vezes stressante, principalmente por lidar com a motivação e o desejo das pessoas, motivação em educar, em estudar, em trabalhar, em participar… em cooperar com os outros.

“Os principais problemas enfrentados hoje pelo do mundo só poderão ser resolvidos se melhorarmos nossa compreensão do comportamento humano” (Skinner)

Áurea Canas - Psicóloga - Membro Efetivo OPP nº 28